Chris Potter de volta às origens

Segunda-feira, 31 de dezembro de 2018. No palco do Village Vanguard, catedral mundial do jazz em Nova York, Chris Potter lidera dois sets da noite de réveillon, deixando o público enlouquecido com seus solos e seus improvisos acalorados. Ao final da apresentação, entre brindes e felicitações, ele anuncia que, ao final de fevereiro, lançará um novo disco, retornando ao groove de suas origens e explorando uma linha mais contemporânea, quase underground. A primeira resolução de ano novo ficou definida e todos saíram de lá ansiosos pelo lançamento.

Macaque in the trees
Capa do CD Circuits, de Chris Potter (Foto: Divulgação)

Depois de três discos aclamados lançados pela ECM Records, Potter inovou e decidiu assinar o seu novo álbum "Circuits" pela recente Edition Records (fundada pelo pianista Dave Stapleton). Acompanhado pelo tecladista James Francies (que já foi tema da coluna, no ano passado) e pelo exímio baterista Eric Harland, a nova música de Potter demonstra enorme química da banda. O álbum mistura a sonora eletrônica com interessantes ganchos e reviravoltas nas frases, sempre com uma energia implacável. Em algumas faixas, o baixista Linley Marthe acompanha o trio com o baixo elétrico.

"Invocation", primeira de nove faixas, soa como uma "falsa introdução" e leva diretamente ao profundo e excelente poli-groove de "Hold It", que é a verdadeira revelação do novo visual de Potter. A faixa constrói tanto a intensidade quanto a exploração improvisada, integradas pela bateria enérgica e inventiva de Harland e pelo teclado hábil de Francies. É o jazz moderno, imponente e forte; com uma infusão de jazz antigo. O solo desenfreado de Potter é hipnótico tanto em velocidade quanto em técnica, o que, é claro, se une à paixão que Potter oferece com toda intensidade de seu sax.

"Koutomé" foi uma das minhas favoritas, trazendo um tema dançante, onde o sax de Potter e a percussão remetem a uma atmosfera inspirada na África Ocidental. A variedade de metais de Potter cria um autêntico "Folk africano". "Green Pastures" tem uma sonoridade agradável e inventiva, com Francies destilando suaves tons com seu Fender Rhodes por toda a melodia. "Circuits" é uma faixa vibrante, cheia de diferentes texturas, mudanças de ritmo. Os músicos, jazzistas, de classe mundial, fazem uso de sons eletrônicos, adicionando, a todo tempo, profundidade ao som. "Pressed for Time" fecha o disco com esta pegada eletrônica, explorando ao máximo a criatividade e o improviso deste inventivo e virtuoso grupo.

A música de Potter mostra criatividade ilimitada e uma sensação vibrante de swing, levando críticos, músicos e fãs a incluí-lo no rol dos melhores saxofonistas da atualidade. Aos 48 anos, o músico nascido em Chicago mostrou que está livre ritmicamente, mantendo a versatilidade que sempre se mostrou presente em sua carreira, nos mais de vinte discos lançados, seja como band leader ou em participações feitas com outros gênios, como Steely Dan ou Pat Metheny.

Em "Circuits", Potter retorna às suas origens e incorpora sons eletrônicos modernos, demonstrando que não há limite ao jazz. A modernidade pode se fundir com influências tradicionais, para a criação de um som inteligente e inovador.

Bebop

Neste sábado, a cantora Alma Thomas homenageia a eternizada cantora e pianista Nina Simone, cantando seus maiores sucessos, no Blue Note Rio, às 20h.

Março promete ser um mês de grandes lançamentos no mundo do jazz. Christian Scott Atunde Adjuah, um dos mais talentosos trompetistas do jazz atual, anunciou para dia 22 o lançamento de seu novo álbum "Ancestral recall". A 1ª faixa, que leva o nome do álbum, já está disponível via streaming.