Novos sons do Mediterrâneo

O Jazz desempenhou importante papel na história da arte e do entretenimento no século XX, tendo sido um dos gêneros musicais que mais se transformou neste período, ainda que mantida a sua unidade harmônica. Assim, a paixão pelos clássicos, do ragtime de Nova Orleans e, posteriormente, Nova York e Chicago, nunca me impediu de desbravar o corpo celeste em busca dos novos sons. Nesta busca, identifico uma forte inclinação pelos sons advindos do mar mediterrâneo (que diga o libanês Ibrahim Maalouf, periódico por aqui), em especial aqueles com alusões árabes e africanas.

Nascida numa família argelina, Nesrine Belmokh desenvolveu desde cedo seu talento musical, tornando-se excelente cantora e virtuosa violoncelista, com passagens pelo renomado Cirque du Soleil. No projeto NES (que vem do apelido da cantora), ela se reúne com Matthieu Saglio, violoncelista francês, possuidor de extensa carreira com apresentações em mais de 30 países, e com David Gadea, percussionista espanhol, com referências jazzísticas e da música flamenca, para juntos produzirem um som com unificada identidade musical, com essências que passeiam do jazz à música clássica, em companhia do soul e também de música árabe tradicional.

O primeiro trabalho do trio foi lançado no segundo semestre do ano passado, com o nome de Ahlam (que significa “sonho” em árabe), após o encontro dos músicos em Russafa, área próxima a Valencia na Espanha. Gravado e mixado no célebre estúdio francês La Buissonne, e lançado pela lendária ACT music, o álbum, com dez faixas, contém canções em inglês, árabe e francês, tendo sido considerado um dos grandes trabalhos de jazz e world music do ano passado. A primeira apresentação ocorreu em setembro, na Filarmônica de Berlim, com enorme sucesso.

O álbum abre com a faixa título, que traz à tona toda a temática do álbum, repleta de beleza e emoção, escrita em árabe pela mãe de Nesrine, Allouane. Na sequência, “You made it hard”, é uma das minhas favoritas, em uma envolvente balada cantada em inglês. “Laisse moi entrer” (ou deixe-me entrar), faz a linha clássica do jazz francês, com forte presença dos violoncelos da dupla Nesrine e Mattieu. “Houzni” representa o melhor da música clássica do norte da Africa, como Nesrine gosta de contar em algumas entrevistas. Em “The world is blue”, a cantora mostra um diálogo pontiagudo, com toda a emoção que permeia o álbum. Novamente na melodia francesa, “Priere” fecha o disco, com a certeza de um trabalho impossível de ser categorizado, sendo necessário que seja ouvido algumas vezes, a fim de que o ouvinte se acostume com a mágica fusão de jazz, violoncelos e um pouco de música flamenca.

A música de Ahlem nos tira da zona de conforto e nos leva a abrir o leque para novos sons e um mundo com novas pessoas. Nesrine e sua turma caminham a passos largos para se tornarem mais uma ótima referência no som multilíngue, que mescla cultura, religião e identidade no universo histórico do jazz.

Que os sons vindos do Mediterrâneo sigam inspirando e expandindo seus horizontes. Como costuma dizer o mestre Wayne Shorter “Quem tenta definir o que é o jazz, não sabe o que está dizendo. O jazz está sempre se reinventando”.

Ainda bem.

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Bebop

Tributo no Blue Note Rio Falando em Wayne Shorter, o lendário saxofonista é homenageado por Marcelo Martins neste sábado, às 20h no Blue Note Rio.

Lançamento O veterano saxofonista Joe Lovano lança esta semana seu mais novo álbum, “Trio tapestry”, junto com o pianista Marilyn Crispell e o baterista Carmen Castaldi. Ótimas expectativas para a turma jazzófila.

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