IESA RODRIGUES
Uma parede de lembranças
Publicado em 21/06/2026 às 11:37
Alterado em 21/06/2026 às 11:43
O Dragão e a Lua, na parede do shopping Leblon Foto divulgação
Um shopping atual vai além da simples intenção de faturar. Mesmo que o vestuário continue liderando os espaços, há empenho em melhorar as áreas de alimentação, convidar restaurantes mais requintados ou abrir os olhos dos visitantes para temas culturais, menos comerciais. Alguns shoppings cariocas andam tentando mudar o perfil, como o São Conrado Fashion Mall e o Rio Design Leblon. O da Gávea perdeu algumas lojas, principalmente de vestuário, mas as âncoras da Farm, da Constance e a mais recente, Garage, dão conta de interessar as consumidoras. Nota-se a boa iniciativa de instalar clínicas médicas e laboratórios, além da novidade de novos lugares ligados à comida: a trattoria Gratzy é bonita e tem massas ótimas (preços médio R$ 85) e o espaço de cookies, em frente ao Entrecôte.
Outro que está ficando bem interessante é o silencioso Gavea Trade. Tem salão com boas manicures, espaço de Pilates, o Vivazen, lojas de doces, como a Sin (em inglês, pecado, brincadeira com quem curte doce, bolo, cookie), a Ginseng, pioneira nas importações comestíveis. E na parte de moda, vale notar que mostram roupas realmente prontas para vestir. Tanto que as peças somem rapidinho das vitrines. E a Agnus Dei, grande loja de artigos religiosos.
O meu querido Rio Sul se empenha em renovar o mix, mas até agora a H&M não mostrou a que veio. O Rio é uma cidade difícil de conquistar, e fazer eventos na praia não resolve coleções que não competem com as vistas nas lojas semelhantes como a Renner ou a C&A. Não tenho ido ao Barrashopping, mas deve continuar a ser um belo teste de resistência física, de tão grande que ficou. É uma caminhada que vale a pena.
Já o shopping Leblon, um dos que melhor apostam no marketing e nas inovações rápidas, leva os visitantes a se interessarem por Arte. Logo na parede de entrada, a ArtWall, há sempre uma obra ou uma instalação que pode ser devidamente registrada em selfies, para mostrar que houve uma visita a um dos bons shoppings da cidade.

Cápsulas de café fazem parte da obra de Sandra Lapage Foto divulgação
Até o dia 09 de agosto está instalado um dos murais mais intrigantes, trabalho da artista Sandra Lapage, com curadoria de Christiane Laclau. É quase uma tapeçaria, representando o Dragão e a Lua, sem tinta, bordado ou contas. São cápsulas de café junto com materiais descartados e outros objetos naturais.
O dragão e a lua, que dão nome ao trabalho, não aparecem de forma literal. As imagens surgem por meio da pareidolia, fenômeno psicológico que leva o observador a reconhecer figuras familiares em formas dispersas. Cada visitante completa a obra a partir do próprio olhar.
Sandra responde a perguntinhas, já que o Dragão e a Lua tem seu lado prático além do misterioso:

Sandra Lapage, autora da obra no Art Wall Foto: divulgação
Quanto tempo para produzir este mural?
Demorou seis meses e pouco, foi particularmente demorado porque incorporei linguagens e tramas novas na trama-tecido de alumínio. Este mural tem sido uma oportunidade para reunir pequenos tesouros do dia a dia, coletados ao longo dos anos, e também tramas e linguagens diversas desenvolvidas em paralelo. A trama-alumínio tem um tempo de fatura fluido e relativamente rápido, enquanto as inclusões de outros materiais e linguagens requerem mais tempo.
Onde conseguiu o "material"?
Meus materiais são praticamente todos doados, com exceção dos objetos que fui encontrando pessoalmente ao longo dos anos - ambos, presentes e encontros - eu guardava para a realização de uma obra especial. As cápsulas de café em particular, são as que são doadas em maior volume; em segundo lugar, o alumínio de garrafas de vinho. Recebo tanto material que nunca dei conta de preparar todo.
Como aprendeu a manipular as "peças"? Na faculdade?
Fiz graduação em arquitetura; anos depois (quase 15) fiz meu mestrado em artes visuais. Na época eu ainda trabalhava com materiais artísticos tradicionais, como papel, tinta e blocos de madeira. Alguns anos depois passei a me interessar por materiais encontrados. Eu desenvolvi, e continuo a desenvolver, meus próprios métodos de preparo e de costura dos elementos. À medida que incorporo novos materiais, também acho novas soluções de assemblagem.
Este é seu primeiro trabalho do gênero?
Tenho trabalhado com materiais reciclados e alumínio em particular há quase 10 anos. Mas o que posso dizer é que este mural é a primeira tapeçaria-mapa de afetos.
Já criei um projeto deste tamanho para um ambiente corporativo, para os escritórios da Meta em São Paulo. Há peças que se resolvem na superfície do alumínio, como composição cromática, basicamente. Com um certo ondulado e camadas, como tecidos, mas que funcionam primeiro pela superfície, e este foi o caso deste primeiro grande projeto.
Mas para mim, as peças mais interessantes são as que misturam diferentes materialidades, texturas e características físicas. Também me interessam mais as que trazem surpresas nas formas que se materializam, que são “enigmas” a serem entendidos, sentidos.
Nesta tapeçaria para o Artwall também comecei a costurar “presentes” colecionados ao longo dos anos: presentes e rastros de pessoas, lugares, encontros.
Pensei nas tapeçarias medievais, como as Tapeçarias do Unicórnio, e como contam alegorias por vezes herméticas, que acabam deixando a interpretação livre. Por extensão, entendo este mural como um mapa-tapeçaria de afetos, lugares, pessoas e outros seres, e neste sentido é o meu primeiro trabalho deste gênero.

Inspiração medieval: as tapeçarias de Unicórnio Foto: reprodução