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Iesa Rodrigues

Saia curta tem história

Já que sobram dúvidas sobre o futuro da moda, vale estudar o passado, que valoriza o lado artístico e criativo do que nos veste. ...

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Já que sobram dúvidas sobre o futuro da moda, vale estudar o passado, que valoriza o lado artístico e criativo do que nos veste. Mais uma vez a França demonstra seu apreço pela moda como manifestação cultural e artística. O INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) é um arquivo criado em 1951 sob a tutela do Ministério da Economia e das Finanças da França. Guarda verdadeiros tesouros de documentos desde o século 18. Pesquisando estes arquivos, a equipe editorial da publicação francesa Runway Magazine organizou um histórico focando a saia curta.

Desde as cavernas
Segundo a pesquisa, a saia curta existe desde a pré-história, usada por homens e mulheres. Nem emancipação nem mudanças sociais fizeram a saia encurtar em culturas primitivas - no tempo das cavernas, era a maneira mais simples de cobrir a parte inferior do corpo. Estatuetas localizadas na atual Sérvia e na região dos Bálcãs, no início da Era do Cobre, mostravam o uso das saias curtas da cultura Vinca (entre 5.700 a 4.500 AC).

Também basta olhar as pinturas representando os povos do Egito e da Mesopotâmia para ver as saias de linho amarradas. As classes mais altas usavam modelos plissados. Na Idade Média, os cavaleiros vestiam saiotes por baixo das armaduras. Mas uma das primeiras culturas a adotar saias mais curtas foi o povo Miao, no sul da China. Eles usavam Duan Qun Miao, que significava justamente saia curta Miao.
Depois das crises

No começo do século 20, apareceram as adeptas do Rainy Day Club (Clube dos Dias de Chuva), que usavam comprimentos que não arrastavam no chão, nem se molhavam nas calçadas de chuva. Em seguida à Primeira Guerra, que matou muitos jovens na Europa, a reação foi a euforia de festas e noites de dança, as saias de franjas, uma espécie de compensação pelas tristezas.

Algo parecido aconteceu depois da Segunda Guerra: as americanas adaptaram os uniformes de trabalho masculinos, e as europeias aproveitaram para tornar os vestidos mais práticos, mais sensuais e mais curtos, a partir da necessidade de vestir roupas de enfermeira.

Segundo a equipe de editores do Runway Magazine, “os tesouros do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) francês relembram hoje, através de diferentes títulos de propriedade industrial, a evolução e os múltiplos modelos de saia desde o século 19 até os dias de hoje”

Invenções do século 19 e 20

A revolução industrial incentivou as maiores e mais rápidas transformações das roupas. Tanto em termos de forma como de uso prático. Mas ainda sobrou um tempo para as crinolinas e as gaiolas de arame que davam roda às saias longas que viraram moda. Pior, ainda havia os espartilhos e armações da cintura para cima. Foi preciso a genialidade do estilista e costureiro Paul Poiret para libertar as mulheres destas torturas imobilizantes. Outro motivo para sair destes entraves era a vontade das mulheres de praticar atividades como a equitação, andar de bicicleta, jogar tênis e patinar no gelo. Muitas ideias facilitaram estas mudanças de hábitos. Mas só em 1972 há um registro, da Lacoste, que assumiu um saiote para as quadras.

Coco Chanel foi uma das inventoras mais revolucionárias do princípio do século 20. Além de encurtar as saias, usou malhas finas em modelos mais leves, inspirou-se nos tweeds dos caçadores ingleses, ensinou as mulheres a misturarem joias e bijuterias.

Nos anos 1950/1960 foi a vez de Christian Dior revolucionar as coleções, e a bainha das saias subiu. Fora deste status rico, de Alta Costura, mais uma mudança ocorreu, do outro lado do Canal da Mancha, devidamente registrada no INPI: para as mulheres “que tinham que correr para pegar um ônibus”, a inglesa Mary Quant (autora da justificativa dos ônibus) consagrou a minissaia como a favorita das jovens.
Em 1965 o francês André Courrèges registrou no INPI sua primeira minissaia. Estes lançamentos se tornaram símbolos da liberação sexual feminina dos anos 1960, uma oposição à ordem conservadora da época.

Retrocessos previstos
A moda tem destas coisas: depois de um ciclo de no máximo 10 anos, ela manda vestir o oposto. Nos anos 1970, próximos do fim da guerra do Vietnã, o movimento hippie trouxe de volta as saias longas, com a inspiração boêmia ou cigana. Nos anos 1980, o ciclo dos 10 anos voltou a encurtar os comprimentos. Uma década extravagante, de cores fortes ou neons. Em 1984 o francês Jean-Paul Gaultier sugeria a moda unissex, com homens de saias e mulheres de calças ou saias-calças para todos.

Nos anos 1990, junto com as guerras do petróleo (a Guerra do Golfo), a moda fica mais minimalista e sem cor. O grunge predomina. Saias curtíssimas convivem com longas. Nesta década, a moda de rua ganhou força, e a juventude surpreendeu vestindo saias sobre calças.

Segundo a Runway Magazine, “em formas, cores, comprimentos, materiais e motivos variados, a saia deixa um rastro duradouro nas ruas e passarelas. Reflexo das mudanças sociais e políticas, além de indicador do lugar das mulheres no espaço público, a saia é uma peça icônica, atemporal, reinventada sem cessar”.

Ilustrações e pesquisas cedidas pelo INPI / Runway Magazine.

Macaque in the trees
Registro de 1965 das criações do francês André Courrèges (Foto: Foto: reprodução)

Macaque in the trees
Nos anos 1990, calças largas e saias bordadas, em 2020, as máscaras como acessórios (Foto: Foto: reprodução)

Macaque in the trees
Saias rodadas e mais curtas deram glamour aos anos 1950, enfatizadas por Dior (Foto: Foto: reprodução)

Macaque in the trees
De 1923, as primeiras criações simplistas de Gabrielle Coco Chanel (Foto: Foto: reprodução)

Macaque in the trees
Angelique Caroline Milliet registrou no INPI estas gaiolas, que davam volume às roupas em 1856 (Foto: Foto: reprodução)

Macaque in the trees
Resumo da história da saia, pelos arquivos do INPI francês (Foto: Foto: reprodução)

Macaque in the trees
Na Pré-história, as saias usadas por homens e mulheres nas culturas europeias (Foto: Foto: reprodução)

 



Registro de 1965 das criações do francês André Courrèges
Nos anos 1990, calças largas e saias bordadas, em 2020, as máscaras como acessórios
Saias rodadas e mais curtas deram glamour aos anos 1950, enfatizadas por Dior
De 1923, as primeiras criações simplistas de Gabrielle Coco Chanel
Angelique Caroline Milliet registrou no INPI estas gaiolas, que davam volume às roupas em 1856
Resumo da história da saia, pelos arquivos do INPI francês
Na Pré-história, as saias usadas por homens e mulheres nas culturas europeias
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