R.I.P. KAISER!

Pelo menos um vínculo Karl Lagerfeld, que morreu ontem em Paris, tinha com o Brasil. Ele pertencia, desde 1993, ao Conselho Consultivo do Instituto Zuzu Angel/Museu da Moda, conselho presidido por Eleanor Lambert, que fez o convite a todos os membros - inclusive a Yves Saint-Laurent, que também aceitou. E quem recusaria um convite da "Czarina da moda americana", conforme a mídia internacional a chamava? Com o Conselho, Eleanor deu bons aconselhamentos ao recém-criado instituto - hoje com 26 anos. Um deles foi a aquisição de um vestido da Princesa Diana, no primeiro leilão de suas roupas, ela ainda viva, em benefício das crianças com Aids. Orientação que seguimos, naturalmente.

Macaque in the trees
Hilde 10-20/02/2019 (Foto: Divulgação)

Chamado de "o Kaiser da moda", Lagerfeld, segundo os biógrafos e seus familiares, nasceu em 1933, e tinha 85 anos. Segundo ele mesmo, a data é 1938, mas já se contradisse e falou 1935. Precisamos tirar uma média. Alicia Drake, pesquisadora da moda, disse que Karl era tão fantasioso que chegou a forjar uma origem aristocrática.

O estilista definia o trabalho como "o único segredo da vida". Era um produtivo e criativo incansável. Sua fórmula para ajudar a fazer bom trabalho era "ter vida decente, não beber, não fumar, não tomar drogas". Trabalhava feito louco, em vários outros projetos além da moda: fotografia (era ele quem fotografava as próprias campanhas), design, cinema, publicações, tinha uma editora e uma gravadora. Projetou o décor de quartos de hotéis, uma BMW, capacetes de motociclistas, videogames, marca de make-up com o nome de sua gata, Choupette. Ah, fez também campanha publicitária para sorvetes e esculpiu em chocolate, em tamanho real, o modelo Baptiste Giacobini, conhecido como seu "namorado platônico". O grande nome da haute couture pisou com sua bota até na "fast fashion", criando moda de massa para a rede H&M, um completo sucesso. E se explicou: "Elitismo em massa sempre foi meu sonho, é o futuro da modernidade."

Macaque in the trees
Hilde 16 (Foto: Divulgação)

Amigo íntimo de Yves Saint-Laurent quando eram jovens, eles acabaram se tornando os maiores rivais da moda. Ambos tiveram o mesmo começo: vencendo - e no mesmo ano - o Woolmark Prize. Karl, com o croqui de um casaco. Yves, na categoria vestido. Depois de trabalhar para Balmain, Lagerfeld criou para Patou, Chloé, Krizia, Charles Jourdan, Mario Valentino e, a partir de 1965, para Fendi. Até que, no início dos 80, dez anos após a morte de Chanel, quando a marca começou a exalar perfume de decadência, o estilista foi chamado para reinventá-la pelos proprietários da empresa, os irmãos Wertheimer. Com clientela cada vez mais restrita, "Chanel só era usada pelas esposas de médicos parisienses" - comentário ácido de Karl. Disse também: "as pessoas se esquecem que Chanel era como um chapéu velho" (quando ele assumiu a marca).

Lagerfeld teve a sabedoria de manter o melhor de Coco Chanel, as camélias nos casacos de tweed, as pérolas, a costura suave dos terninhos desestruturados, usando isso tudo como base para extravagâncias, como imensos logotipos, micríssimas saias, tênis de lantejoula. Ele também tornou suas proporções mais finas e alongadas. Acreditava que as mudanças deveriam ser feitas sem nostalgia e com muito humor: "Porque a moda é hoje, se você fizer do jeito que era no passado ninguém vai querer." A transformação fantástica operada por K. Lagerfed em Chanel se tornou um case de sucesso da moda, mas, para isso, valeu a inteligência dos irmãos Wartheimer, que lhe deram liberdade total e absoluta para criar e gastar, ao longo desses quase 40 anos. Foi essa largueza que permitiu a Karl, entre outras coisas, montar as famosas mise-en-scènes espetaculares dos desfiles de lançamento de Chanel, fazendo subir ao céu até um foguete em tamanho real.

Homem extremamente culto, memória fabulosa, ele se dizia "um Google da moda." Sabia de tudo, História, Artes em geral, pessoas. O que lhe permitia inspiração infinita, viajando pelos mais diferentes temas em suas criações.

A exemplo de Saint-Laurent e Valentino, colecionava casas em várias cidades. Com o mesmo prazer que as decorava, desmanchava e se desfazia do mobiliário, mudando os estilos de acordo com a tendência de seu momento. Com seu ritmo alucinante de produção na indústria do luxo, o criador das coleções de Chanel, Fendi e Lagerfeld será sucedido na criação da Chanel por sua colaboradora há 30 anos, Virginie Vlad. Resta saber se ela terá a mesma sagacidade para construir uma imagem pessoal, como fez Karl, que perdeu 92 quilos para compor a silhueta skinny em calças jeans com botas, blazers muito justos e camisas brancas com a gola engomada, com seu rabo de cavalo branco e óculos imensos. A imagem tornou-se tão forte que ele a usava como logotipo em chaveiros, camisetas e bolsas da Fendi.

Do alto de seu patamar, o "Kaiser da moda" disse coisas como: "calça de moletom é sinal de derrota"; "tatuagens são horrorosas - é como vestir um Pucci em tempo integral"; "os logotipos são o esperanto da moda" e "os gordos são pouco atraentes."

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MARIBOULOS

O diretor do filme Marighella, o ator Wagner Moura, prometeu a Guilherme Boulos que o lançamento de seu longa no Brasil será numa ocupação do MTST. Boulos comemora: "Vai ser histórico!".



Hilde 10-20/02/2019
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