AS LUZES DA RIBALTA SE APAGAM: MORREU BIBI FERREIRA!

Morreu ontem a estrela de todas as épocas e todos os gêneros, a intérprete com tradição, patrimônio do Teatro Brasileiro, Bibi Ferreira. Acompanhada de enfermeiros, ela despertou às 13h50m, reclamando de falta de ar. Deu um suspiro e foi se encontrar com Dioniso, o deus grego do teatro.

Eu tinha por Bibi uma devoção que só se costuma ter pelos santos. Eu a achava uma divindade extraterrena, uma aparição iluminada, um toque de Deus sobre a Terra. Seu talento extrapolava definições, classificações, elogios e comparações. Era sem limites. Certa vez, em Ouro Preto, houve uma apresentação de Bibi, nos festejos de inauguração do museu de Angela Gutierrez. Foi montado um grande palco ao ar livre, e eu tive a sorte de um lugar na primeira fila. Ela apresentava "Piaf", espetáculo que eu já havia assistido incontáveis vezes. Mas, naquela noite, Bibi superava a própria Bibi. Ao fim da apresentação, ajoelhei-me diante dela, que havia nos brindado com momentos para sempre.

Bibi Ferreira era generosa. Éramos amigas. Quando me casei, ela me deu um abridor de luvas, peça antiga. Eu, que nunca havia visto um abridor de luvas, achei que devia ser alguma coisa como um quebra-nozes, e o guardei no armário dos faqueiros. Lá ficou a peça durante anos, até que, recentemente, procurando determinada colher, encontrei o estojo com - agora eu sei - o abridor de luvas. Imediatamente, ele foi incorporado ao Acervo Bibi Ferreira, em nosso museu da moda, Casa Zuzu Angel, na Usina. Lá já está o vestido de festa, longo, coberto de paetês, em tons do creme ao laranja, que minha mãe fez para ela, e Bibi teve a gentileza de presentear, quando soube do museu. A roupa veio junto com o par de boás de plumas que a completavam. Não foram os únicos presentes de Bibi. Em certa premiação, uma das centenas de homenagens que já recebeu, ela se comoveu com crônica minha a respeito, e me enviou de presente o troféu. Consiste numa folha ondulada de ouro, que pode ser usada como um adorno de roupa, um clip. Mas o real valor da peça era ter pertencido a Bibi Ferreira. Lá se foi a folha para o acervo.

Acessível e franca, Bibi foi sempre solidária à luta e à busca do filho, por minha mãe. Tanto que, quando inaugurei o Instituto em sua memória, eu a convidei para ser Zuzu por uma noite, em espetáculo no Palácio da Cidade, do prefeito, dirigido por Pedro Sayad. No palco, vestida de preto, véu cobrindo a cabeça e grande crucifixo no pescoço, Bibi reviveu a mater dolorosa com grande emoção, narrando sua vida na primeira pessoa, e falando de sua moda, enquanto os modelos das diferentes fases da criadora eram desfilados na passarela.

Choveu muito naquela noite, e era o Dia de Nossa Senhora da Conceição. O show aconteceu entre raios e trovoadas, de que Bibi tomou partido, adicionando ainda mais dramaticidade à sua interpretação. Na plateia, Adolpho Bloch chorava feito criança, emocionado com o desempenho de Bibi, aquela que protagonizou o maior momento de seu Teatro Manchete: como Dulcinéia, em Don Quixote, ao lado de Paulo Autran.

Seu amor pelo marido, o dramaturgo talentoso Paulo Pontes, foi infinito. E conturbado. Era intensa em seus romances e paixões. Eles viviam o céu e o inferno, na mais absoluta plenitude. Com ele, Bibi fez, em 1972, a extraordinária Gota D'Água, texto de Pontes, música de Chico Buarque. Um dos mais notáveis desempenhos de sua carreira, toda ela notável.

Filha do monstro sagrado Procópio Ferreira, pequeno como ela, olhinhos puxados, ombros retos, pescoço curto, Bibi era Procópio 2. Bem, não era uma mulher bonita, mas em cena ficava incrivelmente bela, se assim desejasse. Daí minha teoria de seu dom de se transfigurar.

Visitei-a, uma vez, num apartamento, no imenso prédio pertencente ao Clube Flamengo, na Av. Rui Barbosa, ainda morando com sua mãe, dona Aída. O cenário de uma diva, e com muitas antiguidades. A começar pelo piano majestoso de cauda, preto, com pés torneados, esculpidos. Poderia ser um piano do Scala de Milão. Sobre ele, um xale franjado, encimado por porta-retratos.

Morreu na mesma Av. Rui Barbosa, mas em outro prédio, mais luxuoso, num apartamento de último andar, com a vista mais bonita do mundo: o nariz esbarrando no Pão de Açúcar, o Iate Club e o mar coalhado de barquinhos. Bibi havia colocado o apartamento à venda, e sua empregada fiel o mostrava aos visitantes, cômodo por cômodo. Mas havia um especial: a sala em que a diva passava seus dias, ensaiava, solfejava. Uma sala escurecida por cortinas pesadas, com móveis preciosos, poltrona de veludo boutonné, e franjas. Estávamos em Paris da Belle Époque.

Quando estava em temporada, ela estendia o sono pela manhã, entrando pela tarde. Não atendia a telefonemas, para não sobrecarregar a voz, e não aceitava convites. Era de casa para o teatro, do teatro para a casa. Bibi obedecia a um ritual severo de tranquilidade e método, visando exclusivamente o aspecto profissional: a atriz. Preservava a voz, economizava o físico e o tempo, que se tornou longevo para ela, e nos concedeu a sorte de ter Bibi por 96 anos.

O mesmo rigor que tinha consigo mesma, tinha com os elencos que dirigia. Ensaiava à tarde até, pontualmente, oito horas da noite, e mandava todos embora, dizendo que descansassem bastante e, pela manhã, estudassem o texto da peça em casa, para retornar à tarde. Mantinha seus atores em imersão total, no desafio de atuar o melhor possível.

O cenógrafo José Dias, parceiro de Bibi em várias montagens, lembra que ela precisava ver a maquete dos cenários antes da marcação dos atores, para ter a precisa noção do espaço. Ele levava a maquete pronta à casa de Bibi diretora e, juntos, passavam a peça, cena por cena, de acordo com os cenários. Uma profissional atenta a tudo. E também respeitosa. Quando precisou mudar de posição uma bérgère, na peça "O preço", de Arthur Miller, chamou o cenógrafo e pediu autorização para virar a cadeira para a frente, porque queria Paulo Gracindo encerrando a peça, dando uma gargalhada de frente para o público, e não de lado. Surpreso, José Dias comentou: "É esse o problema? Mas você podia fazer isso sem precisar me consultar, você é a diretora!". E Bibi: "Eu sou a diretora, mas o cenógrafo é você".

Sua criatividade e seu rigor como intérprete e como diretora eram absolutos. Na peça "A sauna", no Teatro Villa Lobos, inventou um final espetacular: quando as atrizes Maitê Proença, Claudia Jimenez, Angela Leal, Nivea Maria, Sura Berditchevsky, todas nuas, mergulhavam numa imensa piscina. Várias cortinas de aplausos.

Ultimamente, havia entregue a administração de sua vida a seus empresários, Montenegro e Raman. Nada fazia sem a autorização deles. Fui emissária de uma sondagem, se Bibi aceitaria ser membro da Academia Brasileira de Artes, uma academia centenária, das mais antigas e respeitadas do país. Bibi pareceu encantada com o convite, ficando de retornar para combinar uma eventual posse. Ligou de volta para agradecer o convite e dizer à academia, que, sem o aval de seus empresários, não fazia nada, não aceitava nada, não se mexia, sem sua autorização: "Estou nas mãos deles", disse. Bibi não precisa de títulos, é imortal por ela mesma.

A última vez em que vi um espetáculo de Bibi, fiquei preocupada. Foi na reinauguração do Teatro Serrador. Uma linda apresentação da estrela. Ao final, começaram discursos e homenagens, e Bibi, visivelmente exausta, tentava encerrar o evento, mas, bisou quantas pediram as autoridades presentes, patrocinadoras do teatro no Rio - o Secretário de Cultura, o prefeito etc. Mesmo cansada, jamais falhava.

Bibi era maravilhosa e interminável. Atuou até o final de 2017. Em 2018, começou a ensaiar um tributo a Dorival Caymmi, nos 10 anos de morte do compositor. O projeto era o circuito Teatro Casa Grande, no Rio, Renaissance, em São Paulo, e viagem pelo Brasil inteiro, como costumavam fazer. Até que ela chamou Raman, o empresário, em casa, e sugeriu que suspendessem a produção. Assim foi feito. Frágil, foi hospitalizada e, em agosto do ano passado, teve alta. Em setembro, Raman e Montenegro publicaram na página da atriz uma carta de despedida dos palcos e das entrevistas. Ousada e modesta, dizia que atuar era "80% coragem e o resto é talento". Bibi era exceção: talento cem por cento.

Uma Elisa Doolittle fantástica, em My Fair Lady; Joana, em Gota D'Água; Dulcinéia, em Don Quixote. Atriz e diretora de incontáveis sucessos, simbolizava a tradição do melhor teatro, dedicação plena, rigor total. Brilhou no Teatro, no cinema, na TV, e sempre liderando audiências. Engajada politicamente. Profissional plena, mulher plena, referência sempre. Bibi!

Com João Francisco Werneck