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Para sempre, Gisella Amaral

Arquivo -
Lá em casa, com Gisella, que emulava carinhos em todas as direções
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Já estava com a página pronta, quando recebi a pior notícia: minha querida amiga, madrinha duas vezes, parceira, pessoa muito amada, Gisella Amaral sucumbiu ao câncer que há anos retornou e a corroía por dentro. Lutou bravamente até o último momento, sem se queixar, sem reclamar da vida, mantendo o humor e a altivez, e ajudando os outros. Há duas semanas, conseguiu a hospitalização no Hospital do Câncer, da menina Vitória, filha de uma ex-empregada de uma amiga. Gisella era assim. Não se preocupava consigo, se preocupava com o próximo. Quando mudei para o novo apartamento, fiz uma sala toda azul e branca, e dediquei a ela, “Sala Gisella Amaral”. Nós a inauguramos juntos, os dois casais, com risadas, champagne e lembranças. Gisella adorava o azul e branco na decoração. Seu apartamento de Miami era todo blue & white. Certa vez, como sua hóspede, ao acordar a encontrei toda azul, o caftan longo, também o laçarote nos cabelos, toda combinadinha, e passando aspirador na casa. Isso, depois de ter corrido na praia e remado sei lá quanto tempo. E eu achando que acordava cedo, depois de chegar tardíssimo na noite anterior, do tour pelos restaurantes e nightclubs, e Gisella ainda prosseguiu com Ricardo. Sua pilha era interminável.

Macaque in the trees
Gisella era azul, como a Terra vista pelos astronautas, o fundo do mar e o Céu, que a recebe de braços abertos (Foto: Arquivo)

Chegamos, eu e Francis, a marcar com Ricardo, secretamente, a inauguração da Sala Azul, e fizemos uma lista longa de amigos. Ela pensaria que era para celebrar meu aniversário, e quando chegasse a festa seria para ela. Combinamos menu, organizamos a casa, redigimos os convites, mas, por fim, Ricardo, triste, me disse que Gisella não teria condições, havia sido hospitalizada. Foi uma das tantas hospitalizações nesses últimos quatro ou cinco anos. Gisella tinha enorme confiança em seus médicos, na excelência do Sírio e Libanês e na eficiência do novo tratamento à base de imunoterapia. Nunca mudou o seu ritmo. Chegou a quase desmaiar no elevador do Hippo, porque insistia em prestigiar os eventos da casa, mesmo com a forte oposição de Ricardo. Ela era a sua luz. A luz de todas as casas que ele abria. A luz para todos nós, que tínhamos o privilégio de sua amizade.

Alguns a chamavam de “Santa Gisella” e, garanto, não era exagero. Talvez eu tenha sido uma das primeiras a saber da volta de seu câncer. Estávamos juntas no carro, voltando de Cabo Frio, e ela comentou sobre um carocinho que lhe apareceu na área das axilas, e poderia ser uma recidiva do câncer, mas que ela iria fazer o exame. E era. Para Gisella não bastam uma crônica ou um obituário. Sua importância como ser humano transcende palavras. Seus feitos são inúmeros. A preocupação permanente em fazer o bem. Criou a SorRio, para levantar recursos para as obras de caridade. Inventou o Arraial do Jockey Club, para arrecadar fundos para a Cúria. Saiu Brasil afora, fazendo palestras de prevenção do câncer de mama, usando seu exemplo pessoal, e estimulando as mulheres a se cuidarem.

Tratava a todos igualmente, ricos e pobres, jovens e velhos, brancos e pretos, humildes e arrogantes, pois nem estes últimos resistiam ao seu carisma de bondade, compreensão e tolerância humana. Frágil, muito magra e linda, com os cabelos presos em coques de grandes volumes, e que deixou ficarem grisalhos depois que voltaram a crescer, Gisella era sempre a grande presença. Tinha um probleminha com o horário. Como assumia múltiplas obrigações com todos, e não queria falhar com ninguém, estava sempre atropelada pela sua agenda “onipresente”. Sabíamos que ela seria a última a chegar no almoço, na festa, no jantar. E chegava com sorrisos, explicando de onde vinha, algum hospital ou algum asilo de velhos, ou o aniversário de uma amiga idosa. Não faltava aos que contavam com ela.

Macaque in the trees
Com seus grandes amores, os filhos Bernardo e Rick, e Ricardo Amaral (Foto: Arquivo)

Outra coisa carinhosa era sua relação com as netas, e vice-versa. E assim como Gisella cuidava dos outros, as netinhas olhavam por ela. Como vi uma vez, no Shopping Leblon, quando a neta pequenininha insistia para Gisella comer alguma coisa, pois estava “fraquinha”, e Gisella pediu um sorvete. Era absolutamente frugal. O que preocupava a todos.

Seu automóvel, ela chamava de “escritório”. Tinha tudo que uma executiva precisa. E seu grande instrumento de trabalho era seu poderoso caderninho de telefones.Gisella era várias. Samaritana, relações públicas, executiva social, cumpridora dos protocolos todos e muito criativa. Tinha sempre uma ideia extraordinária para fazer o bem, e levava adiante.

Macaque in the trees
Lá em casa, com Gisella, que emulava carinhos em todas as direções (Foto: Arquivo)

Para dar conta de sua programação puxada, ela chegava a mudar de roupa a bordo do automóvel. Era de um preciosismo raro. Quando recebia em sua cobertura simpática do Leblon, “redecorava” o hall de entrada do prédio, com flores brancas degrau acima, e vestia os móveis e poltronas com tecido bege e branco e grandes laços. Ficava lindo.

Era duas vezes Amaral. De solteira e de casada. Ricardo Amaral vinha em primeiro lugar em sua vida, em todas as situações e em todos os momentos. Sua dedicação a ele era absoluta. Por isso sei como Ricardo precisará agora do conforto dos amigos. Mas não sei se terá forças para receber a torrente de carinhos que há de abater sobre ele.

Dias atrás, antes de partir para mais uma fase do tratamento em São Paulo, ela ligou para algumas amigas. Com quem não conseguiu falar, deixou mensagem gravada. O tom era de despedida.

Perder Gisella não estava em nossos planos. Ela era imortal em sua fé.

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Gisella Amaral morreu no Hospital Pro-Cardíaco, onde se despediu e recebeu a extrema-unção do padre Túlio. Haverá missa de corpo presente, hoje, às 13 horas, na Igreja de São José da Lagoa.

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Com João Francisco Werneck

Arquivo - Com seus grandes amores, os filhos Bernardo e Rick, e Ricardo Amaral
Arquivo - Gisella era azul, como a Terra vista pelos astronautas, o fundo do mar e o Céu, que a recebe de braços abertos