Autodidata predestinado ao sucesso

Alexandre Machafer é subsecretário do Centro Cultural Cesgranrio e produtor executivo de todos os projetos de audiovisual da Instituição. Aos 36 anos, ele é o expoente da nova geração de diretores brasileiros, tendo sido premiado, recentemente, em duas importantes ocasiões. Sua websérie “Anos radicais” levou o prêmio de Melhor Direção Infanto-Juvenil do Rio WebFest, o maior festival de webséries do hemisfério sul. Além disso, no último dia quatro, seu trabalho em “Bem-aventurados” levou o prêmio de melhor série no Festival Internacional de Cinema Cristão.

É por este e outros motivos que ele é o entrevistado desta semana na Coluna, pelo repórter JOÃO FRANCISCO WERNECK. Dotado de grande talento e um entusiasta da criatividade por trás das câmeras, ele nos explicou os detalhes de suas produções, assim como sua ascensão meteórica no mercado audiovisual brasileiro. Em fevereiro, Alexandre Machafer irá lançar o seu primeiro longa, o “Filho do Homem”, que estará em cartaz nos cinemas cariocas. Sobre o projeto, ele se orgulha em relatar que 95% das locações do filme foram feitas no Rio de Janeiro.

Macaque in the trees
Alexandre Machafer com seu par de estatuetas. As primeiras de uma coleção que há de vir (Foto: Claudio Pompeu)

Atualmente, ele está filmando o “Brasil Imperial”, uma superprodução educativa que irá abordar um longo período da história brasileira, de 1808 até 1889. Foi nas gravações desta web série, no Gabinete Real Português de Leitura, que encontramos Alexandre para esta imersão no audiovisual brasileiro sob a ótica de quem ainda está começando.

Fato é que ainda ouviremos falar muito de Alexandre Machafer, esse autodidata predestinado ao sucesso, que lança também, no segundo semestre de 2019, o primeiro longa-metragem sobre São Jorge, padroeiro não oficial da cidade do Rio de Janeiro.

COLUNA - Fale um pouco da sua carreira, conte sua trajetóriaaté aqui.

ALEXANDRE MACHAFER - O aprendizado veio da vida, mesmo. Essa parte de direção foi uma percepção totalmente autodidata. Eu fiz uma faculdade de direção e um curso, mas foi como ator que eu me formei. Consequentemente, depois de ter feito “Anos radicais”, de ter trabalhado com o audiovisual e o cinema, e de ter feito “Bem-aventurados”, resolvi fazer uma pós em cinema documental, na FGV, com o Eduardo Escorel. Isso foi incrível. Me deu outra visão, outro olhar. Aprofundei a teoria, e sai um pouco da prática do dia a dia. E estou podendo utilizar esses conhecimentos em novos projetos.

E a carreira de ator?

A.M. – Eu nunca pensei em ser ator. Mas as coisas foram acontecendo, e hoje, quando paro para pensar onde estou, entendo toda aquela trajetória lá trás. Eu morava em Campos, no interior, fazia administração, e estava um pouco perdido. Vim para Rio de Janeiro acompanhar um amigo e me apaixonei pelos estúdios da Globo, pelo teatro… Ali, alguma coisa me tocou. Foi quando eu entendi que tudo o que eu estava fazendo não era o que eu queria. Três dias depois, eu me mudei para cá. Fiz um curso na Estácio, de teatro, e depois me formei na CAL, no profissionalizante.

E as Web Séries?

A.M. – O primeiro contato foi na Fundação Cesgranrio. E eu sabia muito pouco. Não tive um mentor, tive pessoas que foram acreditando em mim. Comprei uma câmera, uma 7D, que estava entrando no cinema, e fui aperfeiçoando minha técnica. Mas eu nunca fui assistente de um diretor para aprender diretamente com ele.

Qual foi a sua inspiração para produzir essas séries online?

A.M. – Foram várias web séries. Eu assisto muita coisa, mesmo. Não só séries, como filmes, documentários… E a referência que eu tenho aconteceu na prática. Fui me adequando aos projetos, às ideias. Em 2013, resolvi desenvolver uma oficina com as coisas em que acreditava, e disso nasceu a primeira Oficina de Atores da Cesgranrio. Foi incrível, construímos um estúdio, e agora vamos para a sétima turma. Temos aula de corpo, voz,interpretação, coach, enfim. Nós fazemos de tudo por lá. É uma imersão. Neste ano, para se ter ideia, nós tivemos mais de mil inscritos para vinte vagas.

E aí veio “Anos radicais”, já na Cesgranrio…

A.M. – Foi a nossa grande virada. Eu já queria produzir uma websérie, e entendi que para o presidente Serpa (professor Carlos Alberto Serpa, da Cesgranrio) aprovar deveria ter algum cunho educacional. Desenvolvi uma ideia, passei para o professor, ele aprovou, complementou com algumas ideias, e nós traçamos um objetivo: atingir os jovens. Queríamos contar uma história para eles. Contratamos o Décio Coimbra, conversamos, e desenvolvemos essa série, que fala diretamente para os jovens, onde o protagonista, que é gay, quebra a quarta parede.

E o que é quebrar a quarta parede?

A.M. – Quando o ator fala para a câmera, diretamente para o espectador. É uma linguagem diferente, muito bonita.

O que há para se destacar nesse projeto?

A. M. – Uma vez eu recebi ligação de uma mãe, e falou que através da série ela encontrou uma maneira de falar com o filho que ela não conseguia. Enfim, o nosso protagonista é gay. E essa mãe pediu para o filho dela assistir a um capítulo com ela, e quando chegou na cena em que os atores se assumem gays, a mãe pausa o capítulo e pergunta ao filho: “Você é gay, meu filho?”. Ele toma um susto, mas se assume para ela, resolve contar, os dois choram e começam a se abraçar. São essas coisas que fazem a diferença na vida dos jovens. Como um jovem, que não tem experiência, pode lidar com esse conflito?

Qual a maior dificuldade em falar para os jovens?

A. M. – A velocidade das coisas. É tudo muito rápido, e o jovem tem uma liberdade muito maior do que se tinha. Então, ele hoje consegue se colocar de maneira independente. Quando se desenvolve um produto, criar esse linguajar é difícil, porque está muito acelerado. O maior desafio é acompanhar o jovem. O YouTube permite isso, mas é preciso saber trabalhar com isso.

Falando de “Bem-aventurados”. Qual foi o maior mérito desse trabalho?

A.M. – também com o “Filho do Homem”, mas um passo de cada vez…

E o que há de legal para contar sobre essa série?

A.M. – Quando nós chegamos para fazer uma visita de locação em Santa Cruz, praticamente no meio do nada, num lugar chamado Lama Preta, cheio de falésias, após andar muito, o nosso fotógrafo pisou acidentalmente em uma bíblia, que estava aberta. Eu disse: “Não fecha, pega, e vamos ver o que está escrito”. E dizia: “Essa terra é imprópria, e os ventos sopram com muita força, e as águas caem de maneira feroz”, ou era algo parecido. Meu fotógrafo me olhou e disse: “você ainda quer filmar aqui?”. Iremos fazer uma série bíblica… E, de fato, nós enfrentamos várias coisas, de tempestade de poeira a temporais de chuva que destruíram tudo.

De onde veio a ideia de fazer uma série bíblica?

AM. - Ideia do Serpa. Ele queria uma série da vida de Jesus.

Vocês tiveram algum problema ao falar de Jesus?

AM. – Existem várias referências para construir o personagem. Tivemos liberdade poética, limitada, é verdade, mas a ideia era ser verdadeiro. Eu queria um Jesus do povo, humano, que se aproximasse do povo. O Serpa abraçou essa ideia. Legal foi que grupos espíritas, evangélicos, enfim, as pessoas ligavam e pediam para passar a série em seus centros religiosos. Foi uma série aberta, que falou para todos.

Como você avalia o mercado de webséries no Brasil?

A.M. – indo para um caminho, mesmo distante de qualquer comparação com o que há lá fora, que é muito desproporcional financeiramente, que é muito incrível, as pessoas são muito talentosas.

A websérie reinventou o mercado audiovisual?

A.M. – Abriu um canal com possibilidades, sem padrão definido. É o cinema sendo feito de maneira diferente. Libertou pessoas que sempre quiseram fazer algo e não podiam por questões financeiras. Hoje, é quase como se vivêssemos a história do Glauber Rocha, “é uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”; e vai! Só não faz quem não quer.

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