Jornal do Brasil

Hildegard Angel

O baile das debutantes da Rússia

Jornal do Brasil

O Baile de Debutantes remonta ao século 16, iniciado no Velho Mundo. Visava exibir as filhas casadoiras das famílias da nobreza, como uma boa oportunidade de estabelecer alianças entre elas. Uma forma de difundir os dotes da jovem solteira, em sua “apresentação à sociedade” em grande estilo. 

Os bailes eram um ritual de passagem da infância para a idade adulta, e sempre no 15º aniversário da menina, a partir do que ela poderia usar roupas adultas, frequentar a vida social, namorar e... casar, pois já estava preparada para cuidar de uma casa, um marido e ser boa mãe. O ponto alto da festa era a troca do vestido de menina, com que a jovem chegou à festa, pelo vestido de baile, quando ela dançava com o pai. A música “ofi cial” do baile, convencionou-se, é a valsa.

Macaque in the trees
Anastasia Mazepina (Foto: Divulgação)

Após a Revolução Francesa, com a fuga e migração de famílias nobres para as colônias europeias, Estados Unidos e Brasil, ele foi copiado pelas elites norte-americana e brasileira. 

Em nossa Capital Federal, o Rio de Janeiro, proliferaram os bailes de debutantes, sendo o principal, nos anos 50, o Baile do Barão de Siqueira Júnior, que sempre acontecia no Copacabana Palace. Havia forte presença da indústria têxtil, como a fábrica Bangu, o que levou a derivações, como o Baile da Glamour Girl e o Miss Elegante Bangu, com o mesmo conceito: apresentar as jovens à vida social, exibi-las nas páginas do colunismo social.

Isso foi numa época boa de nossa economia, desde o governo Vargas, com seus altos investimentos em siderurgia e energia, e com a industrialização e o ufanismo da prosperidade da era JK.

Os bailes de debutantes ingressaram na década de 70 já em seu pleno declínio, considerados ultrapassados e até “cafonas”. Algumas jovens cariocas, como Bebel Sued, filha do colunista Ibrahim Sued, faziam seu début em Paris, no Le Bal de Orphélie Renouard.

As famílias brasileiras “mais modernas” preferiam trocar o baile por uma viagem ao exterior, em que eram festejados os 15 anos da jovem. Foi mais uma questão financeira, porque no período conhecido como do “milagre” econômico brasileiro, de meados dos 60 ao fim dos 70, o milagre não foi assim tão milagroso.

Macaque in the trees
Anna Mazayev (Foto: Divulgação)

Não se tem notícias de bailes de debutantes anuais nas décadas seguintes. Muitas jovens passaram a celebrar os 15 anos em festas individuais, já com outra conotação, pois já namoravam ou otras cositas más... Mesmo assim, mantém-se a troca de vestidos. Não mais para demonstrar a neo maturidade, mas pela chance de vestir lindos modelitos.

Em Paris o baile de debutante que as ricas ambicionam é o Le Bal, fundado em 1992 por Ophélie Renouard, que se tornou uma empresa, da qual ela é a C.E.O. As jovens têm de 16 a 22 anos. Ophélie aboliu as “apresentações”, que julga anacrônicas, em se tratando de meninas que frequentam o high desde o berço e se vestem como adultas desde a primeira infância, vide a filha de Kim Kardashian. De mais a mais, fica bobo “revelar” as jovens à sociedade, quando elas mesmas se revelam no Facebook e no Instagram. Hoje, Le Bal é globalizado, com meninas da América, Ásia e Europa, que vão às mesmas universidades, ouvem a mesma música, vestem-se da mesma forma, com as melhores marcas.

O Le Bal de Paris é também um baile da moda. Cada uma das até 25 participantes veste uma grande etiqueta, e as grifes disputam esse privilégio. As famílias , ao contrário do que se pensa, não pagam para as filhas participarem do exclusivo Le Bal. Elas são convidadas por Ophélie, que apenas encoraja os pais a doarem cheques generosos a duas instituições de caridade de apoio a mulheres jovens, uma nos EUA, outra na Ásia.

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Anastasia Mazepina, lha de Dmitry Mazepin, o principal acionista e presidente da Uralchem Integrated Chemicals Company (Foto: Divulgação)

O novo dinheiro da Rússia emergiu pós Perestroika, recheando as bolsas dos novos ricos, com a abertura do país ao capitalismo. Assim, esse dinheiro nasceu louquinho para ser gasto, ostentar e luxar, na contramão dos hábitos austeros do comunismo. Os ricos russos vieram secos e sedentos por “tirar o atraso”.

As grandes marcas de moda europeias vão à loucura com o Baile de Debutantes em Moscou da revista Tatler, edição russa. Se houvesse, por ano, mais meia dúzia desses eventos, a alta costura não precisaria se preocupar em sobreviver. Nesse último baile, eram centenas de vestidos de baile de incontáveis milhares de euros, e joias com impressionantes cifrões, que cintilavam tanto quanto as jovens, no luxuoso salão “Pillar Hall” da rebuscada Casa dos Sindicatos, resquício do tempo soviético, em que esses sindicatos eram riquíssimos e tinham grande poder.

Um conto de fadas, vestidos de cortar o fôlego, casacos de pele capotantes, que elas começavam a exibir desde a descida dos carrões até as poses na escadaria, o que não é lá muito refinado, pois, desde o advento do chauff age (aquecimento), passou a ser jeca andar de casaco de pele no interior das casas. depois da longa fase de dieta das frescuras que viveram, os russos ainda têm umas coisinhas a aprender. Abafa o caso...

Entre as debutantes, estavam Polina Rybakov, filha do empresário bilionário Igor Rybakov (fortuna de US$ 1.2 bilhão), e Leonela Manturov, 23, filha do ministro da Indústria e Comércio da Rússia, Denis Manturov - ela com brincos de cascata e uma rivière de brilhantes de três voltas. E também, Maria Konchalovsky, filha do diretor de cinema Egor Konchalvosky; Vasilisa Karelina, filha do ex-lutador greco-romano Alexander Karelin, que chegou a bordo de uma Bentley; Anna, a filha do músico Sergei Mazayev; Polina, a fi lha do compositor Maksim Dunayevsky; a descendente do pintor Valentin Serov, Yekaterina Zolotareva; Maria, a filha do diretor de cinema Egor Konchalovsky; Anastasia, filha do Presidente do Conselho da URALCHEM, Dmitry Mazepin; Polina, a filha do co-proprietário do Technonicol, Igor Rybakov; Tasia, a fi lha do pintor Vladimir Dubosarsky; Maya, filha do manager do FC Zenit St Petersburg, Sergei Semak; Yeva, a filha do cantor Grigory Leps, Yeva; e Yasmin, filha do líder de Uma2rmaN, Vladimir Kristovsky.

O célebre maestro Vladimir Spivakov conduziu a orquestra, enquanto elas adentravam o salão pelas mãos dos gatos mais abastados do país. E não vou falar das mamães, com seus vestidos carérrimos e seu ar bem cuidado, com algumas exceções... Pois as matriochkas ainda resistem, meus amores, na elite mega rica da Rússia, que segue a tradição dos bailes britânicos e americanos de debutantes, lançados pela Tatler em 2008 naquele novo mundo de muito dinheiro.

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O Dolce & Gabbana de Leonela Manturov, lha do ministro da Indústria e Comércio da Rússia, Denis Manturov (Foto: Divulgação)