Adeus Cazuza, meu cão exagerado

Perder um cão é como perder um membro estimado da família. Perdi ontem um dos mais queridos componentes da matilha de Ponderosa. O mais simpático, bonachão e guloso da turma. Chamava-se Cazuza. Um lindo Golden Retriever que pertencia à minha filha Luiza e era adorado por todo mundo. Quando saía, as crianças paravam na rua para lhe fazer festa. Quando postava qualquer foto dele no Facebook ou no Instagram, os amigos se derretiam em um zilhão de curtidas e comentários encantados.

Encantador. Sim, essa é a melhor palavra para defini-lo. Quando chegou, parecia um ursinho dourado. Tinha dois meses, mas já aprontava horrores. Encontrou lá em casa outro filhote: Rin Tin Tin, um pastor alemão chegado um dia antes. Pintavam e bordavam juntos. Roíam pés dos móveis, cadarços de tênis, sandálias, o que encontrassem. E não se largavam.

Macaque in the trees
"Perdi ontem um dos mais queridos componentes da matilha de Ponderosa" (Foto: Acervo pessoal)

Cazuza era o mais levado. Conseguiu a proeza de arrancar e engolir um dos botões da caminha que comprei para eles. Acabou na veterinária, obrigado a beber vários copos de água com sal para vomitar aquilo que, em sua gula eterna, deve ter pensado ser um petisco. Graças a Deus, acabou tudo bem.

Petiscos, bolinhas e Luiza eram suas maiores paixões. Curiosamente, contrariando uma característica da sua raça, não gostava de água. Na piscina, entrou uma vez só, puxado por mim. Pra nunca mais. No mar, também uma única vez, atrás de uma bolinha, na praia do Diabo. E olhe lá!

Desde que se tornou adulto e foi castrado passou a ter problemas de peso. Sua briga com a balança era constante e, coitado, tinha que comer porções controladas de ração dietética. Para amenizar o apetite incontrolável, completávamos seu prato com chuchu cozido. E ele batia tudo num piscar de olhos. E ficava louco para avançar na comida dos outros. Por isso, passou a se alimentar separado dos demais. Qualquer descuido era fatal.

Um dia, Carlinda, nossa caseira, preparava uma peça de filé mignon na bancada da cozinha. Cazuza aproximou-se, sorrateiramente, e... ZUPT! Lá se foi um dos bifes, sofregamente engolido, sem tempo sequer de qualquer reação dos que estavam por perto.

Era um incorrigível comilão, dócil e doce com humanos, mas bravo e valente com bichos. Certa vez, quando o levei ao parque de Itaipava, com Rintin e Jade (meu casal de pastores alemães), um bando de vira-latas se aproximou, latindo, ameaçador. E o primeiro a partir para a briga foi o Cazuza, encarando logo o maior dos cachorrões, que teve que se escafeder, levando mordidas no cangote. Sozinho, Zuza espantou todo mundo.

Em outra ocasião, passeando pelos arredores de Ponderosa, nos deparamos com uma vaca e seu bezerro:

- Ferrou, pensei. Para proteger o filhote, ela vai nos atacar.

Imagina, quem colocou os dois para correr foi, novamente, Cazuza. Que enfrentava cães, cavalos e vacas com destemor e incrível disposição.

Pois foi voltando ontem de um passeio com a matilha (onde, uma vez mais, se divertira, assustando bois pelo caminho) que meu gorducho adorado passou mal. Antônio, o caseiro, que os conduzia, correu para pegar o carro e levá-lo para a veterinária, mas nem houve tempo para isso.

Cazuza morreu nos nossos braços, vítima de um ataque de coração praticamente fulminante. No final da tarde, o enterramos numa das colinas de Ponderosa, próxima ao canil, onde já descansam o São Bernardo Bento e o Shit-Zu Logan.

Restam agora as lembranças de cinco anos de adorável convivência e uma gigantesca saudade do cão que, como o cantor e compositor que lhe emprestou o nome, era exagerado no apetite, nas incansáveis brincadeiras com as bolinhas e no desmedido amor que sempre nos devotou. Sua partida tão prematura e inesperada, dói. Como dói...