Barandier e Washington levaram suas batatas para o céu

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Cada morte é uma bofetada. Final da manhã de sábado saio para uma caminhada em Copacabana, ruminando a perda de dois companheiros de jornada. Ambos na faixa dos oitenta, profissionais íntegros, intelectuais e subversivos em suas atividades. Um, o advogado Antônio Carlos Barandier, defensor de presos políticos durante a ditadura, levava para onde ia um pedido de habeas corpus no bolso do paletó. Outro, o jornalista Washington Novaes, praticante da ética no jornalismo, que fez do Xingu a sua base de operações para documentar a vida dos índios em seu território mágico e ameaçado.

Enfrentaram tempos difíceis e deixaram o planeta em plena pandemia, com as honras de vencedores, levando para onde foram o troféu das batatas que lhes foi conferido. Com as marcas das bofetadas por mais duas mortes da minha cota pessoal, ajustei a máscara e fui para rua. Num dia de outono com céu azul e sol esplêndido, o Rio de Janeiro exibindo sua beleza. Ao passar pela Galeria Menescal, na calçada da Barata Ribeiro, vi aproximar-se um morador de rua, barba crescida, desgrenhado e saltitante, camisa aberta no peito. Com ares de quem estava se divertindo. Passou direto por mim e dirigiu-se a uma mulher que vinha logo atrás. Fiz o que faz um repórter, parei para observar a cena.

Ele pediu um troco para comprar um lanche. É fome, minha senhora. Ao sentir a proximidade do contato e do perigo, ela fez um gesto brusco de defesa abrindo os braços, repelindo-o. Ele se desviou, balançou o corpo como se fosse sair para dançar e estendeu uma perna, quase num passo de balé. Não pareceu incomodado com a manifestação de repulsa e pavor de contágio manifestado pela mulher. Outro solo girava em sua cabeça. Que ele expressou a seguir, com um grito de espanto:

- Que palhaçada é essa que está acontecendo, meu Deus! Todo mundo de máscara na rua, até parece carnaval. Me dei conta de que o insólito da cena estava em que o carente e transtornado morador de rua vive em outro tempo, habita uma cidade de outro planeta, talvez como aquele japonês encontrado perdido anos depois da guerra sem saber que ela tinha acabado. “Vamos parar com essa palhaçada de máscaras, cambada de malucos”, certamente foi o que ele quis expressar. E seguiu adiante em sua caminhada de um sem-teto sobrevivente, distante deste mundo doente de coronavírus, de pandemia, de centenas de mortos todos os dias.

Seguindo em direção oposta, tratei de apresentar Barandier a Novaes e fiquei entre eles. Os dois vieram com aquela conversa de que já se conheciam de algum lugar. Dobramos a Figueiredo Magalhães e andamos em direção à brisa do mar. Barandier propôs parar para uma cerveja. Perdeu por 2 a 1. Por instantes, refletimos sobre essa coisa de que muita gente está indo embora, eles inclusive. São os nossos mortos. Por isso nos tocam o coração e a mente. Os outros são tantos que já perdemos a conta, não conseguimos mais acompanhar, o total se aproxima de 130 mil óbitos. São os brasileiros pobres, negros e índios, disse Washington. Há muita dor entre os familiares destas pessoas que não tiveram tempo para se despedir, chorar a perda, escrever uma carta de amor.

Interrompo para dizer que tenho quase certeza de que os dois se conheceram no lançamento do “Tirando o Capuz”, livro da Codecri, Editora do Pasquim, que lancei em 1981, em plena ditadura. Houve um telefonema antes com ameaça de bomba na livraria, em Ipanema. Dois ex-presidiários foram designados para fazer a segurança e decidimos manter a noite. Sim, eu estava lá, mas ninguém nos apresentou, lembrou Barandier. Com boa memória, o criminalista recapitulou aquele momento marcado por ataques de terroristas saídos dos porões da repressão contra a OAB, a ABI, Câmara de Vereadores, bancas de jornais. Tudo isso está no meu livro “Relatos de um advogado na ditadura”, em cujo lançamento vocês não apareceram, queixou-se.

Uma semana depois daquela noite te liguei, recorda-se Washington, inspirando e absorvendo a maresia no momento em que estamos chegando diante do mar. Areia tomada por barracas e corpos nus, outros corpos bronzeados marcham pelo calçadão. Proponho andar na calçada à sombra dos prédios. Menor risco de contágio e sem o sol na cabeça. Toco o braço do Washington antes de atender sua ligação. Estava quase fechando a noite na sucursal da Folha no Rio, na Presidente Vargas. Fiquei surpreso ao ouvir aquela voz grave na linha.

Washington Novaes já era referência para todos nós que amávamos uma redação tocada com café, cigarro, máquina de escrever e uma enorme disposição para contar uma história verdadeira. Repórter, editor, colunista, documentarista, reconhecido internacionalmente na área de meio ambiente e cultura indígena. Disse que havia terminado a leitura do Capuz. Que gostou da distância que tomei para narrar, assumindo ser um homem igual a todos nós. Sem capuz. Emocionado, agradeci e o convidei para um chope. Queria ouvir mais. Ele estava por perto, na redação da Última Hora.

De repente, ao dar meia volta na altura da Bolívar, noto que os dois desapareceram. Minutos antes, Antônio Carlos Barandier, o “Baranda”, disse que estava com saudades de nossos uísques ao cair da tarde no aconchego do Bar Villarino, na Calógeras, Centro. Algumas vezes apareciam o Técio, o George Tavares, o Alcione, o Modesto e raramente o velho Sussekind, que foi meu defensor. Esses caras, junto com a Rosa, a Eny e mais outras e outros exerceram a advocacia em tempos difíceis. O argumento fascista decorre da presunção de culpa. E eu respondi vamos voltar lá sim, e o Washington já está convidado. 

*Jornalista e escritor