As duas mortes do estudante Reinaldo em Copacabana

Acaba de completar cinquenta anos uma cena de extrema violência ocorrida no dia 27 de junho de 1969, que a história oficial registra assim. O estudante do terceiro ano de engenharia da UEG, hoje Uerj, Reinaldo Silveira Pimenta, 23 anos, ao abrir a porta do apartamento que alugara na rua Bolívar, 125, em Copacabana, encontrou a sala ocupada por uma dezena de agentes policiais que lhe apontaram armas de diversos calibres. Estavam de tocaia, à sua espera. Horas depois, seu corpo foi recolhido na área interna do edifício e levado para o Hospital Miguel Couto, onde se constatou a morte. No IML, foi recebido e fichado como um desconhecido.

 

Consta de seu prontuário no Dops/RJ que Reinaldo suicidou-se jogando-se do quinto andar, o que dias depois seria noticiado pelos jornais, que receberam e publicaram uma nota dos órgãos de repressão, como habitualmente ocorria. Esta suspeita versão oficial é mantida pelo Estado até hoje. O caso de Reinaldo, morto dentro do apartamento, jogado pela janela e dado como suicida, tem semelhanças com o de Vlado, ambos apresentados pela máquina de repressão da ditadura como suicidas. O Instituto Herzog acaba de lançar sua versão online, com documentado acervo sobre o jornalista assassinado no Doicodi paulista.

 

Fui lembrado da morte do estudante nascido em Niterói ao receber pelo zap um pequeno pôster com sua foto enviado pelo jornalista e escritor Aluízio Palmar, relembrando os 50 anos em que a ditadura assassinou Reinaldo Pimenta. Comentei que desde o início, mesmo sem saber de quem se tratava, foi uma morte chocante para mim. Aquela notícia de que ele se jogara para não ser preso fazia parte de uma engrenagem torpe tantas vezes usada pela ditadura para esconder seus crimes e desaparecer com os corpos dos oponentes.

 

Até hoje me inquieto com a indagação de como de fato morreu Reinaldo, quanto tempo resistiu e lutou contra seus agressores. Que antes de matá-lo queriam tirar informações, segundo a lógica do torturador. Não há testemunhas, senão os assassinos, nunca identificados. Fui militante político na época, não conheci Reinaldo, mas por morar em Copacabana a memória de sua morte me deixou marcas profundas. Todas as vezes que passo pela Bolívar me arrepio. A necropsia assinada no dia seguinte por um legista de confiança do sistema, relata “fratura da coluna vertebral, ruptura do pulmão esquerdo e hemorragia interna”

 

Criador do site Documentos Revelados, Palmar, também preso e torturado pela ditadura, foi amigo e companheiro de militância de Reinaldo no MR-8, organização politica nascida da dissidência do PCB em Niterói, que participou das tentativas de luta armada. As circunstâncias que resultaram na prisão de Reinaldo, codinome Joaquim, não são claras. Certo é que o apartamento na Bolívar, no jargão “aparelho”, foi invadido e ocupado antes de sua chegada por agentes do Dops e do Cenimar, o truculento Serviço de Informações da Marinha. Segundo reportagem publicada pela revista “Época”, suspeita-se de que houve um cão de aluguel infiltrado na organização.

 

Reinaldo fez parte de uma geração que não aceitou viver sob uma ditadura. Entre os caminhos desbravados havia o da estrada, com sexo drogas e roquenrol, o da guerrilha socialista e o do desbunde, com saída para continuar os estudos no exterior. Um jovem inteiramente dedicado ao projeto de transformação social, de espirito alegre, gostava de cantar “Bella Ciao” em italiano, ao final das prolongadas tertúlias revolucionárias. Estudou inglês no IBEU e trabalhou como professor. Anos depois, a Câmara Municipal do Rio, na gestão Saturnino Braga, aprovou projeto dando o nome de Reinaldo Pimenta a uma rua na Vila Kennedy.

 

Naqueles dias de endurecimento e terror que se sucederam às trevas do AI 5, fui designado por minha organização, o PCBR, para me encontrar com um dirigente do MR 8, nome de guerra “Fiat”. Um ponto noturno numa rua tranquila de Botafogo, com o objetivo de combinar atividades comuns. Como não nos conhecíamos, cada um recebeu uma senha para confirmar a identificação. Feita a apresentação, “Fiat” foi claro e o ponto breve. Disse que o Oito só fazia o trabalho fundamental, a guerrilha rural. Não foi possível acertar um trabalho de massas numa frente comum.

 

A formação de frentes políticas em defesa da democracia ressurge neste momento de turbulência em que Bolsonaro faz ameaças contra o Congresso e o STF e desmonta os setores de saúde e educação. Ventos que trazem de volta a memória da ditadura, com seu cortejo de perseguições, censura, cassação de mandatos, fim do habeas corpus, prisões, tortura e mortes. A Comissão da Verdade apontou 434 mortos e desaparecidos em seu relatório final.

 

Pesquisa da Folha de S. Paulo divulgada com destaque revela que 75% dos brasileiros rejeitam uma nova aventura autoritária e preferem viver numa democracia. Trata-se de um número recorde e contundente. Com seu senso de oportunidade, o jornal, que já chamou a dita cuja de Ditabranda e depois recuou, lançou uma campanha e um curso online, em especial para os jovens, sobre o que se passou no país entre 1964 e 1985. A morte e a morte do estudante de engenharia Reinaldo Silveira Pimenta, ao lado de centenas de outras, merece fazer parte de uma das lives.

 

*Jornalista e escritor