Milícias de camisas negras

A primeira vez que vi os camisas negras em ação foi no cinema. Minha reação foi de perplexidade. Um grupo de homens em trajes civis, armados, vestidos com um uni-forme escuro, fazendo o trabalho que deveria caber a policiais fardados. Em plena as-censão do fascismo, eles podiam invadir casas, prender e executar prisioneiros. Aprendi muito na adolescência vendo filmes do neorrealismo italiano do pós-guerra. No meu entendimento juvenil, não era normal aquilo. Como aqueles homens civis podiam agir com tanta violência como se fossem integrantes da polícia do Estado? E os atacados, as vítimas, de que eram acusados?

 

Em outras cenas, um grupo de milicianos marcha em ordem unida pelas ruas, inter-rompe reuniões, agride pessoas, algumas são levadas para a delegacia de policia. Sempre diante do desespero e dos gritos das mulheres e mães que saem correndo atrás. Como mais tarde vim a aprender, a Itália vivia o momento da implantação do fascismo. E lá estavam em ação os camisas pretas de Mussolini, a Milícia Voluntária para a Segurança Nacional, grupo paramilitar que foi incorporado à estrutura repressora do Estado fascis-ta.

 

Seus temíveis membros ficaram conhecidos internacionalmente devido à cor do uniforme. Na Alemanha nazista, Hiltler criou os seus camisas pardas para identificar as SA. O preto era usado por sua guarda pessoal, a SS. Defensor radical da mesma política de armar a população, o capitão Bolsonaro ainda não revelou o nome e as cores da cami-sa da polícia política que pretende criar. No momento, interfere na Policia Federal e ao mesmo tempo monta sua própria segurança pessoal, com os filhos no comando.

 

Filme marcante dessa época, “Roma, cidade aberta”, de Roberto Rossellini, abre sua trilogia de guerra em que ele vai imortalizar a coragem e a luta dos italianos que não se renderam. Primeiro diante dos camisas pretas e em seguida com a cidade ocupada pelos nazistas no final da guerra. Impactante a cena em que Anna Magnani, a Pina, que abriga um dos líderes da resistência em sua casa, é metralhada na rua pelos policiais da Gestapo.

 

Fazendo uma imitação teatral do “Duce” italiano, Bolsonaro elevou a voz na reuni-ão ministerial para dizer a Weintraub, Guedes, Mourão, Heleno, Moro, Damares, Salles e outros cúmplices do ministério: “Quero escancarar a questão do armamento aqui. Eu quero todo mundo armado. Povo armado jamais será escravizado”. A seguir, num terrí-vel ato falho, perguntou “Por que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma di-tadura”. Mussolini não tentou trapacear com os italianos. O ditador era ele. O objetivo declarado de Bolsonaro é dar um golpe institucional para comandar um governo discri-cionário com suas milícias armadas.

 

Nesta semana de revelações estarrecedoras, as redes sociais mostraram uma capa do jornal “Correio da Manhã”, então um dos principais diários do Rio, do dia 15 de agosto de 1937, com a manchete: “Mussolini diz que só um povo armado é forte e livre.” Frase que o “Duce” brasileiro assina sem medo de errar. É assustador que algu-mas pessoas ainda não tenham assimilado esta ameaça. O país se prepara para um con-fronto. Os camisas negras armam-se e se organizam sob a liderança de seu chefe. Já seus opositores caminham de forma lenta, na sociedade, no parlamento e no judiciário. Esta grande maioria precisa demonstrar sem tergiversações, covardia ou embustes que defen-de a democracia e vai à luta por ela.

 

Na mesma sinistra reunião que teve o vídeo divulgado por ordem do ministro Celso de Mello, há outros crimes a investigar. Quatro intervenções captadas pelas câme-ras não tiveram o devido destaque na imprensa. Em inequívocas demonstrações de pre-conceito e de racismo, integrantes da corte fascista bolsonariana afirmaram, com a vee-mência dos extremistas, que se consideram superiores aos demais brasileiros. Estão aci-ma de qualquer suspeita.

 

Salles, Weintraub, Damares e Guedes concluíram suas falas com os olhos postos no “mito”. Cada um fez uma saudação e emitiu uma manifestação de apoio às bravatas que ouviram “Para isto estamos aqui. (Para fazer o que o mestre mandar). Porque somos diferentes, somos especiais”. Declaração típica de membros de uma seita de fanáticos. Para impor sua supremacia, adotam políticas discriminatórias contra os negros, povos indígenas, homossexuais, ciganos, pseudo-comunistas, todos os não agem e pensam co-mo os poucos escolhidos.

 

O professor e cientista politico André Singer advertiu em entrevista que “Bolsona-ro tem um estilo de política particular. É um homem muito radical e audaz. Toda vez que se enfraquece ele dobra a aposta e faz novas apostas de alto risco.” Acuado, é o que está fazendo agora. Dobrou a aposta e tenta intimidar a sociedade e os ministros do STF com o apoio do general Heleno e seu séquito de generais da reserva, que formam um grupo de adoradores do coronel Brilhante Ustra - aquele cuja estátua é um torturador - também no altar de Bolsonaro.

 

Ustra não representa o Exército, mas aquela parte que defende a tortura, não res-peita a Constituição, o parlamento, o judiciário, a democracia. Há um outro Exército legalista, que pode ser representado pelo marechal Henrique Teixeira Lott, que prendeu oficiais golpistas e garantiu a posse da chapa Juscelino Kubistchek/Jango Goulart, vitori-osa na eleição de 1955. E o general Cordeiro de Farias, herói da FEB na guerra contra o fascismo. Neste jogo de cartas marcadas, o “Duce” pode estar blefando.

*Jornalista e escritor