Jornal do Brasil

Entre realidade e ficção

Entre realidade e ficção

Álvaro Caldas

Os escombros de uma Guernica invisível

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS, ducaldas@terra.com.br

Há um Brasil novo e deplorável diante de nossos sentidos. Uma paisagem em escombros, uma terra devastada, que rejeitamos porque nos ofende. Creio mesmo que jamais vamos aceitá-la, ainda que tenhamos que pagar um preço, como em 1964 se pagou. Algo como se um espanhol visse Guernica, a cidade destruída pelos bombardeios alemães, antes e depois com os olhos de Picasso, com aquelas expressões de dor e sofrimento nos rostos retorcidos de homens e animais na tela do mural. Uma explosão de beleza e horror no museu de Arte Reina Sofia.

Nós que aqui vivemos temos o direito de perguntar: Que aberração é esta falsa recriação de uma Guernica destruída que o impostor quer nos impor? E estes brasileiros que o seguem de onde surgiram, em que cavernas estavam escondidos? São seres ressentidos e inseguros, representantes de um protótipo de pessoas comuns, de comportamento conformista, desconfiados dos outros e da política? Como o Marcello Clerici, personagem de “O Conformista”, filme que Bernardo Bertolucci adaptou do romance homônimo de Alberto Moravia.

Interpretado por Jean Louis Trintignant, o personagem vive na Itália de Mussolini num estado de torpor, isolado e facilmente manipulável. Seu maior enigma deriva de que não é um verdadeiro fascista, porque não tem convicção. Um homem de espirito amedrontado e obediente, que em sua busca por ascensão presta-se a qualquer ato, mesmo que seja praticar um crime - o de matar seu antigo professor na faculdade - em nome de um regime que ele obedece estupidamente. Moravia escreveu na Itália do pós-guerra, mas seu livro propõe uma reflexão política que se encaixa no Brasil atual.

No tumulto destes últimos acontecimentos veio à tona um brasileiro de índole agressiva, intolerante, ressentido, xenófobo, machista. E violento, pronto para eliminar o outro que pensa diferente. Trata-se de um contingente significativo da população, a terça parte dos 208 milhões, que não aparece nas pesquisas realizadas pelo IBGE. Os pesquisadores entram nos domicílios, fazem perguntas, tomam um cafezinho mas não captam os traços desse tipo singular.

Ficamos para consumo externo com aquele brasileiro típico do clichê tantas vezes repetido. Um sujeito cordial, brincalhão, sedutor, boa praça, apaixonado por uma pelada com cerveja e churrasco, samba e futebol. Verdade que boa parte deles desinteressados de política, um tanto conformados e indiferentes. São pessoas comuns, homens e mulheres de nossa vizinhança, cujos filhos brincaram com os nossos na pracinha, corremos um domingo no Jardim Botânico. Nossos familiares, um tio, uma tia ou um primo, passamos natais juntos. Com alguns podemos ter tomado um vinho num final de tarde no bar da antiga casa Lidador, na Cidade. Ao lado de outros frequentamos a mesma escola ou faculdade, corremos da polícia numa passeata e quem sabe um dia até com um deles flertamos ou namoramos.

Por ódio ao PT e outras idiossincrasias votaram no homem que bombardeou Guernica. Mas, puta merda!, como é possível permanecer a seu lado depois do altissonante elogio da tortura, de suas repetidas torpezas e infâmias contra mulheres e homossexuais, sua ofensiva contra o Congresso, o Supremo Tribunal e a imprensa, seu desprezo pelo povo, sua valiosa contribuição para as mortes de tantos brasileiros vitimas da covid 19?

Estão aí nossos melhores autores para mostrar que somos o Brasil da escravidão, da violência, da segregação, da desigualdade, da impunidade e da tortura escondida no porão. Alguns destes traços se expandem e explodem neste momento. Cercado de militares no Palácio e na administração, o piloto de caças alemão busca um caminho para dar o golpe, colocando o país diante da ameaça real de reviver o pesadelo de uma nova ditadura, desta vez com as insígnias digitais do fascismo.

Para consumar, quer a Policia Federal transformada em sua Polícia Política, no velho estilo de uma Gestapo ou uma NKVD, que possa proteger seus filhos, familiares e amigos, e caçar, prender e assassinar os adversários. Almeja o impeachment para reforçar sua imagem de vítima para os seguidores, e assim por na rua a sua Marcha com Deus pela Família e Propriedade, como a que anunciou o golpe em 1964. Desta vez com milicianos, militares e civis armados, portando bandeiras e vestidos de verde e amarelo.

Conta com o apoio de suas milícias, evangélicos e fieis seguidores. Aposta que manterá em suas redes essa família de conformistas como os criados por Moravia na Itália fascista, que se movem para onde vai o rebanho. Milhares se arrependeram, mas mantiveram o silêncio obediente. O pensador político Antonio Gramsci, autor de “Odeio os Indiferentes”, coletânea de artigos publicados pela Boitempo Editorial, questiona esse comportamento. Neste texto-manifesto convoca a população “a tomar partido e a assumir responsabilidade nos acontecimentos históricos.”

Uma lágrima para Sérgio Sant´Anna

Um contista senhor do seu ofício, com dotes de artista plástico que sabia combinar em seus textos as artes da sedução, volúpia, imaginação, fantasia e morte. Nos três contos finais de seu livro “O voo da madrugada” (Companhia das Letras, 2003) ele assenta seu olhar na representação da nudez da mulher na pintura. Em “A mulher nua”, termina assim o conto: “Altiva, solitária, misteriosa, ela então se dá a cada um de nós desse modo, e poderemos ter esse sentimento tão raro diante de uma mulher pintada, que é o de não só desejá-la, como também amá-la perdidamente”

*Jornalista e escritor