Jornal do Brasil

Entre realidade e ficção

Entre realidade e ficção

Álvaro Caldas

A ronda do vírus exterminador

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS, ducaldas@terra.com.br

A morte faz a ronda, o medo paralisa. Nunca vivemos um tempo assim, confinados, afastados do mundo real, postos fora de combate, um tempo que parece fora do tempo, infinito. Nem lutar podemos. São outros os que combatem por nós, os que estão nas frentes de batalha, expondo-se, contaminando-se, abatidos diariamente. Saímos às ruas mascarados, mãos enfiadas em luvas, como se estivéssemos empesteados, desviando de outros sobreviventes que caminham de cabeça baixa, solitários.

Para ir à rua e ver por instantes a luz azul do sol de outono, transgredindo as nor-mas do isolamento, precisamos de coragem. Evite aglomerações, nada de abraço, de beijo, de toques no ombro ou um afago nos cabelos da pessoa. Há mais de um mês insta-lou se entre nós o império do medo, e a imagem da morte ronda nossos sentimentos, nossos pensamentos, nossos passos. Nunca vivi um tempo assim. Fomos postos em quarentena, sob um clima de terror.

 

O inimigo invisível é um vírus que ataca pelo nariz, pela boca e os olhos. Recebeu a alcunha de covid 19, penetra imperceptível pela mucosa. Escolhe suas vítimas seletiva-mente: primeiro os velhos, os pobres e negros. Já abateu milhares de pessoas no mundo inteiro. Encontrou um planeta neoliberalizado, nas mãos de governantes que desprezam o povo, privatizam o Estado e aviltam as instituições públicas, justamente as que podem cuidar das pessoas. Não temos como nos defender, sequer sabemos de onde vem o ata-que e por isto devemos ficar escondidos em casa.

 

No resto do mundo não é assim, mas aqui neste país do Aldir Blanc, Moraes Mo-reira e Rubem Fonseca, temos um inimigo infiltrado, um quinta coluna, um Judas, um cabo Anselmo que sabota nossos planos de defesa e entrega a população ao vírus. Um capitão de bravatas eleito presidente, um tipo farsante que faz o seu jogo pervertido aproveitando-se do desemprego, da miséria e da fome das pessoas. Estimula o contágio e a contaminação. Sua estratégia é criar o caos. Diz estar em guerra contra o “sistema”, na verdade visa à democracia.

 

Não importa o país em que vivemos, nem o quanto somos desiguais. Todos igualmente contraímos doenças, sentimos medo e morreremos. Mas agora estamos diante de uma situação traumática, algo inimaginável, que rompe com o nosso paradigma de civilização. Os mais fracos, os rejeitados socialmente, desempregados, os sem-direitos, os que dormem nas ruas, moram em favelas e comunidades, estão condenados, sem apelação.

 

Vão morrer sozinhos debaixo de uma marquise, nas ruelas dos cemitérios, na porta de um hospital - jamais chegarão a uma UTI - sufocados pela falta de ar e sensação de afogamento, infeccionados por uma “gripezinha” de merda. Suas vidas não lhes pertence. Lotados, os hospitais do SUS estão fazendo a sua parte junto com o trabalho científico de referência dos laboratórios da Fiocuz. Na linha de frente do socorro, vemos a solidária e comovente dedicação das equipes de enfermagem, que ao lado dos médicos trabalham sem dormir, sem equipamentos, sem proteção adequada.

 

Nunca vivi um tempo assim. Fui preso na ditadura, dormi nu numa solitária, passei dias num celão embolado com mais de trinta subversivos, gente perigosa, mas não havia esse pânico nem a sensação de premência de morte. Durante as sessões de tortura, sim, a indesejável senhora se postava de vigília num dos cantos da cela e muitos foram os que sangraram e deixaram de respirar, assassinados.

 

Um dia vi o Dalmo enlouquecido com as mãos para fora das grades da cela gritando para um funcionário fardado do hospício: “Me dá o meu aloperidol, cadê o meu aloperidol.” Dalmo, que era médico, suicidou-se meses depois de solto. Passada a pande-mia, quantos vão se matar, quantos terão doenças mentais, quantos continuarão vivendo nas ruas, desempregados, com frio e fome, acuados por uma recessão que se anuncia gigantesca?

 

Os sonhos são uma das formas de criar cenários alternativos que nos permitem respirar, renovar a esperança, ainda que sejam nebulosos. Sonhei com o Brizola um dia destes. Estávamos na Cinelândia, ele segurando com a mão o paletó no ombro direito, eu também. Entramos no edifício do bar Amarelinho. Trabalhei ali, na Agência France Presse. Tomamos um elevador velhíssimo, as portas rangeram, enferrujadas. Subi com medo, Brizola impaciente perguntando se havia me perdido: “Olha a hora, tchê”.

 

Havia marcado uma entrevista com correspondentes estrangeiros para denunciar a espúria aliança de Bolsonaro com a pandemia. Ao sair do elevador me perdi, não achei a sala, o corredor tornou-se um labirinto. Bati em várias portas até que aflito consegui abrir uma, mas estava vazia. O gaúcho me olhou enviesado, soltou um “porra, estamos trancados!” Fuçando o interior achei uma portinhola. Olhei para baixo, lá estavam numa es-pécie de porão os correspondentes sentados em torno de uma mesa, aguardando o go-vernador.

 

Uma amiga me mandou pelo zap um pesadelo diabólico, que me fez lembrar de um filme de Buñuel. Sonhou com uma grande comemoração, parecia uma bacanal. As pessoas estavam num saloon de filme de faroeste. Música sertaneja em alto volume, Bol-sonaro em cima de um estrado, vestido de cowboy. Os três filhos em torno, com armas no coldre. Seus convidados pulam e dançam pelo salão. Entre eles ela identifica, pelas tarjas de pano coladas na testa, ruralistas, donos de TV, diretores da Fiesp. O bispo Edir Macedo, Moro, Ônix e Osmar Terra entre os mais animados. Terra dança de rosto colado com a primeira dama.

 

Regina Duarte grita enlouquecida “eu tenho medo do PT e deste vírus”. Damares, de topless, ergue os braços perguntando pela goiabeira. O verde e amarelo predomina nas fantasias. De repente surge a ala dos evangélicos cantando “aleluia, aleluia”. A música é interrompida. Minha amiga vê, horrorizada, que todos trocam carícias, se abraçam e beijam. Acorda do pesadelo gritando para que ninguém saía de casa.

 

O filme que lembrei é “O Anjo exterminador”, do gênio do surrealismo Luis Buñuel, filmado em 1962, em sua fase mexicana. Nele, um casal aristocrata convida amigos para um jantar em sua mansão. Damas e cavalheiros de vestidos longos e smokings. O cineasta elabora uma metáfora que aproxima seus personagens de nossos dias aprisiona-dos em casa. Em certo momento todos se sentem presos. Nada impede, mas ninguém consegue deixar a casa. Sucedem-se dias terríveis, um pesadelo em que caem as máscaras da convenção social burguesa. O surrealismo de Buñuel continua incômodo e atual em nossos tempos.

 

*Jornalista e escritor