Jornal do Brasil

Entre realidade e ficção

Entre realidade e ficção

Álvaro Caldas

Flutuando numa cápsula do tempo

Sobre a praga dominante da tortura nos subterrâneos da Estação Doicodi/ Rio de Janeiro e demais estações do Sistema Interplanetário Ditatorial. A propósito do "é tudo cascata"

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS, ducaldas@terra.com.br

“Durante os primeiros dias viveu numa espécie de torpor, em estado de coma permanente, como se estivesse numa unidade de tratamento intensivo, torturado sem trégua o tempo todo. Perdeu os sentidos em diversos momentos, pensou que fosse morrer. Conheceu a perversão da tortura em seus mínimos detalhes. Levou pancadas com uma mangueira grossa de borracha. Viu despejarem baldes de água em seu corpo dependurado para aplicação de choques elétricos.

 

E descobriu que havia uma sofisticação metodológica na aplicação dos choques. Um dos fios desencampados preso no dente e o outro amarrado no saco era o preferido do tenente Correia Lima. Mas havia uma modalidade pior, defendida pelo capitão Duque Estrada. Com os fios amarrados nos dois dedos mindinhos, o choque é mais intenso, corre o corpo inteiro, ensinava o especialista em comportamento humano.

 

Tinha razão o filho da puta. A descarga elétrica de mais de cem volts transita instantaneamente por todos os nervos do corpo, dos pés à cabeça, provocando uma contração violenta e dolorosa.

 

Agora estava ali, aprisionado naquela cabine de elevador entre dois andares da Estação Doicodi, a movimentada Estação Central do Sistema. Na companhia de um passageiro de rosto pálido, seu antigo camarada, que se tornara invisível. Dois fantasmas com o espírito angustiado, cada um com a consciência de seus atos e de seu mutismo. A antagonizá-los, a profundidade abissal da tortura física. Que os transportara para um mundo sombrio e sem esperanças, virado de cabeça para baixo, dominado pelo senti-mento do medo.

 

Tornaram-se prisioneiros do indizível, do que fora dito em meio aos gritos e gemi-dos naquela pequena câmara inabitável, conhecida como sala roxa.

 

Não havia mais motivos para brincadeiras entre eles. Nem mesmo para um gesto de perdão. Do lado de fora, um formigueiro humano se agita. A operação de desembarque de passageiros lota o saguão. A solitária em que foram colocados é a primeira das cinco que ficam no final do corredor. Cada uma com um espaço mínimo que não alcança um metro e meio de largura por menos de três de profundidade. No fundo, um vaso sem tampa, um chuveiro e uma pia quebrada.

 

Todas as celas ocupadas num sistema de rodízio. Servem para acomodar os presos que são retirados da sala roxa, mas a qualquer momento podem a ela retornar. Passageiros em trânsito. Um dia ouviu uma voz e suspeitou que conhecesse o habitante da cela vizinha. Não deu tempo para confirmar. Como estavam no verão, a cabine virava uma estufa, os dias eram longos e quentes. Demoravam a terminar. Mas isto não tinha muita importância porque as luzes estavam sempre acesas.

 

Eles precisam da claridade para controlar nossos movimentos. E ao mesmo tempo transmitir a ilusão de que o tempo é infinito, não se conta pelo calendário nem pelos minutos e frações de minutos marcados pelos ponteiros do relógio. Como tudo aqui, o tempo também se tornou algo abstrato.

 

Dá para saber que um novo dia está começando quando um deles chuta a porta anunciando a chegada da bandeja matinal do café. Cheguei a pensar em escrever um diário. Meus pertences se resumem à roupa do corpo. Um dia me bateu uma vontade doida de fumar, dessas incontroláveis. Fumava mais de um maço por dia. De repente senti no ar o aroma venenoso do tabaco. Apelei para o guarda de plantão, me fiando em sua misericordiosa cumplicidade. Ele olhou para os lados e enfiou pela fresta da grade a guimba do cigarro que queimava entre seus dedos.

 

Com uma expressão de quem sabe o que é essa fissura, falou “vai lá para o fundo e dá umas duas tragadas. Engole a fumaça, joga o toco dentro do vaso e dá descarga”. Obedeci. Em seguida senti uma tonteira fulminante.

 

Desde a noite em que chegou à Estação, foi mantido em isolamento. Passou mais de três meses sendo empurrado de um lado para outro naquela zona de alta tensão do andar térreo, entre a cela roxa e as solitárias, à disposição dos comandantes e seus subordinados. Passou pelas mãos e pés de todos eles. O mais dedicado foi o capitão Du-que Estrada, seu tutor-mor.

 

Quando não chegava batendo, bradando “seu comunista de merda safado, você mentiu para mim”, surgia com uma fala de bom soldado, de um homem instruído, com sentimentos cristãos. Aproximava o rosto da pequena janela gradeada da solitária com disposição para puxar uma conversa. Cabelo castanho bem aparado, queixo saliente recém-barbeado e uma expressão de orgulho e onipotência que a farda lhe assegurava. Queria saber onde eu havia estudado, se comia minhas namoradas. Ora, vá se fuder, eu pensava. O livre pensar é uma prerrogativa que a tortura não arrancou dos prisioneiros”

 

*Abertura do segundo capítulo de “Estação Doicodi”, livro inédito de autoria do colunista.