Jornal do Brasil

Entre realidade e ficção

Entre realidade e ficção

Álvaro Caldas

Um Coringa subversivo desafia a censura

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS *, ducaldas@terra.com.br

No momento em que o Estado brasileiro volta a censurar e proibir obras artísticas, exercendo um poder arbitrário que nos faz retornar aos tempos da ditadura, entra em cartaz nos cinemas um filme polêmico e subversivo. Com um Joaquin Phoenix arrebatador no papel de Coringa, o filme de Todd Phillips transforma o antigo vilão dos quadrinhos num agitador ensandecido e sem esperanças. Rejeitado por uma sociedade marcada pela desigualdade social que ignora os diferentes, o palhaço rebelde parte para uma ação destrutiva e caótica, com fortes cenas de violência.

O filme fascina e impacta o espectador. Fascina pela releitura da história do personagem vivido intensamente por Phoenix. Ele não interpreta, o ator é o próprio Coringa, com seus gestos, suas esquisitices e sua gargalhada histérica e desesperada. Um sujeito que sofre de um problema neurológico na infância, mora com a mãe doente e sonha ser comediante de stand-up. Desprezado pela sociedade, faz bicos como palhaço de rua. Está esquálido, chegou a perder 23 kg para fazer o papel. É forte candidato ao Oscar de melhor ator e o filme já levou o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

E impacta pela coreografia das cenas de revolta social e violência urbana, e por sua atualidade e semelhança com a realidade atual. O espectador deixa a sala inquieto, com necessidade de refletir. Que Coringa é este, que não mais precisa de Batman? O que se passa em uma Gotham City/Nova York num momento impreciso da história, é o que vemos hoje nas principais metrópoles do planeta governadas perlo capitalismo liberal. O capitalismo explode e ameaça a democracia, numa crise social sem precedentes.

Nos Estados Unidos, a produção foi classificada como imprópria para menores de 17 anos, e alguns cinemas chegaram a providenciar esquemas de segurança para sua exibição. No Brasil, foi lançado em grandes cadeias de cinema. Mas diante da instabilidade institucional em que vivemos, com atos concretos de censura a peças, livros e filmes e ameaças à liberdade de informação e órgãos de imprensa, recomenda-se ver logo. Antes que um dos três irmãos patetas e arrogantes considere o atormentado comediante um comunista disfarçado, e mande suspender a exibição.

É um escândalo, mas a censura artística está de volta. Basta recordar Dias Gomes, um dos autores de televisão mais perseguidos pela censura durante a ditadura. Sua famosa novela “Roque Santeiro” foi inteiramente vetada antes de estrear, em agosto de 1975. O filme “Marighela”, de Wagner Moura, finalizado há mais de seis meses, aguarda aprovação da burocracia para ser lançado. Livros são recolhidos em feiras, peças são tiradas de cartaz. Bolsonaristas aplaudem, o público protesta, autores vão à justiça, alguns jornais publicam notas, outros nem isto. Mas, porra! a Constituição proíbe censura.

No ato de maior envergadura e desfaçatez até agora, a Caixa Econômica Federal acaba de instalar um verdadeiro gabinete da censura para aprovação prévia a projetos de seus centros culturais, como informou a Folha de S.Paulo. Por esta e outras, a reação do capitão Bolsonaro veio com uma ameaça à liberdade de imprensa. Pediu aos patrocinadores que não anunciem mais neste “jornaleco que mente e difama”. Exatamente como na ditadura, o projeto da Caixa, seguido também pelo Banco do Brasil em seus centros culturais, é centralizado em Brasília.

Funcionários fazem relatórios com sinopses dos projetos propostos que são analisados pelas superintendências regionais e em seguida enviados para Brasília, para a Secretaria de Comunicação, Secom. Neste filtro político, ideológico e de costumes já foram retidas pelo menos três peças teatrais, o infanto-juvenil “Abrazo”, “Gritos” e “Lembro todo dia de você”, além de um círculo de palestras e uma mostra de cinema. Temas como LGBT, sistemas autoritários, ditadura, cenas de nudez e sexualidade devem ser evitados. A Caixa diz que o critério é técnico.

Um clown de olhar humanizado e triste, que se veste de vermelho e se movimenta aos saltos, como um bailarino, e em determinado momento passa a portar e a brincar com uma arma de verdade, pode subverter a sociedade que o rejeita? O Coringa de Joaquin Phoenix e Todd Phillips mostra que sim. Um palhaço frustrado e sem esperanças, desprezado e ridicularizado, que nem uma namorada arruma, torna-se um instrumento de desestabilização da ordem social. Sua imagem se cristaliza na gargalhada descontrolada, a um milímetro de se tornar bestial. Nunca este mesmo vilão, tantas vezes filmado com distintas visões, foi apresentado assim no cinema.

*Jornalista e escritor

 



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