Jornal do Brasil

Entre realidade e ficção

Entre realidade e ficção

Álvaro Caldas

O Lobo de óculos Ray-Ban

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS*

O projeto político de Bolsonaro e seu grupo de extrema direita que ocupa o poder vai ficando cada dia mais explícito e restrito a sua ala terrorista mais radical. Ele tem saudades da ditadura e quer recriar o seu sombrio ambiente transformando o país numa grande catacumba, seu local preferido de diversão nos anos do regime que acabou em 1985. Neste porão, ele imagina trancafiar os brasileiros, em especial os diferentes, negros, pobres, artistas, gays e todos mais que possam ser classificados como subversivos. Os liberais, verdadeiros ou oportunistas, que se cuidem.

Todos os avisos foram dados. Acuada, a sociedade dá os primeiros passos para romper o estupor inicial e se organizar. Chegou o momento da reação, da imposição de barreiras. Afinal, o lobo mau de óculos Ray-Ban não é tão forte quando parece: até os que o elegeram já sabem que ele mente, tergiversa, agride, espuma, não respeita o opositor político, chama os filhos e se esconde no porão quando é enfrentado.

Comporta-se como um bufão, mas um bufão perigoso que ameaça as instituições, as liberdades e os direitos individuais.

Sua força irracional e ilusória deriva da estratégia bem sucedida de praticar a arte da guerrilha, como em outros tempos e de outros modos e finalidades fez o guerrilheiro Carlos Marighela na luta contra a ditadura. Suas ações premeditadas surpreendem pelo grotesco, pelo escatológico, pela agressividade, e encontram imediato impacto na mídia.

Basta olhar a televisão e ver a primeira página de qualquer jornal todos os dias. O nome do ator de Ray-Ban está lá em cinco ou seis manchetes, onipresente, nenhuma tocando um problema de interesse da população, todas berrando que vai cassar direitos, prender, matar, apoiar o desmatamento, autodeclarando-se com ironia o capitão motoserra.

Numa destas aparições, bradou: “Eu posso fazer o que quiser porque ganhei a eleição, porra!” Em seguida chamou a si mesmo de Johony Bravo, personagem de desenho animado dos anos 90. Bronco, fracassado, egocêntrico, narcisista, um cara que nunca consegue fazer nada certo. Perfeito autorretrato. Seria simplesmente assim: quem não estiver satisfeito com a volta do porão e das milícias, que se mande, numa repetição do Ame-o ou Deixe-o da ditadura.

Já deixou claro que seu grande objetivo e dos militares que o acompanham, estigmatizados pelos crimes do regime, é reescrever a história, sepultar a existência da ditadura, tirar esse monstro dos livros, dos relatórios da memória dos sobreviventes, tudo devidamente documentado e digitalizado. E por em seu lugar menos do que uma ditabranda, mas um regime militar forte, que salvou o país do comunismo. Atenção,

estudantes, professores e pesquisadores, não houve ditadura, o coronel Ulstra interrogou os prisioneiros com bons modos, não há mortos nem desaparecidos, tudo isso é parte de um plano maquiavélico de subversivos e terroristas com o respaldo das comissões da Verdade.

Uma grande cínica e inominável farsa está em fase de montagem nos laboratórios do teatro do absurdo, a reencenação de O Lobo de Ray-Ban. A peça fez grande sucesso na década de 80 do século passado, início da redemocratização, com uma temática ousada para época, discutindo em cena a questão da homossexualidade. Com texto de Renato Borghi, direção de José Possi Neto, e os premiados Raul Cortez e Christiane Torloni nos papeis principais.

Seguindo os planos sinistros, a comissão de Anistia foi substituída em sua composição por conselheiros e conselheiras que fazem a defesa da ditadura, o que também está ocorrendo com a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos. O governo da ministra Damares já tratou de garantir maioria revisionista em ambas.

Segundo o professor José Carlos Moreira Filho, da PUCRS, especialista em Justiça de Transição, isto é claramente um desvio na finalidade destes dois órgãos e do que está estabelecido na Constituição Federal e nos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. Nenhum documento legal dá direito a Bolsonaro de fazer o que quiser.

Em sete meses ele mergulhou o país num vale amargo de tristezas e desempregados. Pessoas adoecem, outras pensam em entrar numa embaixada e checam os passaportes. Os chamados cérebros, a nata dos pesquisadores, debanda para o exterior. Os alarmes soaram. Com um cenário político caótico e as instituições do estado sofrendo ataques paranoicos, líderes e entidades da sociedade civil perceberam

que com um poder judiciário mais atuante chegou a hora de levantar barreiras e impedir a volta da ditadura pelo voto, como advertiu o advogado e ex-ministro das Justiça José Carlos Dias.

Abrindo a série, a ABI reuniu três mil pessoas num ato de solidariedade ao jornalista Glenn Greenwald, editor do The Intercept Brasil já ameaçado de morte e prisão pelo presidente. O auditório lotou e cerca de duas mil pessoas se concentraram na entrada do prédio, no centro do Rio. Os presentes aplaudiram o jornalista, deram-se as mãos e cantaram em apoio ao seu trabalho de divulgação de mensagens comprometedoras entre o ex-juiz e atual ministro da Justiça Sergio Moro e procuradores da Operação Lava Jato.

Outros atos virão impulsionados pelo sucesso da manifestação da ABI. Estudantes e trabalhadores irão para as ruas no próximo dias 13, sexta-feira, e um grande ato, Ditadura Nunca mais, em defesa da democracia e do Estado de Direito, está sendo preparado para o final do mês de agosto, juntando personalidades e entidades como a ABI, OAB, CNBB e Comissão Arns contra a violência.

*Jornalista e escritor