Jornal do Brasil

Entre realidade e ficção

Entre realidade e ficção

Álvaro Caldas

A quarta morte do desaparecido Fernando

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS*

A ditadura cometeu inúmeros crimes contra a liberdade e os direitos humanos em seus 21 anos, e o do desaparecimento é o mais infame e cruel deles. Porque não tem fim, não há morte reconhecida nem corpo para a família velar e enterrar. São 136 os desaparecidos políticos reconhecidos pelo Estado brasileiro, entre eles Fernando Augusto Santa Cruz e Eduardo Collier. Ao reabrir de forma estúpida e debochada o caso do filho do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, que tinha dois anos em 1974, ano do sumiço do pai, então com 26, Bolsonaro decretou sua quarta morte, ao inventar a sórdida versão de que o estudante foi vítima de seus companheiros de militância política.

O capitão afronta a memória da família, do país e contesta documentos da própria ditadura recolhidos pelas comissões da verdade dos governos democráticos que a sucederam. Roteiro elaborado pela Comissão Estadual da Verdade do Rio, no capitulo Inventário de Cicatrizes, relata que Fernando e Eduardo Collier, amigos pernambucanos e militantes da Ação Popular Marxista Leninista (APML) foram presos por agentes do Codi no carnaval de 1974, em Copacabana, num ponto, como eram chamados os encontros de rua dos jovens que resistiam à ditadura.

Levados para a oficina de torturas do quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, de lá foram transferidos para a sucursal paulista do DOI-Codi. A Cruz Vermelha confirmou para os familiares a prisão de ambos, ainda no início da gestação da anômala figura jurídica do desaparecido. Aqui se dá a primeira morte de Fernando e Eduardo. Interrogados, torturados e mortos, seus corpos teriam sido sepultados como indigentes no cemitério Dom Bosco, em Perus, prática corrente durante a ditadura.

Em sua torturante busca pelo reconhecimento da prisão, que com o tempo passou a ser pela entrega dos corpos, as famílias tiveram habeas corpus negados pelos tribunais e apelaram para a Anistia Internacional e o Tribunal Bertrand Russel. O governo do general ditador Médici, interpelado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, negou a custódia e sustentou que Fernando estava na “clandestinidade” e Eduardo “foragido”. Eles não tinham vergonha de mentir, a ditadura tudo acobertava.

Então veio a segunda morte. O ex-sargento do Exército Marival Chaves Dias, que serviu no DOI-Codi de São Paulo, disse à CNV que Fernando e Eduardo teriam sido levados para a Casa da Morte, em Petrópolis. Hipótese sustentada por outro agente da ditadura, o ex-delegado e hoje pastor Cláudio Guerra. Com a insondável e fria expressão de um pastor, ele relatou em depoimento à CEV Rio que transportava corpos de vítimas de Petrópolis para serem incinerados na usina de Cambahyba, em Campos, Estado do Rio. Entre eles estavam Eduardo e Fernando.

A terceira morte foi levantada a partir de investigações do Grupo Tortura Nunca Mais, que juntamente com a irmã de Fernando, Márcia, localizou no acervo do IML do Rio uma foto de um jovem morto num atropelamento, com caraterísticas físicas semelhantes às de Fernando. O corpo foi enterrado no cemitério da Cacuia, Ilha do Governador. O caso não se confirmou.

Agora, de maneira cruel, o ex-capitão apresentou a sua farsa para completar a quarta morte de Fernando, a de que ele teria sido vítima de justiçamento. O presidente da OAB decidiu interpelar no STF o homem que exerce a presidência, que fez juramento constitucional de não mentir. Já que ele sabe da história de meu pai, disse, deve saber de outras. É o momento para que ele possa esclarecer muitas famílias sobre o que elas estão procurando há décadas, a verdade sobre o desaparecimento de seus entes queridos.

São 136 os desaparecidos políticos catalogados pela Comissão Nacional da Verdade. Os jornalistas Mário Alves e Orlando Bonfim, os estudantes Stuart Angel Jones, Mário Prata, Honestino Guimarães, Paulo de Tarso Celestino, Ramires Maranhão do Valle, a enfermeira Ranúsia Alves Rodrigues, Heleni Guaíba, Isis Dias de Oliveira, o deputado Rubens Paiva, Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, entre outros integram uma herança sinistra de crimes praticados pela ditadura. Que há meio século vem passando de uma geração para outra. Hoje, a bandeira de procurar seus restos está nas mãos de filhos e netos, que criaram associações para manter viva essa memória.

Por um fio não me tornei um deles. Vítima de uma ação kafkiana fui sequestrado por um comando clandestino doicodista em abril de 1973, em casa, menos de um ano após ter deixado os cárceres. Voltei ao quartel da Barão de Mesquita, acusado de algo que desconhecia. Prisioneiro da agonia, permaneci uma semana na solitária, até ser conduzido encapuzado, num jatinho da FAB, para a sucursal do terror de Recife.

Lá, posto sentado numa cadeira numa sala vazia, com marcas de tortura no rosto, de repente percebi que estava sendo visto através de uma falsa janela de vidro. De fora, um homem comum que havia me identificado num álbum de fotos participando de uma ação subversiva, conferia minhas feições. Uma imaginária testemunha com poderes para decidir minha vida. Bastava apontar o dedo. Um santo filho da puta que negou e me devolveu a vida ao final daquela fantástica viagem.

Com suas íntimas relações com o porão, Bolsonaro certamente terá uma nova e fantasiosa versão para cada um dos 136 desaparecidos. A estupidez de sua manifestação de ódio, transmitida ao vivo pelo Facebook, reabriu o debate público sobre esse legado de mortos e desaparecidos deixado pelo regime ditatorial. Até aqui mantido invisível para a sociedade, como se houvesse uma censura tácita proibindo sua divulgação.

*Jornalista e escritor