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Entre realidade e ficção

Obrigado, Erundina velha de guerra

Uma grande parcela de brasileiros, condenada aos guetos de exclusão social e às páginas de polícia dos jornais, ganhou vis...

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Uma grande parcela de brasileiros, condenada aos guetos de exclusão social e às páginas de polícia dos jornais, ganhou visibilidade e o direito de participar da vida politica com a eleição municipal de domingo último. Um número recorde de mulheres brancas e negras, de trans, quilombolas e de outros candidatos vinculados à sigla LGBT+, não só foram eleitos, mas ficaram entre os mais bem votados nos municípios. Fenômeno revelador de uma mudança política e social expressiva. Mesmo com a pandemia, o eleitor pôs a máscara e foi à urna para consagrar a diversidade brasileira, tão badalada poeticamente.

O reconhecimento da diversidade de gênero, de raça, de classe e de sexo foi uma das mais expressivas conquistas desta eleição. Um fato histórico revelador da mudança da visão e sentimento das pessoas, segundo uma das eleitas, a cientista social Iara Ramos. Trans e portadora de HIV, Iara foi integrante de uma candidatura coletiva da bancada feminista do PSOL paulista, outra novidade trazida nesta eleição. Que elegeu também a transexual Erika Hilton.

Mais ao Sul, Curitiba, cidade de traços europeus, elegeu para a Câmara Carolina Dartora, professora negra da rede pública. Ela conquistou o terceiro lugar na votação com um discurso de que “chega de exclusão e invisibilidade da população e das mulheres negras”. Em Porto Alegre, Recife, Vitória, Cuiabá, Belo Horizonte, Natal, Salvador e outras capitais a onda de afirmação negra também contagiou os eleitores. No Rio, a memória da ex-vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, inspirou a eleição de Mônica Benicio, sua viúva, e da arquiteta e militante negra do PT, Tainá de Paula.

Não é preciso ser detetive de romance policial ou ficcionista do realismo mágico para descobrir que vivemos num mundo que passa por um intenso fluxo de incertezas. Em menos de quinze dias o arrogante bufão número um, Trump, foi despachado da Casa Branca, e o número dois é atropelado pela eleição municipal do dia 15. Resultado insuficiente para encerrar sua gestão autoritária e truculenta, que depende de um gesto do presidente da Câmara para declarar aberto o processo de impeachment. Sentado em cima dos pedidos, Rodrigo Maia não levanta a bunda. Falta-lhe a estatura de Ulisses Guimarães, que declarou ódio à ditadura ao promulgar a Constituição.

Os resultados do primeiro turno da eleição municipal deram uma sacudida num país encharcado de desilusão, que teve o seu presente e futuro roubados desde a instalação, em 2018, do caótico projeto populista e autoritário bolsonarista. A ida de Guilherme Boulos, do PSOL, para o segundo turno em Sâo Paulo, num impulso isolado de superação da velha e sectária questão da desunião da esquerda, aponta para a confirmação de uma nova liderança popular autêntica no país, que acredita na política como instrumento de transformação social. A primeira que surge depois de Lula, que vai perdendo sua magia e força eleitoral.

Nesse país desiludido, em que danço eu dança você, separados, a dança da solidão, ao compasso do sambista Paulinho da Viola, escolho uma mulher, migrante nordestina, 85 anos, para simbolizar a esperança e a energia positiva que emergiram da eleição. A paraibana Luiza Erundina, defensora da causa feminina e negra, acredita na persistência e na militância social. Não é de patota, por isso é difícil rotular a paraibana de Uiraúna, deputada federal do PSOL, ex-prefeita de São Paulo, eleita numa surpreendente arrancada final contra Maluf, em 1989. Sua presença como vice de Boulos deu paixão e vitalidade à chapa.

Peço licença a Nelson Rodrigues, com o respeito de não adjetivá-lo, criador da coluna Meu Personagem da Semana na revista Manchete Esportiva, para fazer de Erundina minha personagem não da semana, mas do ano, neste interminável jogo da política. Ela é parte de uma geração de velhinhos que sonharam com mudanças e combateram por elas com energia e convicção, levando os jovens a acreditarem na capacidade transformadora da política, segundo a avaliação da militante e ativista de direitos humanos Nadine Borges, ex-Comissão Nacional e Estadual da Verdade.

Encontrei Erundina algumas vezes na atividade jornalística e política. Numa delas, marcante para mim, caminhamos juntos diante dos muros do 1º Batalhão de Polícia do Exército, Rua Barão de Mesquita, Tijuca, Rio. Como deputada, ela veio acompanhar uma visita de reconhecimento às instalações do Doicodi pelos membros da Comissão da Verdade do Rio. De todos, eu era o único que conhecia os corredores do inferno por dentro. Desceria ao porão novamente. Ao perceber minha tensão, a paraibana pegou minha mão e me olhou com uns olhos de doçura e firmeza. “Agora, você vai entrar com seus amigos”. Obrigado, Erundina velha de guerra.

*Jornalista e escritor