Sem PT e PSOL, na Bolívia deu socialismo

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Mais uma vez não saiu a decantada unidade dos partidos de esquerda para a disputa eleitoral. A esta altura, a menos de um mês das eleições para prefeitos e vereadores, não se pode mais contar com um gesto de lucidez que possibilite o início da construção de um projeto político renovado de esquerda para enfrentar a onda bolsonarista que venceu a eleição presidencial de 2018. Diante de uma situação de desemprego exasperante, da miséria exposta nas ruas e da anestesia causada pela tragédia da covid, o eleitor mascarado irá às urnas sem a indicação de um candidato que unifique seu voto de repúdio ao que está aí.

O quadro político-partidário brasileiro no que tange à representação da centro-esquerda envelheceu e tornou-se obsoleto. Perdeu a conexão com a realidade e a confiança dos eleitores. Embalados por uma insana vaidade pessoal, a grande maioria de seus dirigentes tornou-se prisioneira de velhos jogos de favores que sustentam o poder, incorporando a prática de corrupção mantida e consagrada pelos partidos burgueses. Criar novas instituições adequadas ao mundo atual, que se se encontra num processo de transição para uma sociedade situada além do capitalismo liberal, é tarefa urgente de sobrevivência para a esquerda democrática.

As condições históricas que marcaram o surgimento do PT desapareceram. Um momento mágico que empolgou a sociedade no pós-ditadura, reunindo intelectuais, sindicalistas, a igreja progressista, trabalhadores rurais, uma parte da geração da luta armada e tutti quanti. Forneceu combustível para dois mandatos de Lula e um e meio de Dilma, apeada do poder. Lula continua em cena, mas é um líder à parte, com luz e grandeza próprias, apesar do boneco Moro, da imprensa parcial e de toda parafernália criada pelo sistema para destruí-lo.

Com o PT perdido numa encruzilhada, pontificou o PSOL que saiu de suas entranhas, com uma composição social mais diversificada e novas bandeiras de cores diferentes. Mais negros, mais periferia, mais rap e funk, gays e assemelhados. E menos fábrica, menos Brasília e samba de terreiro, refletindo a paisagem mutante deste renovado país brasileiro, do mulato inzoneiro, como na “Aquarela” do mineiro Ary Barroso. Surgiu um partido jovem e com maior vitalidade, mas que, como toda dissidência, não escapa das marcas de suas origens. Repete vários de seus procedimentos e obsessões.

São tantas as rixas e semelhanças que não foram capazes de se entender para montar uma chapa comum para disputar com chances de vitória as eleições no Rio e em São Paulo. Guilherme Boulos, coordenador do MST, uma liderança nova e promissora, pelo PSOL, e Benedita da Silva, antiga militante negra, nascida na favela e deputada, pelo PT. Os partidos comunistas e organizações de origem trabalhista, que já tiveram expressão na vida política, passaram por divisões e perderam relevância. Tornaram-se coadjuvantes, formando em seu conjunto esmaecido um retrato posto na parede, como aquela bonita gravura de operários em greve fechando os portões de uma fábrica italiana.

Com a espetacular e incontestável vitória de Lucho Arce na Bolívia, um ano depois do golpe violento que retirou Evo Morales da presidência, muda o panorama de forças no continente latino-americano e se reabre um caminho para o socialismo que es-tava bloqueado. Com o indígena David Choquehuanca como vice, o mestiço Arce, ex-ministro da Economia de Morales, conquistou o voto da classe média e dos indígenas. Chega ao poder com autoridade que lhe confere o Movimento ao Socialismo (MAS), que trás em sua trajetória o êxito econômico dos dois últimos governos de Evo.

O ex-presidente ainda se encontra na Argentina, onde se exilou. A força do triunfo de Arce indica que sua liderança deverá se consolidar, mantendo certa distância do ex. Não há um papel definido no novo governo a ser desempenhado por Evo, que deixou o governo em meio a uma crise em que foi acusado de fraude eleitoral. Com o apoio da Polícia e do Exército, os golpistas promoveram um massacre visando especialmente os adeptos do MAS, indígenas e camponeses.

Num momento em que pesquisas de opinião revelam que retrocedeu o sentimento antipolítica que impulsionou a onda bolsonarista em 2018, a eleição municipal do dia 15 de novembro se apresenta como uma oportunidade para a esquerda testar suas forças. Como disse Boulos, terceiro colocado em São Paulo, este é o momento de iniciar a construção de um projeto de esquerda renovado. Com os candidatos apontando claramente aos eleitores os que são responsáveis pelas mortes, desemprego e destruição do pais com um projeto autoritário e elitista.

Jornalista e escritor