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Cultura foi entregue a arrivistas, militares e evangélicos

Houve um tempo em que As mil e uma noites, A divina comédia, o Dom Quixote e outros livros arderam em fogueiras montadas numa praça p&ua...

Acervo JB
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Houve um tempo em que As mil e uma noites, A divina comédia, o Dom Quixote e outros livros arderam em fogueiras montadas numa praça pública. Missão desempenhada pelos bombeiros, que também iam à casa das pessoas recolher os livros. Essas cenas estão narradas num livro de ficção cientifica que virou filme e depois tornou-se realidade. Somos testemunhas de inúmeras destas queimadas. Quando não viram cinzas, os livros são proibidos ou rasgados e sempre perguntamos o que será que os livros dizem para causar tanta intolerância e temor?

A resposta só pode estar em que As mil e uma noites não acabam nunca. Seu tempo continua se desenrolando infinitamente. O que é um perigo para os regimes totalitários, onde os livros são parte do problema. No Brasil, sob o vírus da pandemia e o terror negacionista de Bolsonaro, a fogueira é maior e atinge toda a área cultural. O governo executa desde o início uma operação de guerra de ampla envergadura. Um ataque insano e anárquico, de cunho ideológico, contra tudo que se associa à cultura, às artes, o livre pensar, as universidades, as fundações e instituições encarregadas de zelar e promover o patrimônio cultural do país. Uma ação com requintes de torpeza, que exigirá anos para recuperação.

Em meio a outros incêndios de maior visibilidade, como os que devastam o Pantanal e a Amazônia, que geram protestos no exterior, a fogueira da cultura é registrada diariamente com parcimônia, através de pequenos atos e pequenas notas seguidas de protestos dos que são diretamente atingidos. Livreiros, artistas, escritores, dramaturgos, cineastas, músicos, jornalistas, humoristas, professores, filósofos e todos os demais profissionais que vivem de criar algo de caráter mais subjetivo e transcendental. Que veem sua liberdade cerceada e seus projetos interrompidos e inviabilizados.

Bolsonaro entregou o comando do setor cultural brasileiro a um bando de cafajestes, pessoas medíocres, usurpadoras, carreiristas, vingativas, arrivistas. Alguns são pastores de igrejas, outros usam farda, amigos dos filhos do presidente e seguidores de Olavo de Carvalho. Sem nenhum preparo intelectual ou profissional para as funções. E deu a esse grupo plena liberdade de ação. Façam o que quiserem, fechem as instituições que não servem para fazer negócios ou ganhar votos, removam do poder essa gente de esquerda, gays e subversivos adeptos daquele italiano Antonio Gramsci. Justamente ele, o filósofo, autor de um livro intitulado “Os Intelectuais e a organização da cultura.”

Antes da escolha do atual ministro Mário Frias foram feitas algumas tentativas fracassadas. O ator Roberto Alvim saiu porque gravou um vídeo em seu gabinete parafraseando e batendo continência para o ministro nazista Joseph Goebbels. A atriz Regina Duarte também deixou a cadeira depois de muitas trapalhadas. Numa delas louvou a aplicação de torturas durante a ditadura. Frias é um ator canastrão, que estrelou um vídeo kitsch para uma campanha do governo intitulada “Um Povo Heroico”. Gozado numa paródia pelo humorista Marcelo Adnet, reagiu chamando-o de “coisa imunda”.

O negócio tem funcionado assim: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Num dia o Diário Oficial publica a nomeação de Luciano Querido, ex-assessor de vereador Carlos Bolsonaro, para a presidência da Funarte. Semanas depois ele é exonerado e nomeado o coronel da reserva do Exército Lamartine Barbosa Holanda. Em agosto, o capitão André Porciúncula, da Polícia Militar baiana, foi nomeado secretário de Fomento e Incentivo à Cultura. Ficou menos de um mês no cargo e já foi exonerado.

Os chefes da Biblioteca Nacional e da Fundação Palmares foram escolhidos por Alvim. Para a Casa de Rui Barbosa foi a jornalista Letícia Dornelles. Não tem currículo para a função. Apontada como evangélica, disse que é conservadora. Edianne Paulo de Abreu, dentista e amiga pessoal de Frias, assumiu a coordenadoria do Centro Técnico Audiovisual. Seu currículo não menciona nenhuma experiência no setor. Nomeado Secretário Nacional de Desenvolvimento Cultural, Mauricio Waissman se apresenta como “cristão, conservador, bolsonarista de raiz e cronista dos absurdos tragicômicos do cotidiano.”

Difícil definir essa mistura de grupos e seitas e interesses aos quais foi entregue a gestão da cultura no país. O ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, considera que há um empenho em destruir em todas as áreas tudo o que se fez desde a era Vargas. Um projeto radicalmente intolerante. Para ele, o Brasil saiu de uma ditadura e é maior do que esta experiência nefasta.

A obra que citei no início em que os livros ardem em fogueiras é o Fahrenheit 451, escrito em 1953 pelo norte-americano Ray Bradbury. Uma distopia que cumpre o seu papel ao fazer com que o leitor reflita sobre o mundo em que vive. A adaptação para o cinema é do francês François Truffaut, que põe em destaque a proibição de livros por um regime totalitário. Em certo momento, as pessoas fogem para um lugar distante e passam a engolir suas obras preferidas, criando uma terra de homens-livros. Um casal escolheu dois livros para livrar das chamas. A história Universal da Infâmia, Borges, ele. E Por quem os sinos dobram, Hemingway, ela.

*Jornalista e escritor