Jornal do Brasil

Dicas do Aquiles

Dicas do Aquiles

Aquiles Riques Reis

Alfredo Dias Gomes, o jazzman

Jornal do Brasil AQUILES RIQUE REIS, aquilesmpb4@gmail.com

Macaque in the trees
Capa do CD de Alfredo Dias Gomes (Foto: Reprodução)

Acompanho o trabalho do batera Alfredo Dias Gomes há algum tempo. Na verdade, desde JAM (2018) e Solar (2019). A diferençá-los, a pegada jazz rock num e o samba jazz noutro.

Alfredo lança Jazz Standards (independente), seu 12o álbum. Confesso que a mim impressiona a capacidade que ele tem de se mostrar íntegro, seja lá o gênero musical que opte por tocar.

Alfredo teve mestres nos quais se inspirou. Ídolos como o batera panamenho Billy Cobham e o percussionista americano Don Alias deram-lhe força para, segundo ele, mudar sua concepção: “A condução do ritmo [jazzístico] não era no bumbo e na caixa, mas sim no prato e no hi-hat [contratempo]; o bumbo e a caixa tocavam sempre antecipados, sempre criando, sem um padrão definido, livre!”.

Cabeça aberta a experimentações, Alfredo Dias Gomes escreveu os arranjos e convidou músicos de responsa para tocar com ele: Jessé Sadoc (trompete), Widor Santiago (sax tenor e arranjo para os sopros), Jefferson Lescowich (baixo) e Lulu Martin (teclado). Temas jazzísticos exemplares ganharam novos ares:

“Cherokee” (Ray Noble), gravado pela orquestra de Count Basie, 1938.

“Seven Setps to Heaven” (Feldman Davis), gravado por Miles Davis, 1957.

“Lazy Bird” (John Coltrane), gravado pelo autor, 1957.

“Red Clay” (Freddie Hubbard), gravado pelo autor, 1970.

“Solar” (atribuída a Miles Davis), gravado por Chet Baker, 1954.

“Giant Steps” (John Coltrane), gravado pelo autor, 1959.

“A Night In Tunisia” (Dizzy Gillespie & Frank Paparelli), gravado por Gillespie, 1957.

“Caravan” (Juan Tizol & Duke Ellington), gravado por Ellington, 1936.

“Footprints” (Wayne Shorter), gravado pelo autor, 1966.

Saquem só os standards escolhidos por um batera confiante em seu talento:

“Cherokee” inicia com a melodia tocada pelo sax. Logo, um formidável improviso do trompete. A batera segura a onda. O baixo se desdobra, e a batera vem com tudo em cima: com um suingue “contaminador”, os desenhos supimpas do baixo. A guitarra sola; os sopros arrepiam.

“A Night In Tunisia” tem solo do trompete, seguido por um rulo da batera. Baixo, batera e o piano, em acordes, antecedem um novo solo do trompete... o jazz reina.

“Caravan”, o tema mais conhecido do CD, tem uma interpretação radiosa. O improviso do trompete instiga. A batera brilha. O jazz flui com os músicos tocando em êxtase, louvando a música universal.

“Footprints” traz a batera e o baixo na intro. Os sopros trazem a melodia. Piano, baixo e batera criam uma “cama” onde primeiro o trompete, depois o sax, arrasam em improvisos. O piano sola. A batera a todos conduz... Meu Deus!

Jazz Standards é um trabalho consciente... Por quê? Simples! O quinteto teria de ser tão irrepreensível em suas atuações quanto foram as “lendas” que, ao gravarem, já haviam tangenciado a perfeição.

E assim foi, o álbum é brilhante!

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

PS. Pena que o CD não traga os nomes dos autores dos temas. Para citá-los, mesmo sabendo do risco de ser induzido a erro, recorri a tal da internet.