Dicas do Aquiles

Por Aquiles Rique Reis

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DICAS DO AQUILES

'Xala ni Nzambi' (Fique com Nzambi)

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Publicado em 26/09/2026 às 10:01

Alterado em 26/09/2026 às 10:05

Capa do CD Foto: reprodução

Foi com essa despedida no idioma kimbundu que Ricardo Valverde finalizou a mensagem que, a meu pedido, contextualizava seu novo trabalho. Sem isso, me dificultaria entendê-lo tão profundamente.

Iniciado no candomblé Angola, Valverde recebeu de Pai Kylonderu a digina (nome de santo) de Ymberekwe. Sua Casa é a Kyloatala e ele é Kambando (como chamam ogã em Angola), e lá em sua comunidade, no Cipó Guacú, as pessoas o chamam de Tata Ymberekwe.

Assim, hoje vamos com o álbum Kizomba (independente), do vibrafonista, compositor e arranjador Ricardo Valverde, no qual o músico mescla suas raízes ancestrais com o vibrafone e as múltiplas sonoridades afro-brasileiras. Em Kizomba, quase todas as doze músicas estão em kimbundu.

Além de instrumentistas laicos, Valverde convocou músicos ligados a comunidades de terreiro, que dominam a linguagem que têm nas mãos: o baixista Marcos Paiva e os percussionistas Samba Ossale, Mukambila e Leandro Perez.

Debruçado sobre ritmos e claves do candomblé de Nação Angola, com composições inspiradas nos nkises, Valverde nos revela desde arrebates, kongos de ouro, sambas kabila e barraventos, até ijexás e quebrados, agregando-os aos ritmos da música brasileira com os timbres do seu vibrafone, como cordões de amarração.

Algumas faixas:
“Arrebate” (Ricardo Valverde): no ritmo que dá título à música, comumente usado na entrada dos mona nkises (filhos de santo) no barracão, no começo da kizomba (festa), o acordeom vem com o vibrafone que lhe abre portas e caminhos para onde o som os leva. Ritmado pelos atabaques, o tema soa iluminado pelo vibrafone que improvisa, enquanto ouve-se toques delicados da flauta. “Vunge” (Ricardo Valverde): o clarone resenha num duo com o vibrafone. O resultado é de arrepiar. Os atabaques intercedem para amalgamar a massa sonora, de onde as notas do vibrafone vêm balançar no ar, bem onde está o sax soprano que lampeja. Já os atabaques seguram a onda do improviso do baixo. “Kaya” (Ricardo Valverde), um “quebrado” que o vibrafone traz à cena, é o tema que fecha a tampa do jovem álbum de Ricardo Valverde: a guitarra e o baixo vêm com o vibrafone que, “modestamente”, se coloca a serviço da beleza que flui e reflui ao sabor do ofício de instrumentistas que são puro ouro em pó.

Kizomba é o momento genial de um instrumentista que tem de figurar na prateleira de mestres da música instrumental do Brasil. Xala ni Nzambi!

Aquiles Rique Reis
Nossos protetores nunca desistem de nós.

Ficha técnica: Ricardo Valverde: composições, vibrafone e arranjos; Marcos Paiva: contrabaixo elétrico; Samba Ossale, Mukambila e Leandro Perez: atabaques. Participações especiais: Pablo Moura (acordeom), Vini Sampaio (guitarras), Sérgio Coelho (trombone) e Phellyppe Sabo (sax soprano, flauta e clarone); Bruno Reis: mixagem, masterização e produção artística; Guilherme Valverde: arte visual e capa.

Ouça o álbum


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