DICAS DO AQUILES
A música e a democracia
Publicado em 04/04/2026 às 07:09
Alterado em 04/04/2026 às 08:25
Capa do álbum Foto: reprodução
Abro a janela e o céu brilha num azul límpido. Que bom! Por alguns instantes permaneço imóvel ali. O olhar vagueia sem rumo. Sinto frio. Mas o sol tá lá no alto... que frio é esse, meu camarada? Sei lá! Ou melhor, sei; é o frio eterno que teima em nunca desgrudar. Parece até premonição maléfica. Vixe! Num arrepio, esperneio para espantar o mau presságio.
Não demora muito, vem a mim a possibilidade de haver coisa ruim rondando o futuro próximo. Aff, se não é aquela turma sinistra que poderia voltar a reinar, restabelecendo seus planos macabros. E logo os golpistas, os mais imbecis e de inexprimível malignidade, que para ajudar a eleger o filho do “contra vacina”, imploram pelo apoio de Trump, o imperador. É, tem jeito não; essa turma não mede esforços para que a barbárie se perpetue.
Igualmente assustadora é a pretensão que têm de eleger 50% do Senado: isso permitiria indicar o novo presidente da Casa, que pautaria o impeachment de ministros do STF e do TSE, os que, valendo-se da Constituição, impediram a vitória dos terraplanistas. Hoje, cabe àqueles que prezam pelo Estado de Direito fazer prevalecer o bom senso, votando pela democracia e pela soberania brasileira. Não podemos voltar a ser colônia de um império decadente.
Preocupado, mas esperançoso, vejo na música o calor capaz de aliviar meu frio. Sim, porque hoje, graças à democracia, manifesto-me republicanamente. Que seja assim para sempre!
Em busca do aconchego da democracia, recorro à música do álbum autoral do compositor João Marcondes, Parisian Fife – For Flute and Harp (Azul Music). Trabalho que reúne obras para flauta e harpa, tocadas pelo flautista brasileiro Rogério Wolf e pela harpista argentina Sole Yaya.
O CD reúne as obras autorais Pífaro Parisiense (Opus 67), com os movimentos “Abertura”, “Gonzagueana”, “Debussyana” e “Frevo”, que têm como protagonista os solos da flauta que expõe ao máximo os recursos do instrumento. A delicadeza da flauta na “Abertura” tem beleza desconcertante. Um sopro de esperança varre o ar e limpa meus olhos.
E “Boneca de Pano”, com os movimentos “O Olhar Cativante da Boneca de Pano”, “Faceira” e “Polinizadores”. A flauta em “Faceira” distingue a qualidade do instrumentista que se deixa impulsionar pela emoção e alcança fôlego admirável. Momento em que a criatividade de Marcondes demonstra empatia e fluência sempre presentes nos movimentos em que as flautas se ajuntam à harpa. Creiam, Parisian Fife – For Flute and Harp é um álbum no qual culturas musicais múltiplas se unem a composições eruditas e camerísticas contemporâneas – é a música se tornando libertária!
E oxalá a música e a democracia voltem a nos salvar e fortificar.
Aquiles Rique Reis
Nossos protetores nunca desistem de nós.
Ficha técnica: Gravação: estúdio Arsis; engenharia de som: Adonias Junior; produção: João Marcondes; em formato digital e nas plataformas de música.
Ouça o álbum