CULT, POP & ROCK
Cartão postal para Luis Carlini
Publicado em 28/05/2026 às 13:26
Alterado em 28/05/2026 às 13:27
Carlini entre guitarras e discos, no seu home studio Foto: Ativa Cinema Digital
Após a chegada de uma mensagem, a tela do celular iluminou o quarto ainda escuro no fim da madrugada de quinta-feira, 7 de maio, no início do outono. Ao lado da cama, o aparelho, que sempre mantenho com o irritante "plim-plim" das notificações desativado, parecia querer me acordar um pouco antes da costumeira 6 horas. Com doloroso esforço, ainda sonolento, peguei-o, coloquei os óculos com as lentes levemente embaçadas, como os vidros da janela, sem cortinas, ainda escorrendo filetes de água do sereno, e constatei que o aplicativo da previsão do tempo me prevenia para que, mesmo no dia que seria ensolarado, a temperatura chegaria perto dos 15 graus na região do sítio onde tenho vivido sossegado por quase 10 anos.
Ainda aquecido sob as cobertas, resolvi, já que estava acordado e conectado, entrar em uma rede social para que o meu resto de sono fosse logo dissipado. E foi o que aconteceu instantaneamente quando uma nota publicada no perfil de Luis Sérgio Carlini comunicava a partida do lendário guitarrista brasileiro. Nos minutos seguintes, vários portais de notícias repetiram massivamente a informação. Um pouco mais à frente, foram surgindo, seguidamente, postagens de pesares e pêsames de familiares, amigos, músicos, artistas e fãs em geral.

Luis Carlini: um dos mais cultuados guitarristas brasileiros Foto: divulgação
Consternado pela notícia que tinha acabado de chegar no meu início de dia, não consegui escrever nada. Postar nada. Apenas sair daquele espaço, entrar em um outro, para rever as mensagens que recebi de Carlini, dias antes, quando ele se desculpava por ter de adiar a entrevista que havíamos combinado para ser publicada nesta coluna. No seu último áudio enviado, com a voz rouca e baixa, ele me avisou: "Brother, aquela gripe que tinha te falado semana passada virou uma pneumonia e os médicos resolveram me internar... e estou agora, aqui, na UTI. Infelizmente só vou poder conversar com você assim que voltar para casa. Então, como sugerido, parta para o "Plano B" para a sua próxima coluna. Me desculpe. Forte abraço."
A amizade com o imenso guitarrista que, certamente, fez parte da melhor geração de roqueiros brasileiros, estava no início e já parecia que existia desde a metade da década de 1970, quando, ainda um menino, ouvi, pela primeira vez, o clássico e maravilhoso álbum Fruto Proibido, o gigantesco sucesso de Rita Lee com a banda do músico, Tutti Frutti. Naqueles anos, quando ainda nem tinha muita noção de música, da importância dos álbuns, dos segredos e histórias das bandas, dos artistas, Carlini, um garotão
cabeludo, paulistano do bairro Pompeia, no auge dos seus 23 anos, já empunhava a sua guitarra pelos estúdios e palcos.
Neste quase um ano de contato com o guitarrista, até marcamos um papo oficial para o JORNAL DO BRASIL, conversamos quase que semanalmente sobre música em geral e amenidades diversas; sempre finalizadas com emojis engraçados e simpáticos. O músico, durante todos estes dias e meses, não contrariou a fama que o precedia, além de um guitarrista genial, a de ser "um cara gente finíssima".
Na pauta que havia preparado, cuidadosamente, para essa entrevista, me preocupei ao máximo em não lhe perguntar sobre o que, tinha certeza, ele já estava cansado de repetir nas milhares de conversas que teve com a imprensa, mídia, durante todas essas décadas. Os assuntos que propus seriam movidos pela curiosidade que, particularmente, eu tinha e, certamente, os leitores também. Perguntaria sobre as suas guitarras preferidas, os tipos de sonoridades, timbres, que agradavam mais aos seus ouvidos; a forma que utilizava e o tempo que levava para criar, compor riffs e solos; os pedais e amplificadores que mais utilizava. Queria que ele me falasse sobre o seu estilo visual e musical setentista ainda mantido por todos esses anos; os seus trabalhos com músicos nos palcos e estúdios; como ele se faz ouvir pelos produtores de, às vezes, difíceis embates; a música atual, a nova geração de roqueiros, ouvintes e consumidores, e sua participação no recente álbum de Guilherme Arantes, Interdimensional, e a turnê pelo Brasil que estava tocando ao lado do amigo e parceiro de anos.
Não iria lhe perguntar como ele criou o seu solo épico, mítico, místico, mitológico, inigualável, de Ovelha Negra, o big hit de Rita Lee, porque desconfiava que ele andava cansado de repetir os mesmos detalhes sempre que era perguntado. Mas usaria o inconfundível solo como um dos temas do meu texto de abertura da entrevista; citando-o de como, quando o ouço, sempre e sempre, navego pelas névoas densas do tempo que me fazem relembrar parte da minha infância, viajando até 1975, 51 anos atrás, quando o som agudo de sua guitarra replicava pelos aparelhos de rádio, de casa em casa, ecoando infinitamente nos meus ouvidos enquanto caminhava devagar pelas ruas do Andaraí a caminho da pequena escola pública localizada na fronteira com a Tijuca.
E termino essa pequena homenagem ao querido Luis Carlini com o verso que abre o emblemático blues Cartão Postal, do álbum Fruto Proibido, letra escrita pelo, na época, quase desconhecido escritor Paulo Coelho:
'Pra que sofrer com despedida?
Se quem parte não leva Nem o Sol, nem as trevas
E quem fica não se esquece tudo o que sonhou.'

O guitarrista, no alto, ao lado de Rita Lee, com a banda Tutti Frutti, no encarte do álbum Fruto Proibido, de 1975 Foto: reprodução
Obs. Não utilizo IA - Inteligência Artificial para escrever os meus textos para a coluna.