Cult, Pop & Rock

Por CAL GOMES

CULT, POP & ROCK

Steve Hackett: 'A música é uma grande embaixadora da paz'

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Publicado em 12/03/2026 às 10:06

Alterado em 12/03/2026 às 13:31

Steve Hackett no palco com a sua inseparável Gibson Les Paul Foto: divulgação

Quase meio século se passou desde que o guitarrista inglês Steve Hackett esteve no Brasil, no início de 1977, para se apresentar em shows no Rio de Janeiro, no Maracanãzinho, e em São Paulo, no Parque Ibirapuera, com o Genesis, a famosa banda de Rock Progressivo que, na época, possuía uma legião de fãs conquistada, principalmente, após o ótimo desempenho em vendas e execução nas rádios que o seu cultuado álbum Selling England by the Pound alcançou nos três anos seguintes ao seu lançamento, no final de 1973.

Nesses longos 49 anos, em intervalos curtos e médios, Hackett sempre retornou ao país, principalmente ao Rio, no período em que esteve casado com a artista plástica carioca Kim Poor, entre 1981 e 2007. Durante esse relacionamento, iniciado na metade dos anos de 1970, o guitarrista se apresentou algumas vezes para shows e em épocas de férias para descansar e fazer turismo por algumas cidades do estado e do país, o que, invariavelmente, sempre foi repetido mesmo após o fim do casamento com Kim.

Desde que saiu do Genesis, em 1977, logo em seguida aos shows no Brasil, e investiu em sua carreira solo, o guitarrista lançou 29 álbuns de estúdio que, na verdade, são 30 se somarmos ao seu primeiro e ótimo Voyage of the Acolyte, de 1975, quando ainda fazia parte da banda na qual ingressou em 1970 para se tornar um dos guitarristas mais citados como referência do gênero progressivo. Na extensa discografia de Hackett, também foram gravados e lançados mais de 20 álbuns ao vivo, captando composições e sucessos de sua época de Genesis e de sua carreira solo. Dono de uma técnica refinada, Steve Hackett é um virtuoso na guitarra e lírico e erudito nas suas composições e execuções de peças para violão clássico, sendo respeitado tanto pelo público do Rock como pelos apreciadores dos acordes e solos mais sofisticados.

Em fevereiro, Steve Hackett saiu para uma longa turnê que se iniciou nos EUA, passando em seguida por México e Peru, que prosseguirá por Chile, Argentina e por vários países da Europa, sempre acompanhado da banda argentina Genetics, tocando os maiores sucessos do Genesis. No Brasil, o guitarrista se apresentará na Cidade Maravilhosa, no Vivo Rio, MAM, em 21 de março, e no Espaço Unimed, em São Paulo, no dia 22.

E, antes de colocar o "pé na estrada", direto de Londres, o guitarrista concedeu entrevista exclusiva ao JORNAL DO BRASIL, a esta coluna, para falar um pouco de música, do seu trabalho, do Brasil e do Rio, cidade pela qual tem um carinho muito especial.

 


Steve Hackett - um guitarrista iluminado Foto: divulgação

 

JORNAL DO BRASIL: Qual a sua expectativa para os shows que você realizará em março aqui no Brasil?

Steve Hackett: É sempre ótimo tocar no Brasil, e estamos trazendo um show empolgante com as músicas favoritas do Genesis.

 

A primeira vez que você se apresentou no país foi com o Genesis, em 1977. Ao longo dos anos, você voltou promovendo a sua carreira solo, aqui e em outros países da América do Sul. Como você descreveria, especificamente, o público brasileiro que conhece a sua música e carreira?

O público brasileiro, em geral, sempre responde de forma fantástica, e é sempre uma alegria tocar aí.

 

Você ainda se lembra de algum momento daqueles shows que fez com o Genesis no Brasil nos anos 1970? Afinal, já se passaram quase 50 anos...

Sim, foi maravilhoso tocar para públicos tão grandes naquela época e sentir o carinho de todos.

 

Durante os shows daquele período, por causa da complexidade do som, dos arranjos, das composições da banda, você às vezes se apresentava sentado. Algo incomum, quase inesperado, para um guitarrista de Rock. Hoje isso não acontece mais. O que mudou, considerando que em seus shows do passado e os atuais com a banda Genetics você continua tocando muitas dessas composições complexas do Genesis?

Eu já tocava guitarra em pé quando me apresentei no Brasil naquela ocasião. Hoje gosto de celebrar a música que amo daqueles tempos de Genesis e, como membro original, posso dar a ela uma energia extra.

 

Nas décadas de 1960 e 1970, o Rock Progressivo tinha espaço significativo na mídia e atraía um público muito grande. Você acredita que esse público ainda tem influência e poder de consumo na indústria musical atual?

Ainda existe um bom público para o Rock Progressivo, apesar da superficialidade de grande parte da música atualmente.

 

Ao longo de sua extensa discografia solo, há uma ampla e eclética variedade de álbuns que transitam entre estilos não só do gênero progressivo, mas também do rock clássico, música instrumental, world music, pop e erudita. Por exemplo: o delicado e de arranjos minuciosos álbum A Midsummer Night's Dream, gravado com a Royal Philharmonic Orchestra, lançado em 1997, e o Darktown, gravado dois anos depois, que apresenta um som bem diferente, mais pesado e contemporâneo, com elementos de música eletrônica, samples e vocais processados, distorcidos. O que normalmente o inspira e o leva a transitar de um estilo, tema ou gênero para outro?

Eu abraço todos os gêneros musicais e me refiro ao meu trabalho como “pan-gênero”. Para mim, a música pode avançar quando um gênero influencia outro.

 

Nos anos 1980, você visitou o Rio várias vezes de férias e, durante uma dessas estadias, compôs material para o álbum Cured, lançado em 1981. Você também gravou todo o álbum Till We Have Faces, no Brasil, lançado em 1984, com a participação de vários músicos brasileiros. Artistas ligados especificamente ao rock, como Jim Capaldi e Janis Joplin (que já não estão entre nós), assim como Jimmy Page, Mick Jagger e Andy Summers, tiveram, e ainda possuem, uma forte ligação com o Rio. De que forma a cidade o inspirou naquela época?

No Till We Have Faces eu queria fazer um álbum totalmente imerso em percussão. Foi bom tocar com músicos locais. Foi bom trabalhar com Ritchie nos anos 1980 e, recentemente, voltei a trabalhar com ele, tanto ao vivo quanto em estúdio. O Rio tem paisagens lindas e, nos últimos anos, tenho gostado de mostrar a cidade para a minha esposa, Jo.

 

Há fortes críticas no meio artístico sobre os rumos que a indústria musical vem tomando, além de grande preocupação com a nova geração de ouvintes que consome música de forma muito fragmentada. As plataformas de streaming têm sido bastante criticadas, assim como a comercialização de faixas individuais, desvinculadas da experiência de compra e audição de um álbum completo de um artista ou banda. Qual é a sua visão sobre essa tendência?

Os álbuns mudaram o mundo. A audição fragmentada é um problema. Isso me preocupa, e continuo defendendo os álbuns e a música de melhor qualidade.

 

Você utiliza suas redes sociais principalmente para promover o seu trabalho e compartilhar momentos pessoais, como lazer e viagens. Muitos artistas — não apenas músicos — estão usando essa mídia, e até mesmo os shows, para expressar opiniões sobre questões complexas envolvendo política, guerras, fascismo, democracia, racismo, pobreza, fome, questões ambientais e muito mais. Você já pensou em seguir esse caminho ou prefere não se envolver publicamente com temas controversos?

Não me envolvo publicamente com temas controversos. Acredito que a música pode ajudar a curar as pessoas. É uma grande embaixadora da paz.

 

Qual é o seu solo de guitarra favorito, além, é claro, do sempre citado “Firth of Fifth”, do álbum Selling England by the Pound, do Genesis?

Sempre gostei de tocar Spectral Mornings. Amo tudo nela.

 

Qual é o seu álbum favorito do Genesis?

Selling England by the Pound.

 

E o da sua carreira solo?

Tanto Spectral Mornings quanto The Circus and The Nightwhale.

 


Hackett executando um dos seus solos criativos e etéreos Foto: divulgação

 


The Circus and the Nightwhale, lançado em 2024, é um dos álbuns preferidos de Hackett de sua carreira solo Foto: divulgação

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