CULT, POP & ROCK
Dez! Nota dez!
Publicado em 12/02/2026 às 08:01
Alterado em 12/02/2026 às 12:54
. Ilustração: Pixabay
Parece que foi ontem que escrevi sobre o documentário “Becoming Led Zeppelin” para essa coluna, publicada dias antes do carnaval do ano passado. De fato, o tempo anda voando velozmente. Nosso dia a dia vai nos consumindo numa velocidade em que as horas e os minutos passam sem percebermos.
A correria diária e a rotina cada vez mais cheia de informações e pressões nos impede de parar um pouco para olhar em volta sem a necessidade da busca desenfreada por novidades, notícias, soluções; sem a obrigação de cumprirmos compromissos que nos mantêm presos a correntes que nós mesmos fechamos e das quais temos dificuldades de nos libertar.
Então, nesse carnaval, sem pressão nem obrigações, separarei todo esse tempo de folia que toma conta do país para colocar um pouco da leitura em dia, assistir a jogos do futebol europeu, conferir alguns filmes e documentários e, claro, ouvir muita música, escolhendo alguns discos que preciso voltar a ouvir e que andam meio que colocados de lado nos últimos meses e anos.
Cito aqui e deixo como dica para os leitores 10 álbuns que, nesse desfile de alta qualidade sonora e de criatividade, merecem 10. Nota 10.
Rik Emmett – Ten invitations from the mistress of Mr. E. (1997): Com uma carreira solo de sucesso mediano, mas com ótimos álbuns espalhados em uma discografia extensa, o guitarrista canadense Rik Emmett foi membro da banda de hard rock Triumph da metade dos anos de 1970 até o final dos 80. Além de ser um craque na guitarra, Emmett também possui boa voz que, neste interessante álbum acústico instrumental, não foi utilizada, sendo substituída em todas as faixas com belos arranjos dominados por acordes de violões de cordas de nylon e aço. A minha preferida do álbum é a bela e delicada “Angelina’s smile”.

O belo álbum acústico do guitarrista canadense Rik Emmett Foto: reprodução
Steve Hackett – Bay of Kings (1983): Belo álbum instrumental acústico do guitarrista inglês Steve Hackett, que foi membro da banda de rock progressivo Genesis durante os anos 1970 e início dos 1980. O título do álbum é, na verdade, uma tradução, meio implícita, de Angra dos Reis, trabalho solo inspirado em uma das várias viagens que Steve fez ao Brasil, especialmente ao Rio de Janeiro, nos anos 1980, durante o seu casamento com a artista plástica brasileira Kim Poor. Aliás, uma das faixas de “Bay of Kings” recebeu o título de “Kim”. Outra homenagem é a música “Petrópolis”, inspirada em uma das visitas do músico à cidade serrana.
Guilherme Arantes – Interdimensional (2026): O novo álbum do imenso artista, compositor, instrumentista e cantor Guilherme Arantes é excelente. Lembra aqueles ótimos que ele lançou nas décadas de 1970 e 1980. Já ouvi algumas vezes e vou repetir a dose durante o carnaval. Destaco, entre tantas outras, “Sob o Sol”, com um solo de guitarra afiado do seu parceiro dos últimos anos, o ex-Tutti-Frutti, Luis Sérgio Carlini; “Intergalática missão” e a maravilhosa “O prazer de viver para mim é você”, em duas versões, cantada e instrumental, que Tom Jobim e Vinicius de Moraes certamente assinariam.
Elvis Costello & Burt Bacharach – Painted from memory (1998): Perdi as contas das vezes que ouvi essa obra-prima de Costello e Bacharach, principalmente durante a primeira década dos anos 2000, quando ainda morava no Rio. Vozes e arranjos da dupla irretocáveis. As minhas preferidas do álbum são “In the darkest place”, “Tears at birthday party” e “My thief”.
Steve Howe – Portraits of Bob Dylan (1999): Álbum maravilhoso, mas pouco conhecido da interessante discografia da carreira solo do ex-guitarrista da banda de rock progressivo Yes. Uma homenagem do extraordinário músico inglês a um mito da história da música mundial e um dos seus ídolos: Bob Dylan. Ótimas versões para a clássica “Lay lady lay”, “Bucket of rain” e “Going, going, gone”, interpretada de forma belíssima pelo vocalista Max Bacon, que esteve com Howe na banda GTR no início dos anos de 1980.

Steve Howe, mago da guitarra, homenageou o seu grande ídolo, Bob Dylan, em um álbum primoroso Foto: reprodução
George Harrison – All things must pass (1970): Na semana passada, assisti em uma rede social a um curto vídeo do guitarrista Peter Frampton contando alguns detalhes do convite para participar das gravações dessa obra-prima de George Harrison. Por isso, também resolvi tirar nesses dias de descanso um tempo para ouvir pela centésima vez o álbum triplo do ex-Beatle, que infelizmente não está mais entre nós. As minhas preferidas, entre tantas outras do disco, são “I'd have you anytime”, “My sweet lord”, “All things must pass” e “Let it down”.
Cat Stevens – Tea for the tillerman (1970): Depois de separar esse álbum para ouvir no carnaval, assisti, por pura coincidência, a uma ótima entrevista do empresário ligado ao cinema Bruno Wainer no podcast da amiga Patricia Secco, “De cara com a Secco”. Ele, que esteve presente nas gravações de “Eu te amo” (1981), de Arnaldo Jabor, contou que o mitológico apartamento que serviu de set e cenário para o filme pertenceu ao músico e cantor americano, que compôs clássicos incríveis como “Wild world”, “Sad Lisa” e “Father and son”, que estão nesse que é o seu álbum de maior sucesso.

Tea for the Tillerman - o álbum de Cat Stevens cheio de belas canções e sucessos Foto: reprodução
Zeca Baleiro – Líricas (2000): Nesses dois anos de coluna, eu certamente já devo ter citado “Líricas” em algum momento. E cito novamente, pois esse álbum é um dos meus preferidos de toda a história do pop nacional e meus ouvidos estão sempre o revisitando. Do início ao fim, esse disco outonal do grande músico e compositor maranhense, que abriu os anos 2000, é belíssimo. Difícil escolher as melhores, mas “Minha casa”, “Proibida pra mim” e “Nalgum lugar” são as minhas top 3.
Rita Lee – Bossa n' Roll (1991): Gravado ao vivo em São Paulo, “Bossa n’ Roll” é um daqueles álbuns que você coloca para tocar e deixa rolar. Nele, está uma Rita Lee em plena forma vocal, interpretando de maneira única, magistral, alguns dos seus grandes sucessos e de outros artistas quase à capela, minimalista, só acompanhada de um violão. Destaco as versões para “Fool on the hill”, dos Beatles, “Mutante” e “Baila comigo”.

Rita Lee só voz e violão no álbum ao vivo de 1991 Foto: reprodução
Paul McCartney – Chaos and creation in the backyard (2005): Quem me indicou esse álbum foi Tony Bellotto, em um encontro fortuito em uma livraria do Leblon, assim que foi lançado no Brasil, em 2006. Vendo que eu estava segurando o CD e em dúvida se o compraria, o guitarrista dos Titãs disse que para eu não pensar duas vezes: “– É muito bom!”, reforçou o elogio. Com seu paladar apurado e ouvidos sensíveis, o cara realmente tinha razão: o álbum é maravilhoso. Maca, depois de alguns trabalhos insossos nos anos anteriores, acertou a mão tocando quase todos os instrumentos em todas as faixas. As minhas preferidas entre as 14 do álbum são “How kind of you”, “Jenny Wren” e a baladona “This never happened before”.