Cult, Pop & Rock

Por CAL GOMES

CULT, POP & ROCK

Os filhos do grunge

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Publicado em 15/01/2026 às 10:36

Alterado em 15/01/2026 às 10:39

Juventude urbana lustração: Pixabay

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O cometa Grunge passou pelo planeta em uma década em que os gêneros musicais viviam misturados e se embolando em uma luta desesperada provocada pela disputa acirrada entre gravadoras e executivos do mercado fonográfico.

Os anos de 1990, dominados pelo way of life americano, que seguia ditando regras e normas também nas artes, foram marcados por um movimento urbano, capitalizado pelo mercado financeiro, basicamente formado pelos seus representantes jovens de classe média alta, que logo foram acolhidos pela mídia e batizados de yuppies (young urban professional). Eles surgiram furiosos principalmente em Nova Iorque e Los Angeles, criando uma geração que se espalhou pelos outros principais centros dos EUA e, logo, invadiu Paris, Londres, Berlim, Roma, Tóquio, São Paulo etc.

Na contramão dessa tendência materialista, na cidade portuária de Seattle, no estado de Washington, o grunge, movimento musical, cultural e artístico que explodiu quase que da noite para o dia, foi logo adotado pela MTV, forte estação de televisão, que mandava e desmandava na mídia eletrônica daqueles anos, ainda sem o poder monstruoso da internet, e mostrou que jovens talentosíssimos, que pareciam adormecidos entre os estilos modorrentos que dominavam a música, acordaram fazendo barulho. Muito barulho.

O grunge surgiu apresentando um som claramente baseado no que aqueles garotos absorveram ouvindo artistas e bandas dos anos de 1970 e 1980: punk, heavy metal e hard rock. A música que estavam criando e produzindo sacudiu principalmente o público adolescente, que estava enjoado das baladas adocicadas do rock de arena, das baterias eletrônicas da new wave e das bandas espalhafatosas surgidas na Califórnia com os seus representantes vestindo roupas de lycra coladas e coloridas e com cabelos armados e sustentados por quantidades enormes de laquê.

O ambiente pesado de Seattle – contrastando com o urbanismo clássico festivo de Nova Iorque e com a vida ensolarada e praiana da Califórnia – criou uma geração de músicos que, mais do que uma sonoridade pesada e densa, tinha um forte recado para aquela sociedade que os oprimia: as letras das canções surgiam transbordando melancolia, revolta, desesperança e fúria. Poesia refinada e ácida. Dura e crua.

Separei 4 canções, com partes significantes de suas letras, das 04 bandas principais que surgiram em Seattle nos anos de 1990 e fizeram do grunge o seu veículo que pudessem gritar as suas dores.

Nirvana, “All apologies”, do álbum “In útero” (1993): A mente conturbada de Kurt Cobain certamente foi responsável por simbolizar o movimento musical grunge. Sua forma explícita de enviar mensagens desesperadas através do som da banda deixava claro que os dias dele estavam contados. E na letra quase telegráfica de “All apologies” Kurt canta com sua voz rouca: sob o sol eu me sinto como alguém casado e enterrado. 


In Utero - Terceiro e último álbum de estúdio do Nirvana Foto: reprodução

 Alice in Chains, “Love, hate, love”, do álbum “Facelift” (1990): Afundado na heroína, droga pesada que o levou para o túmulo em 2002, o vocalista do Alice Chains, Layne Staley, entre dentes, canta o desespero de um amor fracassado. Parte dessa canção arrastada, marcada pelos acordes mágicos da guitarra de Jerry Cantrell, poderia ter sido muito bem composta e gravada por Jim Morrison, do The Doors: perdido dentro da minha mente doente, eu vivo por você, mas não estou vivo. 


A capa assustadora de um álbum assombroso do Alice in Chains Foto: reprodução

 Soundgarden, “New damage”, do álbum “Badmotorfinger” (1991): O vocalista Chris Cornell foi uma das vozes mais potentes da história do rock. Seu suicídio em 2014, porém, interrompeu toda uma carreira brilhante que o líder do Soundgarden tinha pela frente. Em “New damage”, marcada por riffs de baixo e guitarras que lembram muito alguns clássicos do Black Sabbath, Cornell grita mensagens com previsões sombrias sobre o futuro do planeta, ameaçado pela destruição ambiental que parece não ter fim e pelos poderosos da política que não cansam de nos amedrontar: o novo desastre já chegou. Os destroços estão afundando. Caia fora antes que você se afogue. 


Badmotorfinger - Terceiro álbum do Soundgarden que vendeu mais de 5 milhões de cópias pelo planeta Foto: reprodução

Pearl Jam, “Why go?”, do álbum “Ten” (1991): Talvez essa seja a canção do incrível Eddie Vedder que mais simboliza a juventude de Seattle que ele conheceu tão bem nos anos de 1980 e 1990. O vocalista e líder do Pearl Jam, único sobrevivente entre os vocalistas que cito nessa coluna, canta em uma letra angustiante a curta história de uma jovem abandonada pela mãe em algum tipo de manicômio: por que ir para casa? Ela parece estar mais forte, mas o que eles querem é que esteja fraca.

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