Não envelheçam!

O grande e polêmico Nelson Rodrigues era muito amigo do escritor e jornalista Otto Lara Resende. De tão íntimo, sentiu-se com liberdade para zombar do amigo ao dar o título de uma de suas obras mais conhecidas: "Bonitinha mas ordinária ou Otto Lara Resende". O generoso mineiro ficou magoado, mas, com o tempo, perdoou o dramaturgo. E a peça também ficou conhecida apenas pelo personagem principal (em 1981, foi encarnada no cinema por Lucélia Santos, em desempenho extraordinário). Tanto voltaram às boas relações, que uma das últimas entrevistas de Nelson foi exatamente para Otto. Alguns ainda se lembram dos detalhes. Já perto do final do diálogo, Otto perguntou a Nelson que conselho ele daria para os jovens. O dramaturgo sorriu e do alto de seu proverbial mau humor, com sua voz de barítono, recomendou pausadamente: "Envelheçam!". Otto, com a pergunta certeira, conseguiu que Nelson exibisse toda a amargura que marcou sua obra.

A entrevista faz parte dos compêndios da imprensa. Mas recorro a ela para traçar um paralelo com alguns pontos injustificáveis do projeto de Reforma da Previdência, que se abatem de forma impiedosa sobre os direitos de brasileiros que já envelheceram ou estão prestes a envelhecer. O experiente Gilberto Menezes Côrtes, em seu artigo de ontem, abordou o tema com otimismo. Fala dos detalhes diabólicos, mas considera que funcionam como bodes na sala a serem negociados (e extirpados) durante a negociação com o Congresso. Pode ser, afinal Gilberto vem de longe e costuma acertar em seus diagnósticos sobre a economia do país. Mas confesso que estou com o pé atrás. E acho que o pacote de maldades contra os idosos veio para ficar.

O que mais me surpreende é a desfaçatez com que os técnicos da Previdência atiraram em mecanismos de proteção aos idosos que nada têm a ver com a Previdência. Aproveitaram o pacote da badalada reforma para atacar salvaguardas já consolidadas que não são nem de longe responsáveis pelos rombos do INSS. O que dizer, por exemplo, do FGTS a que têm direito os aposentados que voltam a trabalhar? Por que extingui-lo? O aposentado que é contratado em regime de CLT obviamente faz jus ao recolhimento mensal do FGTS e à multa de 40% quando demitido. Repito a pergunta de Gilberto: para que tirar o FGTS do aposentado? Explica um burocrata da Previdência que a mudança reduz o custo trabalhista das empresas e não prejudica o idoso porque ele já recebe os projetos de aposentadoria. Sabem qual é o benefício médio do INSS? Não passa de R$ 1.200,00. Ao ver do burocrata, diante dessa enormidade de provento, o aposentado pode perfeitamente abrir mão do FGTS. Não é por acaso que Brasília é considerada a ilha da fantasia. Lá dá-se privilégio às empresas, em detrimentos dos assalariados.

Outra maldade é a redução do Benefício de Prestação Continuada para deficientes e idosos. O BPC cairá de um salário mínimo para apenas R$ 400,00 para brasileiras e brasileiros a partir dos 60 anos. Um salário mínimo, daqui em diante, só para os que atingirem os 70 anos. Novamente, explicam os altos servidores da Previdência (todos com gordas aposentadorias garantidas) que haverá economia para os cofres públicos. Podemos afirmar, sem dúvida, que se fará economia às custas da miséria alheia. O BPC foi uma pequena proteção criada para idosos e deficientes que não conseguiram contribuir para a Previdência. Gente do campo e também de centros urbanos que sequer tiveram carteira de trabalho e muito menos cobertura do INSS. Sabe-se que no Norte e Nordeste várias famílias sobrevivem graças ao BPC do avô ou da avó. Preparem-se, portanto, para passar fome, com o aval dos burocratas do Planalto.

Também é vergonhosa a decisão de reduzir a pensão de viúvas e viúvos. Os gênios por trás da reforma entenderam que o cônjuge sobrevivente não precisa da pensão integral. Só a receberá, por exemplo, a viúva que tiver cinco dependentes. Caso tenha apenas um dependente, o valor de sua pensão cairá para somente 60% do que recebia o marido. Engenhoso, não é mesmo? Se a família vivia com uma pensão de R$ 3 mil, terá de apertar o cinto e passar a viver com R$ 2 mil. Por quê? Porque os poderosos de Brasília ganham polpudos salários e acham que os idosos podem viver de migalhas.

Fica aqui o conselho de Nelson Rodrigues, às avessas: "Não envelheçam!"