A verdade prevalece

Em meio a tantas tragédias, todos nós ficamos com um sentimento de desalento e dor. Há que buscar os responsáveis pelas tragédias de Brumadinho, da tempestade de verão no Rio e do incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo. E dar todo o amparo às famílias, sem adiar a obrigatória reparação financeira. Nada disso devolverá os entes queridos, mas o que não se pode admitir são versões distorcidas e mentirosas. Sabe-se, agora, que a Vale tinha em mãos laudo sobre os problemas da barragem de Brumadinho. Sabe-se também que a prefeitura do Rio reduziu os investimentos em contenção de encostas. E também se recebe com tristeza a informação de que não havia alvará para funcionamento do Ninho do Urubu. Não falta solidariedade. Mas isso não significa atenuar as cobranças. Que as investigações prossigam e se esclareçam todos os fatos e responsabilidades.

Seja nas tragédias, seja nos fatos políticos, cedo ou tarde a verdade prevalece. E transforma-se em história. Num primeiro momento, ganham relevo as versões contadas pelos poderosos. Mas, à medida que deixam de existir pressões, os fatos vêm à tona em toda sua crueza. E os falsos mitos caem por terra. Agora mesmo, o governo da Espanha ordenou que 656 cidades espanholas retirem de seus espaços públicos vestígios da ditadura franquista. Hoje, o general Francisco Franco é responsabilizado pelo golpe de Estado que derrubou a Segunda República e deu origem à sangrenta guerra civil que deixou mais de 500 mil vítimas entre 1936 e 1939. Entre elas, o poeta Federico García Lorca, fuzilado num barranco, em Granada, por militares da Falange de Franco. Também está em andamento a exumação dos restos mortais de Franco do monumento onde foi sepultado, no Vale dos Caídos. O 'generalíssimo' não merece honra alguma.

Do Chile, vem outro exemplo de acerto de contas com a história. Na última quinta-feira, o ex-comandante em chefe do Exército, general Juan Emílio Cheire, já condenado por encobrir homicídio de 15 pessoas, foi detido em novo processo. É acusado pela tortura de 24 presos políticos em La Serena, no Norte do país, entre 11 de setembro e 25 de novembro de 1973. Quando era tenente, teria participado das sessões que submeteram presos a espancamento, choques elétricos, falsas execuções e estupros. Aos 71 anos, o general Cheire é o militar de mais alta patente a ser punido pela Justiça chilena.

No Brasil, como se sabe, a anistia concedida pelos militares em 1979 incluiu os torturadores. Só mais tarde foi instalada a Comissão da Verdade, mas sem poder para punir os criminosos. Nesse contexto, muitas pessoas entre eles, o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos cometem o absurdo de afirmar que não houve tortura. Enaltecem o coronel Brilhante Ustra, responsável pelo DOI-Codi de São Paulo, que torturou e matou vários presos políticos. E batem palmas para o regime autoritário. Esta semana, nas redes sociais, o deputado Eduardo Bolsonaro divulgou trailer do documentário "1964, o Brasil entre armas e livros", que promete "resgatar a verdade sobre o período mais deturpado da nossa história". Eduardo diz que a produção vai estrear em 31 de março, dia do golpe contra Jango, "falando verdades nunca antes contadas muito menos pelo seu professor de história".

Já que o deputado quer resgatar a verdade sobre a ditadura, trago o relato de um agente da repressão que participou da prisão do dirigente comunista David Capistrano, que combateu na Guerra Civil Espanhola e foi eleito deputado constituinte em 1947. Membro do Comitê Central do PCB, David foi preso no Sul em março de 1974 ao tentar voltar ao país. Depois de passar pela Oban em São Paulo, foi entregue à tenebrosa Casa da Morte, em Petrópolis. À noite, o agente 'Carioca' (seu depoimento está no livro 'Sem vestígios', de Taís Morais) foi chamado para ver 'o trabalho' dos torturadores. Eis o que viu: "Era sangue por todo lado. O líquido formava pequenas poças no chão, mas nem sinal de um corpo humano íntegro. Cheiro de carne e vísceras. Morte recente () Chocado, sem articular uma só palavra, o estômago engulhado, percebeu que as partes, amontoadas num canto, estavam a ponto de serem colocadas em sacos pásticos () As costelas de Capistrano pendiam do teto, e ele, reduzido a pedaços como se fosse uma carcaça de animal abatido, pronta para o açougue".

Eis a verdade, deputado Bolsonaro!

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