Premonição ou certeza?

Sob o forte impacto da tragédia de Brumadinho, muita gente se lembrou de poema premonitório de Carlos Drummond de Andrade, o filho maior de Itabira. Mas ainda mais impressionante foi o texto enviado às redações na manhã de sexta-feira pelo jornalista Marcos Caldeira, alertando sobre a possibilidade de a cidade natal de Drummond ser atingida por desastre ambiental como o de Mariana. Em minha longa vida profissional, não me lembro de premonição parecida. Quatro horas antes do rompimento da barragem de Brumadinho, o alerta de Caldeira, que agora já viralizou na internet, informava que “400 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério da empresa Vale cercam Itabira”. E deixava no ar uma dramática interrogação: “Desde 5 de novembro de 2015, itabiranos se fazem esta pergunta: Itabira corre risco de sofrer uma hecatombe parecida com a que ocorreu em Mariana, onde o rompimento da barragem Fundão — sob responsabilidade da Samarco, controlada pelas mineradoras Vale e BHP Billiton — desgraçou o distrito de Bento Rodrigues, matou dezenove pessoas, enlameou dezenas de municípios, até no estado do Espírito Santo, e contaminou a bacia hidrográfica do Rio Doce?”

A catástrofe de sexta-feira, como todos sabem, não atingiu Itabira. Desta vez, a tragédia anunciada abateu-se sobre Brumadinho. Mas não há dúvida de que todas as cidades mineiras onde existem barragens de rejeitos da Vale estão debaixo de grave ameaça. Em Itabira, as dimensões são alarmantes. Eis os números citados por Caldeira. A principal barragem no entorno da cidade de Drummond é a de Itabiruçu, que tem 37 anos, capacidade para 220,8 milhões de metros cúbicos de rejeito e 130,9 milhões de metros cúbicos de rejeito lá depositados. “As outras são Pontal, Rio de Peixe e Conceição. Somadas, a quantidade de rejeitos ultrapassa 400 milhões de metros cúbicos. “É rejeito para entupir quinhentas Itabira por quinhentos séculos”, advertiu Caldeira, no seu “O Trem Itabirano”. Não custa lembrar, que, segundo especialistas, a Vale é responsável (ou irresponsável) por mais de 140 barragens no país, a maioria em Minas.

Vem de Minas Gerais outra informação, também assustadora. Não tenho a intenção de gerar falso alarme, mas o relato é de gente que conhece a área de energia nuclear no Brasil. Continua sem solução o tratamento de rejeitos da extração de urânio na zona rural de Caldas, o que representa ameaça para a cidade turística de Poços de Caldas. A questão se arrasta há décadas. Entre 1982 e 1995, a unidade de tratamento de minério (UTM) das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) produziu ali 1,2 mil toneladas de concentrado de urânio, para abastecer a usina de Angra 1. A operação foi paralisada desde então e a antiga mina a céu aberto deu lugar a um enorme lago de águas ácidas, com 180 metros de profundidade e 1,2 mil metros de diâmetro. Já foram feitas várias reportagens a respeito. E também foi movida ação contra a INB, responsável pela cadeira produtiva do urânio, mas persiste a indefinição sobre o acondicionamento dos rejeitos nucleares.

Em 2008, uma decisão judicial obrigou a INB a analisar a radiação no solo, nos animais, nas plantas, no lençol freático e nos rios que cortam as cidades da região. E determinou um laudo técnico sobre a eficiência do sistema de monitoramento ambiental e da bacia de rejeitos. A área de risco inclui o parque industrial desativado, bacia de rejeitos e depósitos de armazenamento de materiais radioativos, com cerca de 11 mil toneladas de torta 2 (concentrado de urânio e tório). Concluo com a notícia que recebi: nada mudou de lá para cá. O risco é grande e vazamentos podem contaminar a água de Poços de Caldas. Oh, Minas Gerais!!!

Família homofóbica

Depois de comemorar a decisão de Jean Willys de renunciar ao terceiro mandato, é melhor a família Bolsonaro ficar longe dos cinemas. Entre os oito filmes finalistas do Oscar, pelo menos três abordam a temática LGBT. Um deles traz a biografia de Freddie Mercury, do Queen; “A Favorita” fala da relação da rainha Anna, da Inglaterra, com suas duas amantes; e outro, “Green Book”, é baseado na vida do pianista Don Shirley. Roteiros, portanto, que nada têm a ver com a homofobia dos Bolsonaro. Mas será que Jair e seus filhos gostam de cinema? Ou, como o nazista Goering, sacam seus revólveres ao ouvir falar de cultura?