O jogo do presidente

A impressão que se tem é que o presidente Bolsonaro, assessorado ou sponte sua, decidiu armar a segunda fase de seu mandato num tablado de xadrez, onde as peças se alternam de acordo com os lances que o momento recomendar. Avançam ou se recolhem, segundo a conveniência de um objetivo cada vez menos distante - a sucessão em 2022. Sua relação com os ministros tem relevado esse plano, que no dicionário de caserna é um comportamento às vezes estratégico, às vezes tático. O princípio e o epílogo de sua relação com Sérgio Moro mostraram isso, alternadamente. Os balões de prestígio do ministro foram de tal forma inflados, que passou a ser cogitação para a presidência; e aí começou seu esvaziamento, até a crise gerada com a indicação de um diretor da Polícia Federal, que, com alguma boa vontade, seria facilmente superada. 

Depois, veio o episódio Mandetta, na Saúde. Porque no xadrez de Bolsonaro os peões têm suas casas fixas e movimentam-se de acordo com a jogada superior; e o rei é um só. O ministro capitalizava admirações, e convinha cortar-lhe as asas, antes que se aventurasse em voos mais altos. Para tanto, o chefe nem hesitou em adotar uma singularidade: em plena tragédia de uma pandemia, boicotou a política sanitária de seu próprio governo. Algo absolutamente inédito e de evidente contrassenso.

Aproximando-se a hora da sucessão, não bastaria conter aspirações eleitorais dentro ou fora dos gabinetes do governo, como também limitar ministros que, mesmo sem intenções presidenciais, revelam-se capazes de dar a última palavra em seus setores. Nem mesmo na Economia, o que para muitos faz compreender que Paulo Guedes, mantido em fogo brando, já não está totalmente isento de fritura, mesmo que acatado nos meios financeiros e empresariais. Num projeto que almeja a reeleição não pode caber dúvida. Quem manda é o chefe.

Em outro viés, o pré-candidato decide arriscar desembarque no Nordeste, mesmo sabendo que não teria como manter uma ajuda financeira mais generosa para vastas áreas de populações desassistidas, e passando por cima de lideranças regionais cristalizadas; tipo dessas lideranças que, por exemplo, não deixam escapar de suas mãos a presidência do Congresso Nacional, onde a cadeira é propriedade perpétua de senadores nortistas ou nordestinos. Esse salto político repentino em terreno do caciquismo mais sólido do país talvez encontre explicação no espírito do paraquedista Bolsonaro. Valeria lembrar que Tancredo Neves achava altamente perigoso tratar de política com esses sujeitos que saltam de grandes alturas, o que explicava suas reservas em relação ao general Hugo Abreu para tratar da redemocratização. Dizia que, se tinha cuidado até para descer um degrau, não concebia fazer acertos com paraquedas… Hoje, talvez dissesse o mesmo do presidente.

Aos adversários, em particular os que planejam medir forças com ele nas urnas, seria arriscado desconhecer que estão diante de um tablado de xadrez; e acompanhar os lances pode não estar entre as coisas mais fáceis. Roger Caillois, que escreveu ”O Jogo e os Homens”, diria que o presidente brasileiro pratica o “agon”, método em que o jogador não confia no destino, porque não pode administrá-lo; confia apenas nas pedras que já tem na mão. O que, no caso, é mais visível ainda na dissimulação, quando se indaga dele sobre os planos para 2022. Desconversa, porque, se tem o tempo a favor, o jogador procura esconder a “paixão tenaz”, como disse Dostoiévski ao traçar o perfil semelhante ao de quem procura assegurar o poder na perfeita disposição das peças. E o tempo é uma delas.

A Oposição certamente terá de entrar com sabedoria nessa partida para reduzir a história de Bolsonaro a um único mandato presidencial, contrariando pesquisas antecipadas que lhe têm sido favoráveis. Os grupos contrários ainda não mostraram com que armas e disposições vão se apresentar. Já não poderiam retomar o discurso da Justiça a serviço de perseguições e condenações políticas, porque os grandes oposicionistas estão em casa. Insuficiente também acusá-lo de nazista e direitista, porque por esse caminho farão aprofundar a radicalização. Não é preciso de genialidade para saber que é exatamente de um clima radicalizado que, pelo seu temperamento, o presidente necessita.

O país precisa ampliar o debate político, discutir melhores caminhos para a sociedade, avançar nessa custosa caminhada para vencer a crueldade das diferenças sociais, e conter a violência urbana, que assume caráter de descontrole. Já é sabido o que Bolsonaro diz sobre isso. Mas seus opositores têm dever de expor e propor o que pensa e o que deseja a parcela da população divergente. É no conflito civilizado das ideias que as sociedades prosperam. Os brasileiros devem saber o que têm ou querem ter além do atual governo. Há sempre como melhorar e reinventar caminhos.