Ê ê vida de gado, povo não vacinado, um povo infeliz

Macaque in the trees
Em 2018, tínhamos um rebanho bovino de 213,500 milhões de cabeças (Foto: REUTERS/Jonathan Bachman)

O IBGE informa: desde sexta-feira, 4 de setembro, somos 212 milhões de brasileiros. Segundo o programa de projeção estimada da população (nascimentos – mortes) do Instituo Brasileiro de Geografia, que tem a demografia entre as suas atividades multidisciplinares, a população brasileira aumenta a cada 20 segundos. No momento em que escrevo este parágrafo (10h34 de sábado, escrevo de Búzios), somos 212.005.871 habitantes da “terra brasilis”.

O mesmo IBGE, que usa a projeção da população das 27 unidades federativas e de cada um dos 5.570 municípios brasileiros para definir o quinhão de cada um na repartição da receita federal pelos fundos de estados municípios, informa também que, em 2018, tínhamos um rebanho bovino de 213,500 milhões de cabeças. Quando estudava geografia no primeiro ano do Colégio de Aplicação da UFRJ, na Lagoa, com o professor Maurício Silva, lembro que nossa população era de uns 60 milhões de habitantes e o país, que tinha mais da metade da população ainda na área rural, possuía igual número de cabeças de gado, de acordo com o Censo de 1960.

Nos últimos 60 anos – sobretudo a partir da geada de 1975, que destruiu os cafezais de São Paulo e Paraná e determinou o fim do colonato que se instalou nas áreas produtivas de terras roxas dos dois estados, enquanto a terra se esgotava nas lavouras do Vale do Paraíba do Sul e na Zona da Mata de Minas Gerais, sob o regime da escravidão, em extinção paulatina desde 1850 até 13 de maio de 1988 – o Brasil se tornou um país urbano.

A forte migração urbana nos dois estados, com a extinção do regime de meia ou de terça na produção de alimentos básicos (milho, feijão, mandioca) pelos colonos nas “ruas” do café que cuidavam para os donos da terra, produziu um forte desequilíbrio na oferta e procura de alimentos até a segunda metade dos anos 80. Nos governos Geisel e Figueiredo, as crises de abastecimento de alimentos básicos (arroz, feijão, carne e leite, além dos hortigranjeiros) dominavam o noticiário econômico.

Figueiredo convidou o ex-ministro da Fazenda, Delfim Neto, para o desafio do Ministério da Agricultura. Delfim criou o slogan “Vamos encher a panela do povo”. Nem chegou a implantá-lo para valer na pasta. Em 19 de agosto de 1979, Mário Henrique Simonsen pediu demissão da pasta do Planejamento (que comandava a economia no governo) e Delfim assumiu o posto, deixando a Agricultura com seu secretário-geral, Amaury Stabile).

O slogan foi pro brejo na novembrada de Florianópolis, quando um pequeno grupo de estudantes e opositores, cobrou a panela vazia, e Figueiredo desceu à rua com outros ministros. Acabou o “João do povo” que tomava cafezinho em bar do Leblon e botequins Brasil afora. Voltou o João Figueiredo, carrancudo que preferia o “cheirinho de cavalo ao cheiro do povo”, e quando deixou o Palácio do Planalto pela porta dos fundos para não passar a faixa a José Sarney, pediu ao povo que ”esquecesse”. O mesmo que destruiu a ideia de Stabile de introduzir o feijão-soja na merenda escolar: ao provar a gororoba, o general cuspiu grosseiramente e esbravejou ”coisa horrorosa”... Virou mote do Agildo Ribeiro, que o imitava maravilhosamente...

Desculpe se o estou relembrando. É para explicar que as crises de abastecimento – uma das razões do fracasso do Plano Cruzado, em 1986, que foi precedido pela maior seca nas lavouras do Rio Grande do Sul e Paraná, motivo de seu adiamento de 1 de janeiro para 28 de fevereiro – foram resolvidas pela ciência. Especialmente pelos técnicos da nossa competente Embrapa que desenvolveram sementes de soja, de algodão, milho e sorgo para serem cultivados nos cerrados do Centro-Oeste. Isso levou o Mato Grosso a ser o maior produtor de grãos e gado do país, desbancando o Paraná da liderança para o segundo posto como ”celeiro do Brasil”.

Antes que os ecologistas se levantem em protesto, devo dizer que a culpa da devastação do meio ambiente não é dos agrônomos e técnicos agrícolas. Mas de fazendeiros inescrupulosos ou de grileiros de terras da União. Técnicas de cultivo em curva de nível e rotação de culturas permitiram a produção agrícola brasileira dar um salto desde os anos 90 e ajudar o Plano Real a produzir a estabilidade da moeda. Isso num país que entrou o século 21 com mais de 85% da população morando nas grandes regiões metropolitanas.

No caso da pecuária, muitos pastos antes degradados foram recuperados com novas espécies de gramíneas, métodos de rotatividade dos pastos (como o francês Voisin), ou ocupados por lavouras com alta mecanização. Se a lavoura do café fosse explorada de modo menos predatório, o Vale do Paraíba e a Zona da Mata mineira não seriam a devastação atual. A riqueza do solo desceu morro abaixo. Foi o mau uso de uma terra menos fértil (que a roxa de SP) e não o fim da escravidão que levou antigos senhores de escravo à ruína. Foi a ignorância, aliada à brutalidade no trato de seres humanos.

Mas voltando à pecuária, o milagre da produtividade do rebanho bovino brasileiro (que um site vinculado ao Ministério da Agricultura diz ter atingido 120 milhões de cabeças em abril último, computando as vacas de leite) que não mais deixou faltar leite à mesa da população, paralelamente à profusão da indústria de laticínios [na infância de quem tem mais de 60 anos, iogurtes e danoninhos não existiam. Quando muito uma coalhada doméstica. E o leite, ao alcance de poucos, era em saquinho. A embalagem Pack permitiu o leite longa vida, que nada mais é que o leite em pó extraído nas fases de grande produção, e rehidratado com soro. Não raro, o leite em pó e o soro são importados dos países europeus].

Me desculpem os vegetarianos, mas vale relembrar que o maior rebanho bovino do mundo é da Índia. O país, de 1.380 milhões de habitantes, onde a vaca é sagrada, tem um total de quase 310 milhões de cabeças de gado. Vende gado vivo para o mundo todo, e é um dos três maiores exportadores de carne do mundo. O primeiro é o Brasil, que exportou mais de US$ 8 bilhões em carne e miúdos de boi, e deve muito do seu rebanho às importações de touros e vacas indianos no primeiro governo Vargas.

Os rústicos, resistentes e produtivos gados Gir e Guzerá (para leite e carne) e Nelore (para carne) são a base da pecuária moderna de leite e carne do Brasil. Mas, perguntaria você, leitor que teve a paciência de vir até aqui, por que faltava carne e leite no Plano Cruzado? É que nos últimos 30 anos houve um avanço extraordinário na pecuária de leite e de corte. Seleção, como o Gir leiteiro da Fazenda do Basa, de meu amigo Evandro Guimarães, e os cruzamentos de matrizes europeias com indianas no leite (com predomínio do sangue europeu) fizeram as vacas produzirem bem mais (em quantidade e tempo), desde que bem alimentadas.

O avanço mecanizado da agricultura em larga escala no Brasil, ocupando preferencialmente antigas pastagens degradadas, fez a pecuária de leite e de carne ser mais integrada à agricultura. Não são apenas o farelo de soja, de milho ou de trigo que são usados na ração animal. Tortas de caroço de algodão, girassol ou mamona complementam a alimentação de vacas leiteiras. Tabletes feitos do bagaço das cascas de laranja, nas fábricas de suco, em Matão e Limeira (SP), são usados para engordar gado de corte.

Mas o gado engordado não é mais um Nelore puro ou qualquer outro animal criado a pasto. No passado, os pastos secavam no inverno e o gado emagrecia. Era comum, na minha infância e juventude, um boi ser abatido com quatro ou cinco anos (era uma carne mais seca e dura, cheia de nervos). Hoje, as vacas Nelore, cruzadas com gado de corte europeu que produz mais leite (defeito nas Nelore), produzem bezerros mais taludos e precoces. O resultado é que um boi produz bem mais carne do que na minha infância, aos 24 ou 30 meses. Isso explica porque mesmo com as exportações batendo recordes em 2019, não faltou carne para os churrascos dos flamenguistas para comemorar as vitórias na Libertadores e no Brasileirão. A carne só ficou mais cara...

Confesso que tive de fazer esse longo paralelo não apenas para justificar o título da coluna, plagiando a maravilhosa música de Zé Ramalho. Mas, também para responder a um querido amigo que criticou o JB por estampar, em manchete, críticas ao presidente Jair Bolsonaro por ter respondido a um admirador que ”ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”. O que virou, imediatamente, mote de campanha institucional.

É verdade. Ninguém pode ser obrigado a tomar vacina. Mas não esperava que diante da mais grave crise pandêmica desde a gripe espanhola de 1917-18 tivéssemos que ressuscitar o grande sanitarista Oswaldo Cruz para empreender a saga da “vacina obrigatória” contra a Covid-19. Isso se tivermos uma vacina eficaz às mãos. O presidente que sempre foi contra o uso de máscara e o isolamento para combater a gripezinha (como também dizia seu ídolo, Donald Trump, nos Estados Unidos), soube pessoalmente, e pela sua família, que o novo coronavírus não é uma gripezinha.

Atletas como ele escapam. Mas quase 190 mil americanos tombaram, e o Brasil caminha para as 130 mil vítimas fatais. Todos os países mais importantes do mundo estão gastando milhões de dólares em pesquisas para encontrar uma vacina eficaz contra o vírus. Trump quer uma em novembro, para ser um trunfo na manga na disputa pela reeleição, ante Joe Binden.

Não dá para entender a fala de Bolsonaro. Acaso o país que quer reabrir o turismo internacional acredita que seus cidadãos vão poder embarcar rumo aos parques da Flórida ou à Europa se não tomarem vacina contra a Covid-19 quando ela tiver sido provada e atestada? Ou que vai ter turista disposto a correr riscos num país que não vacinou sua população de 212 milhões? Se para viajar temos de apresentar vacina contra a febre amarela, e se para que a carne bovina (ou suína) brasileira pudesse ser aceita no mundo e tornasse o Brasil o maior exportador do mundo (sem faltar o file ou o acém na mesa de ricos e pobres) não tiveram os produtores provar que o gado estava vacinado contra aftosa, brucelose e uma serie de zoonoses, imagina se de cada um dos 212.006.400 brasileiros, quando termino o texto, às 13h31 minutos de sábado...

O fanatismo religioso e a oposição entre ciência e religião tão exposta pelo Dr Zahyus, ministro da Ciência e da Religião em “O Planeta dos Macacos”, não podem comandar o debate brasileiro. Esse atraso em evitar a vacina (ou seja, a Ciência) fez o sarampo voltar a matar no Brasil de Norte a Sul, Leste e Oeste. Por sinal, a escolha de um veterinário para comandar a vacinação no Ministério da Saúde foi para quê? Ninguém controla a vida ou a morte de ninguém no Brasil. Mas nem por isso devemos estimular o suicídio individual ou coletivo. Ja tivemos um Jim Jones na America do Sul e não foi legal.