Quarentena sem Bolsonaro e PT

Nesta 3ª feira completam-se duas semanas que o presidente Jair Bolsonaro contraiu, oficialmente, o novo coronavírus. Mesmo com o agravamento da pandemia pelo interior de São Paulo, em Minas Gerais, nos estados do Sul e do Centro-Oeste, que fez o Brasil acumular mais de 2 milhões de contaminados pelo Covid-19, entre os quais o próprio presidente da República, e mais de 78 mil mortes, é inegável que o ambiente do país ficou, não diria mais leve, mas, um pouco menos pesado.

O fato de Jair Bolsonaro ter-se recolhido, por recomendação médica, em quarentena, na residência do Palácio do Alvorada, deixando de agir ativamente na administração do governo e de fazer falas agressivas, reduziu a carga de stress que ele introduz diariamente na vida brasileira. Começa cedo, ao disparar declarações polêmicas, temperadas com impropérios, além de grosserias a jornalistas presentes para registrar seus atos, sob estímulos dos áulicos fanáticos que o aplaudem cegamente, até em piadas infelizes e de mau gosto.

Como parou de dar expediente no Palácio do Planalto e não participa de atos públicos e nem discursa, assim como interrompeu o pit-stop no início da noite, quando retornava para o Alvorada e voltava a machucar o verbo e o predicado, o país ficou um pouco menos tenso, o que coincidiu com o afrouxamento dos controles do isolamento em algumas das maiores cidades brasileiras.

Discretamente, para não ferir o orgulho do presidente sob licença médica, o vice, general Hamilton Mourão, teve de assumir o protagonismo político do governo. 1º porque o Brasil se viu acuado pelas críticas dos investidores internacionais com o que consideram descaso do governo Bolsonaro com a Amazônia, o meio ambiente e os povos indígenas - expressão que o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse odiar na reunião (?) ministerial de 22 de abril, quando o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu que todos aproveitassem “que a imprensa está com foco na pandemia para passar a boiada”, liberando questões à margem do debate com o Congresso e a opinião pública, da qual a imprensa é importante mensageira.

2º porque com o aumento exponencial de desmandos na Amazônia, com desmatamentos e queimadas, além de garimpos em terras indígenas, incentivados por palavras e atos do presidente Bolsonaro que em ano e meio de governo afrouxou o cerco do Ibama e da Polícia Federal aos grileiros e exploradores ilegais de madeira e garimpos, o agronegócio brasileiro, responsável por mais da metade das receitas cambiais do país, ficou sob fogo cruzado.

De um lado ambientalistas cheios de razão contra a ação desastrada de Ricardo Salles. De outro, países que querem barrar o avanço dos produtos agroindustriais brasileiros pelo mundo, a começar pela França, principal potência agrícola da Europa, desalojada pelo Brasil no mercado mundial de carne de frango, que carregam nas tintas, como já denunciou a ministra da Agricultura, Teresa Cristina. Os Estados Unidos também querem ganhar fatias no fornecimento de soja, milho e carnes (bovina, suína e de frango) à China.

Com o inegável crescimento da agressão ao meio ambiente na Amazônia e outros biomas, e a pressão dos próprios empresários do agronegócio brasileiro que, embora praticamente não exporte soja, milho ou carne bovina oriunda de terras que já foram florestas na Amazônia (o rastreamento da produção pode comprovar isso, assim como os satélites), vem tendo seu “selo de qualidade” posto em dúvida, não restou ao governo recuar.

Para dar autoridade a uma nova atitude, o presidente Bolsonaro nomeou o vice-presidente da República, que já foi comandante militar da Amazônia e conhece a região, para coordenador Nacional do Comitê da Amazônia Legal. O Comitê abrange a área dos sete estados do Norte (Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima, Pará, Amapá e Tocantins) e ainda a parte norte do Mato Grosso e o noroeste do estado do Maranhão. Mato Grosso é o maior produtor de grãos do Brasil, mas a produção se assentou, sobretudo, em áreas do cerrado, como Goiás e parte do Mato Grosso do Sul.

A área conhecida como MaToPiBa já é a 4ª maior produtora de grãos do país, após Paraná e Rio Grande do Sul. Mas abrange o sul dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e mais o Noroeste da Bahia. Nada tem a ver com a Amazônia. O vice Hamilton Mourão tem inegável habilidade política, fruto de uma carreira militar que foi galgando todas as etapas e passou por muitas situações que exigem discussões preliminares e decisões ponderadas e colegiadas de alto comando. Mas é preciso reconhecer que ele foi jogado no meio de uma área devastada e assolada pelo fogo.

Mourão tem demonstrado trato adequado com os investidores internacionais e empresários brasileiros. Mas os estragos na imagem do Brasil feitos pelo governo Bolsonaro vão custar a ser recuperados. Numa entrevista franca na GloboNews, o vice-presidente justificou o comportamento meio irrefletido do presidente Jair Bolsonaro exatamente por ter ficado um tempo curto de sua vida profissional no Exército, deixando a farda como capitão reformado em 1988. Mourão lembrou que Bolsonaro atuou mais tempo como deputado federal (1991 a 2018) do que em ações de comando na tropa.

E ainda frisou que, pelo fato de ter limitado sua carreira à função de capitão – que chefia uma companhia, onde o físico fala mais alto - jamais participou de decisões colegiadas ou de Estado Maior, onde são feitas análises abrangentes e ponderados argumentos e planos variados. Seu lema “Missão dada é missão cumprida” vem daí, de quem apenas cumpre ordens, não as formula, como os generais (de Brigada, Divisão e de Exército) ou os coronéis. Não deixa de ser uma crítica velada à falta de competência do presidente eleito para assumir os destinos de um país tão complexo como o nosso.

A crise da pandemia ainda não levou o presidente a fazer um “mea culpa” de tantas atitudes equivocadas – a começar pelo negacionismo ao isolamento (que desmobilizou parte da população e acabou por prolongar os efeitos da doença e estender o tempo de retorno das atividades produtivas. O máximo que se ouviu até agora - após ter constatado “in loco” que a “gripezinha” não é tão simples e que a “cura milagrosa” da cloroquina não é o “tiro e queda” que propagava (embora diga que continue tomando cloroquina e azitromicina, antibiótico poderoso e mais eficaz) - foi a declaração, na mesma “live”, que o remédio não garante a cura e vai parar de recomendá-lo.

Cabe lembrar que por sua insistência na cloroquina (álibi para evitar o fechamento de atividades econômicas, “pois havia uma cura para a gripezinha”), ordenou aos laboratórios do Exército e do Estado que produzissem milhões de comprimidos (condenados pela OMS e pela FDA americana) e acabou por demitir dois médicos ministros da Saúde que se negaram a avalizar o protocolo do SUS para o uso do enorme estoque no combate à Covid-19. Será que legislava em causa própria quando pediu à Advocacia Geral da União que elaborasse o decreto que isentava administradores públicos de crimes de responsabilidade durante a pandemia?

O governador de São Paulo, João Dória Jr, resumiu o sentimento da maioria dos brasileiros, inclusive aqueles que votaram em Bolsonaro porque não queriam a continuidade dos governos do PT, mas estão desgostosos com o resultado: “Nesses últimos dias, um presidente em quarentena e isolamento, o país vive um período de calma. Tomara que continue, desejo que ele se recupere, logicamente, que ele saia da quarentena, mas que tenha talvez por conta desta experiência a consciência de que o país precisa de paz, entendimento, harmonia. Os governadores desejam isso também. E o país espera isso de um presidente da República, que seja menos partidário, menos ligado a ideologias, controlado por um gabinete do ódio".

Infelizmente, na “live” semanal de quinta-feira, Bolsonaro parecia insensível ao próprio sofrimento. Voltou a criticar o isolamento determinado por prefeitos e governadores (a quem quer responsabilizar pelas 78 mil mortes), defendeu a política ambiental do governo e leogiou os ministros do Meio Ambiente e o interino da Saúde, general Eduardo Pazuello: “Salles fica, Pazuello fica, sem problema nenhum. São dois excepcionais ministros”, afirmou. Antes de Jorge Jesus mudar os parâmetros da relação entre técnicos e clubes, quando um dirigente dizia domingo, após uma derrota, que "o técnico está prestigiado", era certa sua queda até a terça-feira. Mas Bolsonaro voltou a falar da Covid-19: "Ninguém disse que não ia morrer, está morrendo gente, infelizmente, alguns acham que dava para diminuir o número de óbitos. Diminuir como? Devemos tomar cuidado com os mais velhos, mas, mais cedo ou mais tarde, esse idoso não está livre de ser contaminado pelo vírus. É a realidade", acrescentou.

Por sinal, Bolsonaro, embora com “o histórico de atleta” é um idoso de 65 anos e deveria usar máscaras, pois está na faixa de risco e não precisa arriscar os demais. A bicada que levou de uma ema dos jardins do Alvorada, foi um recado. Se resguarde, presidente. Penso mesmo que, para serem mais humildes, reis e presidentes deveriam ter galinhas D’Angola em volta dos palácios. Para baixar o excesso de voluntarismo, já acordariam sob um reflexivo som de “Tou fraco, tou fraco”...