Governabilidade

No balanço dos acontecimentos políticos mais recentes, que continuam se desenvolvendo sob um clima onde as primazias são medos e tensões, as inseguranças não conseguem esconder, como fato concreto, a evidência de que vamos caminhando, a passos largos, para a ingovernabilidade. O que, a se efetivar, estaria condenando o país a se tornar organismo doente e inviável. Devem ter sentido isso algumas vozes responsáveis, sendo ou não oficialmente autorizadas, mas que começaram a admitir e defender a necessidade de se introduzir uma cunha de diálogo no vasto campo dos conflitos que se instalaram e vêm prosperando no governo Bolsonaro e nos gabinetes que com ele conflitam. Da mesma forma, esses bem intencionados passaram a sentir que em eventual precipitação na ingovernabilidade os três poderes – os três e não apenas um - serão chamados a pagar um alto preço, em parcelas iguais e intransferíveis, na grave crise decorrente. E com as instituições arranhadas, claro. Quanto a isto, nunca é demais lembrar como foi acidentado e custoso nosso caminho para a volta às franquias democráticas, do que ainda não se aperceberam os manifestantes radicais, raça de gente que pensa com o fígado e desopila com o coração.

Ainda que pela via de vozes isoladas, alguns ministros, parlamentes e ex-presidentes confabulam, ostensivamente ou não, desejosos de sugerir os caminhos em que os ânimos não se tornem mais acidentados, além de onde já chegaram nos três ou quatro últimos meses. Estaremos então à véspera de diálogo produtivo, ainda que não seja possível a geral pacificação de todos os ressentimentos que tomaram assento nos gabinetes dos três poderes? Essa expectativa é a mesma entre os que têm identificado no presidente um comportamento mais recatado, menos provocador, embora dele ainda se deva esperar algo mais; por exemplo, desestimular as agressões dos apoiadores, que passaram a odiar o Supremo Tribunal e a classe política, sem enfocar pessoas, mas atirando sobre tudo e sobre todos. Fato é que o presidente passou uma semana um pouco menos agressivo. Para os primeiros sinais de atenuação teriam se empenhado os amigos influentes? Seriam eles os mesmos generais de quem algumas vezes já se cobrou essa tarefa?

Se tal aconselhamento de fato se deu, nas rodadas de mesas escolhidas, perde alguma expressão uma pesada ameaça que vinha se desenvolvendo: lançar sobre os ombros das Forças Armadas atribuições semelhantes ao poder moderador; até porque esse poder é essencialmente do Congresso Nacional, onde, além de residirem os propósitos políticos da nação, deputados e senadores são os agentes adequados para intermediar convivência, pelo menos respeitosa, entre o Executivo e o Judiciário. Sobre eles, sim, é que sempre pesa a responsabilidade dessa missão. Ali estão os representantes das diversas correntes do pensamento político, o que basta para definir seu papel nos momentos por que estamos passando. Não as Forças Armadas.

Para o Legislativo devem correr, urgentemente, os esforços moderadores, de sorte que os problemas não se agravem no processo eleitoral que se avizinha. Justifica-se a urgência, pois toda eleição é ingrediente fermentador de divergências. Neste particular, para ampliar preocupações, tanto no processo como no seu desfecho, é preciso considerar, como agravante, que nada tem sido mais sensível que o clima de hostilidades criado entre o presidente e os governadores de São Paulo e Rio de Janeiro, os dois maiores estados da Federação; e nem se relevou que são exatamente os dois estados em que mais sinistros são os números da comoção provocada pela tragédia que vive a saúde dos brasileiros.

Os problemas já seriam mais que suficientes para tirar o sono da população. Além dos espadachins nas retaliações entre o Palácio do Planalto e alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, acenderam-se muitos holofotes voltados para amigos dos filhos do presidente da República, acusados de estarem associados em ações ilícitas. Já disse certa vez, e cabe lembrar, que os tropeços dos governos, quando se deixam envolver por questões familiares, tendem a piorar o que já andava muito ruim. Nos anos 50 penumbras domésticas ensejaram a famosa “República do Galeão”, com desfecho de sangue. O Brasil teve de pagar uma conta altíssima.

Nas últimas horas surgiu uma luz tênue a indicar que os governantes têm como dialogar. Já é alguma coisa para o tempo de trevas.