Jornal do Brasil

Coisas da Política

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Saúde pública ou a economia?

Comportamento errático de Bolsonaro, na contramão da OMS, enfraquece medida de restrição à circulação de pessoas

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Após liderar a vitoriosa campanha das Forças de Coalizão, para expulsar, em fevereiro de 1991, as tropas de Saddam Hussein, que tinham invadido o Kuwait, fato que poderia tornar o Iraque o 4º produtor de petróleo do mundo, George Bush, pai, foi aclamado nas principais cidades americanas. Mas não entendeu por que, apesar da glória anterior, foi derrotado pelo ex-governador democrata do Arkansas, em novembro de 1992. Coube ao marqueteiro de Bill Clinton, James Carville, a explicação nua e crua: “foi a economia, estúpido” (em inglês, “stupid” pode ser também o mesmo que burro, ou bobo).

Apesar da rudeza, que, vez por outra, resvala para a estupidez, Jair Messias Bolsonaro não é bobo. Quando começaram os primeiros casos da pandemia do novo coronavírus (Covid-19) no começo de março, o presidente da República quis desqualificar a ameaça sanitária do vírus que já varria a Itália, tratando-a como “uma gripezinha”. Mais ou menos como desprezara o presidente Donald Trump. Envolvido com a reeleição em novembro deste ano, Trump teve de voltar atrás quando o desastre já estava em curso.

No Brasil, o objetivo de Bolsonaro era evitar que a crise, que já atingira setores da economia brasileira dependentes de componentes chineses, que não puderam ser exportados devido à quarentena adotada e boa parte da China, após o surto inicial em Wuhan, em janeiro, afetasse o desempenho do PIB. Uma recessão (que se desenhava timidamente no mapa) seria prejudicial a seus planos de reeleição em 2022.

Esquecendo o aqui e o agora, seu comportamento errático, indo na contramão das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que declarou a pandemia mundial em 11 de março, terminou por enfraquecer as medidas de restrição à circulação de pessoas tomadas por governadores e prefeitos das principais cidades brasileiras, e a própria orientação do então do seu então 1º ministro da Saúde, Henrique Mandetta. Pior, entrava em choque com as medidas tomadas pela sua área econômica.

Tão logo o Federal Reserve, o Banco Central dos EUA abriu, dia 15 de março, um domingo, sua caixa de ferramentas, jogando os juros lá em baixo e abrindo torneiras para socorrer bancos, empresas e estados e municípios, e bancos centrais de países do G-20 (o Brasil recebeu linha de crédito de US$ 60 bilhões), o nosso BC aprovou na segunda-feira, 16 de março, uma série de medidas para atender bancos e empresas, sobretudo para garantir o emprego.

A dificuldade foi mapear os milhões de invisíveis que operam na economia informal, sem carteira assinada e sem contribuição para o INSS que lhe pode garantir aposentadoria no futuro, para lhes dar um auxílio emergencial para que enfrentassem a retração das atividades durante o isolamento social. Sem ter equipamentos de respiração e de proteção dos profissionais de saúde, UTIs, equipes médicas lideradas por intensivistas, e sobretudo remédios ou vacinas à vista, os riscos de a propagação do vírus prolongar o isolamento e a recessão eram enormes. Mas a única arma disponível até então era o isolamento para dar tempo de o Sistema de Saúde se equipar em CTIs, equipes e materiais.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, queria um auxílio na faixa do Bolsa Família (cerca de R$ 200 mensais), por dois meses. O Congresso quis elevar para R$ 300 e até R$ 500, mensais, por três meses. Dando mostras de sua sagacidade política, Bolsonaro propôs R$ 600 por três meses. Aliviou muita gente. Inclusive mais de 70 mil recrutas e prestadores de serviços às Forças Armadas, que sacaram indevidamente mais de R$ 43 milhões. A 2ª parcela será paga a partir desta semana, mas uma parte dos 50 milhões que acorreram ao programa ainda não receberam a entrada, já que a Caixa Econômica Federal, gestora do programa, está com dificuldades para processar e depurar as contas, e passou praticamente duas semanas sem fazer lançamentos.

Quando Collor congelou a poupança e as aplicações acima de 50 mil cruzados novos, boa parte do sistema bancário brasileiro emperrou. E especialmente a CEF. Era assessor de Comunicação da Andima, entidade que congregava bancos, financeiras, corretoras e distribuidoras que operavam no open market (onde se dava o giro financeiro diário das aplicações em papéis públicos e privados em operações overnight, incluindo os títulos públicos que lastreavam a liquidez da caderneta de poupança da Caixa).

As TVs nos pressionavam com a “informação de que o mercado ia reabrir” dada por um jornal. Como sabíamos que com as duas moedas em circulação (os cruzados congelados e o cruzeiro, que foi recriado) seria impossível qualquer banco fazer a dupla contagem se tivesse ocupação de mais de 49% de seu CPU (o que era o caso de alguns bancos estaduais e sobretudo da CEF), tão cedo não haveria a volta dos negócios. Foram quase três semanas. Imagino que o banco dirigido por Pedro Guimarães está cortando um dobrado.

Atingido pela crise do Covid-19 depois que a Europa e os próprios Estados Unidos, que já entraram na curva descendente de novos contágios e novas mortes, estamos ainda em meio a ela. Com a 5ª população do mundo (211 milhões de habitantes) e um comportamento errático e descoordenado no isolamento entre a União, estados e municípios, o Brasil, já é o 6º país em contaminações (superados pelos EUA, Rússia, Reino Unido, Espanha e Itália) e também o 6º em mortes. Fora os EUA, todos inferiores em população e em descendente na pandemia, motivo da distensão do isolamento.

Vale situar o Brasil em termos populacionais e, em território, item em que supera a União Europeia. Guardadas as desconfianças quanto à veracidade dos números da Rússia, de Vladimir Putin, que, com 147 milhões de habitantes, diz ter feito 272 mil testagens e registrar 2.600 mortes, assim como os da China: 1.400 milhões de pessoas e pouco menos de 5 mil mortes, se o desastre que se avizinha em Mumbai não se espalhar para os 1.380 milhões de cidadãos da Índia, que tem menos de 2.800 baixas, ou se replicar na Indonésia (270 milhões de habitantes), na comparação com as curvas de contágio o Brasil tende a se aproximar dos 88 mil mortos dos Estados Unidos.

De acordo com gráficos publicados pelo “The New York Times”, o Brasil lidera a lista dos países em curva ascendente, seguido pelo México (137 milhões de habitantes), o Paquistão (que disputa conosco o posto de 5º país mais populoso) e tinha até ontem menos de 1 mil mortes, e Bangladesh (167 milhões de habitantes). Na América do Sul estão na ascendente a Colômbia e o Chile. No Peru, 2º mais infectado, a curva parece se estabilizar.

As projeções dos estragos econômicos do Covid-19 não são exclusivas do Brasil. Europa, Estados Unidos e Japão vai enfrentar séria recessão. Sobretudo neste 2º trimestre. Talvez China e Índia tenham algum crescimento, na previsão do Fundo Monetário Internacional, que estimou em 5,3% a queda do PIB brasileiro em 2020. Esta semana, o Ministério da Economia refez as previsões e projetou queda de 4,7% do PIB.

Como em 2019 houve modesto crescimento de 1,1% e a taxa 1,3% se repetiu em 2018 e 2017 (se os cálculos do ministério não forem ultrapassados pelos fatos, com o prolongamento dos estragos), o governo Bolsonaro tem a possibilidade de fechar a metade de seus quatro anos previstos com queda de 3,65% no PIB. Ou seja, voltaríamos aos tempos da mais violenta recessão anterior – no governo Dilma, quando o PIB caiu 3,55% em 2015 e novamente 3,3% em 2016, acumulando uma queda de quase 7%.

Os números são impressionantes em outra dimensão. A liberação do uso da hidroxicloroquina, pela qual o presidente derrubou dois ministros da Saúde que recusaram a recomendação frisando (tanto Mandetta quanto Nelson Teich) que a responsabilidade seria de cada médico em discussão com o paciente, já que havia restrições nos EUA e no Brasil aos efeitos colaterais, como aceleração cardíaca, no uso do medicamento - há muito aplicado no combate à ao lúpus, à artrite reumatoide e à malária (problema recorrente aos militares que servem na Amazônia, como fizeram o vice, Hamilton Mourão e o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno), pode ajudar.

E, graças a recente decreto presidencial pouco transparente sobre exclusão de ilicitude, pode eximir a responsabilidade do “Dr Jair Bolsonaro” quando “aviar a receita”. E lhe tirar – em suas lives – a responsabilidade por tão grande recessão, que pretende colocar nas costas de governadores e prefeitos que fizeram o isolamento. Mas não impedirá a queda brutal do PIB, o aumento do desemprego, o esgarçamento das finanças públicas e a crise social.

Como mostrou o balanço da Petrobras no 1º trimestre, quando teve prejuízo recorde de R$ 48,5 bilhões, devido ao tombo de 61,5% no preço em dólar do barril de petróleo e alta de 32% na cotação do dólar, o impacto em dólar é brutal. Segundo as contas do Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco, que estima queda de apenas 4% no PIB este ano, e está otimista de que o real se recupere ante o dólar e feche em R$ 4,90 (fechou a R$ 5,82 na sexta-feira), o PIB brasileiro (ou seja, a soma de bens e riquezas produzidas este ano) fecharia 2020 em apenas US$ 1.479 bilhões. Isso seria voltar a antes da crise financeira mundial de setembro de 2008. Em 2007, o PIB brasileiro alcançou US$ 1.397 bilhões. Em 2008, foi a US$ 1.696 bilhões.

Pior é em termos per capita. Como a população saltou de 184 milhões, em 2007, para 211 milhões em 2020, com mais 27 milhões de pessoas, a divisão do bolo em dólar pela população mostra empobrecimento ainda maior. A renda per capita de 2020 é estimada pelo Bradesco em apenas US$ 6.974. É como voltar a 2007 (US$ 5.886) ou a 2008 (US$ 7.348). Para o Itaú, que prevê queda de 4,5% do PIB e dólar a R$ 5,75, o tombo seria ainda mais violento: o PIB ficaria em US$ 1.317 bilhão (voltando a níveis de 2006) e o PIB per capita baixaria a US$ 6.220 (níveis de meados de 2007). Na realidade, medida em reais e com a imensa disparidade de renda, o desastre social é bem maior. E não seria a cloroquina, liberada amanhã ou há um mês, para “garantir” a vida dos que retornarem à vida quase normal, que livraria o país do desastre.