Jornal do Brasil

Coisas da Política

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Nada será como antes

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

De repente, uma pandemia virótica - o novo coronavírus (Covid-19), que já infectou 1 milhão e 200 mil pessoas e causou quase 70 mil mortes em 200 países - deixou o mundo todo com o coração na boca, quase isolado em casa. Os Estados Unidos, nação mais poderosa do Planeta há mais de sete décadas, curvou-se à sua impotência para evitar a contaminação de quase 300 mil cidadãos, com quase 8 mil mortos. Trilhões de dólares gastos em armamentos em sucessivas guerras ou intervenções militares, para garantir seu poder de polícia e sua hegemonia econômica nos quatro continentes, mares e céus da Terra, foram em vão contra um vírus letal e insidioso.

O pior é que a nação líder na divisão de tarefas da globalização (em movimento que foi seguido pelas nações europeias e o Japão e vizinhos asiáticos, sobretudo depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, e do fim da URSS, em 1991) tratou de transferir a tarefa manufatureira que exigia muita mão de obra para a China e países periféricos, onde os custos de produção são sabidamente baixos, por menores garantias trabalhistas. Com o comando das finanças, das patentes e dos serviços, o Tio Sam achava que ia manter sua hegemonia. Para tal mudou a ordem do comércio internacional, que vigorava desde a 2ª Guerra, regulada pelo GATT (que como a sigla em inglês dizia só cuidava dos acordos de comércio e tarifas sobre mercadorias).

Os fatos vinham contrariando a teoria. Tanto que Trump entrou em guerra comercial aberta com a China no ano passado e ignorou os termos de funcionamento da Organização Mundial de Comércio (OMC), criada em 1995, para regular também o espectro de serviços financeiros e atividades intelectuais, incluindo patentes, sendo seguida por 164 países. Parecia ter ganho a guerra com a China, um bom trunfo para a campanha de reeleição.

A crise do coronavírus jogou tudo para o ar e mostrou a absurda e negligente dependência de quase todas as nações do Ocidente (e até do Japão) à concentração da produção em massa de artigos manufatureiros (entre os quais ventiladores, máscaras, luvas, uniformes em TNT, toucas) na China e à produção de genéricos na Índia, que domina quase 70% da produção mundial de remédios e insumos da indústria químico-farmacêutica. A concentração na China é brutal ainda em aço, cimento, celulose, automóveis (26 milhões/ano, mais que EUA, Japão e Índia juntos) e eletroeletrônicos. Além de têxteis e as quinquilharias diversas do mundo plástico que ornam sua cozinha e seu automóvel. A produção de celulares e as linhas de montagem de automóveis pararam quando a China paralisou boa parte da produção em janeiro/fevereiro.

Atropelados pelos fatos, os assessores de Donald Trump mudaram o discurso e diante de um desastre endêmico que agora ameaça uma reeleição até janeiro tido como certa – e o que levava o presidente a desdenhar do surto surgido na China – o Tio Sam não se fez de rogado. Trump deixou os escrúpulos de lado, ignorou a colaboração humanitária com países aliados históricos e recentes e deslocou a força de sua esquadra aérea e do poder de compra do dólar, para, sob o comando do genro Jared Kushner, atropelar os pedidos de França, Espanha, Itália, Reino Unido, Canadá e Brasil, entre outros, que já tinham encomendas fechadas com a China. A bordo de uma força-tarefa de 23 aeronaves, o marido de Ivanka Trump, Kushner, que é filho de um corretor imobiliário de Nova Iorque, ignorou contratos e aplicou o princípio de quem dá mais leva. Além de cobrir as multas por inadimplemento, deixou a ética de lado, para atender à dupla missão de salvar vidas americanas e a candidatura do sogro, se dispondo a pagar três vezes o preço base dos chineses.

Salve-se quem puder. Quinta nação do mundo, com 211 milhões de habitantes, o Brasil, que teve desde a eleição de Jair Bolsonaro como presidente, em outubro, gestos seguidos de simpatia e até subserviência aos Estados Unidos, foi deixado de lado na hora da verdade. As projeções nos EUA indicavam risco de mais mortes no país do que em todas as guerras em que se envolveram as tropas americanas após a 2ª Guerra Mundial (onde 417 mil soldados perderam a vida). A situação é de vaca desconhecer bezerro. A China, com 1,4 bilhão de habitantes, e a Índia, com 1,3 bilhão tem quase sete vezes mais cidadãos que o Brasil. Os EUA têm 329 milhões, a Indonésia, 270 milhões. Em condições de normalidade, poderiam junto com os mercados da Turquia e países asiáticos, fornecerem máscaras e outros Equipamentos de Proteção Individual, vital para os médicos e paramédicos brasileiros expostos na linha de frente do combate ao vírus.

Para se ter ideia do erro da concentração mundial, no ano passado, a Índia exportou US$ 19 bilhões (20% do comércio mundial) em drogas de princípios químico-farmacêuticos para mais de 200 nações. Os EUA compram 24% da demanda por genéricos na Índia. No Reino Unido a Índia responde por um quarto. No Brasil, que conseguiu quebrar patentes de princípios de genéricos no governo FHC, numa luta do ex-ministro da Saúde, José Serra, que foi até a OMC (os grandes laboratórios multinacionais queriam exercer o monopólio das patentes de suas marcas, com princípios universais), a dependência passa de 40%. Isso também acontece no caso do fosfato de cloroquina e do sulfato de hidroxicloroquina, ambos usados no tratamento de lúpus, malária e artrite reumatoide, mas que podem ter efeito em cinco dias, com dosagem controlada em pacientes internados com Covid-19.

Voltando atrás no plano engendrado pelo então secretário de Estado americano, Henry Kissinger&cia, nos anos 70, vê-se que algo fugiu ao cálculo. No longínquo 1971, quando o ultra direitista republicano Richard Nixon foi bater às portas de Pequim (numa capitulação antecipada na Guerra contra o Vietnã, apoiado pelo regime comunista chinês – convidado pelo primeiro-ministro Chu en Lai, e recebido por Mao Tsé-Tung, o líder da revolução chinesa, que começava a sair de cena) o presidente americano mandou o recado, o Tio Sam aceitava perder o Vietnã [em janeiro de 1973, veio o acordo de cessar fogo], mas veria com bons olhos a integração da gigantesca (então com 841 milhões de habitantes), mas fechada e pobre China (renda per capita abaixo de US$ 120) à economia de mercado.

E o que muda no Brasil?

Vocês estão lembrados qual era o mote de Paulo Guedes à frente do ministério da Economia? Com reformas liberalizantes, a partir da Reforma da Previdência, para reduzir as desigualdades nos regimes de aposentadorias para os trabalhadores em geral e os servidores públicos e militares, o país economizaria R$ 1,3 trilhão em até 10 anos (contando com reforma complementar nos estados e municípios). Essa segunda parte, de uns R$ 300 bilhões, não saiu do papel. Com os gastos exigidos pelo combate à Covid-19 e os efeitos na violenta freada da economia em âmbito mundial, metade da economia prevista em 10 anos será consumida em seis meses. Vale lembrar que no caso de uma demissão em massa ou redução dos salários dos contribuintes do INSS, se a recuperação demorar, o rombo vai aumentar, em vez de baixar ano a ano. Planos foram para o espaço, como na Petrobras, maior empresa do país. No mundo do petróleo, com o preço do barril no chão, não há parâmetros para investimentos e vendas de ativos (como refinarias) ou para rodadas de campos de petróleo (as de 2020 foram suspensas esta semana). Isso se aplica a outras áreas. Novas questões em saúde e saneamento e geração de empregos em massa ganham prioridade.

A propósito, por que ficou esquecida a proposta de corte dos gastos com o funcionalismo público (deputados e senadores propuseram cortar seus vencimentos em até 30%, como fizeram governadores e prefeitos da Itália)? Se os cortes maiores serão na carne do setor privado (patrões e sobretudo empregados), o peso do Estado vai ficar maior sobre a sociedade, com vencimentos exagerados para quem está operando a zero a ou menos de 50% de sua capacidade. O sacrifício tem de se estender ao funcionalismo do Executivo, Legislativo e Judiciário. A salvo só médicos e paramédicos e demais envolvidos na batalha direta ao coronavírus.

O Departamento Econômico do Bradesco publicou uma boa análise da situação econômica em todo o mundo, para justificar porque “os governos mundo afora usam todas as ferramentas à disposição para apoiar os sistemas de saúde e mitigar os efeitos econômicos e sociais dessa crise”. O banco calcula os gastos fiscais em mais de US$ 5 trilhões e ressalta não sido “uma crise causada por excesso de alavancagem do sistema financeiro global, como em 2008, ou por uma bolha de ativos, como em 2001, ou ainda por erros de gestão ou de excesso de endividamento de famílias e empresas”.

Assim, “em uma situação como essas, não há outra alternativa a não ser os governos atuarem como “emprestadores de última instância”. O custo fiscal, e mesmo os arranjos de política monetária, são justificáveis nesse momento em que há uma súbita paralisação da atividade econômica, em escala global, prossegue. Para o Depec Bradesco “não há como o setor privado “salvar” o sistema econômico nessas circunstâncias, ainda que possa e deva ser protagonista em muitas ações. As eventuais consequências fiscais e monetárias dessa crise, que podem ser pequenas se as políticas forem bem desenhadas, terão que ser tratadas depois”.

Nas projeções do banco, à exceção da China, cuja taxa de crescimento do PIB deve encolher pelo menos 50% este ano, quem tinha crescimento à frente terá recessão. Nos EUA, queda de, pelo menos, 1,7%, contra aumento anterior de 2,5%. No Brasil, haveria queda de mais de 1%, frente aos 2% positivos esperados antes da Covid-19. Diante da recessão, que muitos já projetam superior a 2%, o Bradesco acredita que a taxa básica de juros (Selic), atualmente em 3,75% ao ano, cairá para 3% em 2020. Vamos ver se o 2º banco maior banco privado do país (assim como os demais) abram os cofres para socorrer as empresas e as famílias (com as facilidades e recursos liberados pelo Banco Central) e deem crédito a juros mais baixos e compatíveis com a nova realidade. Menos pode ser mais.