Jornal do Brasil

Coisas da Política

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Incerta morte severina

Jornal do Brasil WILSON CID, wilson.cid@hotmail.com

Não seria maior esforço concluir, quando se promove a análise das raízes da violência urbana no estado fluminense, em particular na capital, que uma das dificuldades está na profusão de projetos e estudos, alguns conflitantes entre si, outros pecando pela carência de avaliações técnicas ou estratégicas. Dois anos atrás, quando o governo Michel Temer experimentou a intervenção federal no setor de segurança, Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa já andavam dividindo meia centena de proposituras, das quais hoje o máximo que se pode extrair é que o Rio conseguiu desacelerar, em alguns pontos, os índices de morte violenta. Mas o problema persiste, sob suficiente tensão para deixar os cariocas em estado de perigo permanente. Conclui-se, então, que aqueles muitos planos que foram propostos deviam passar por uma nova seleção, sob o filtro da objetividade, fundindo objetivos, ao mesmo tempo em que propusessem certo ordenamento das iniciativas. Porque é certo que as tentativas de pacificar a cidade têm levado, quando muito, a resultados parciais e imprecisos. Nada diferente do que se tem visto.

Não há unanimidade entre os especialistas que têm cuidado da matéria, mas parece estar claro que alguma unificação das políticas dispersas, que hoje variam desde o desejo de se culpar a tolerante maioridade dos criminosos até conflitos no trânsito, assaltos com morte, feminicídio e disputas entre gangues, poderia essa unificação indicar um norte capaz de revelar que a sinistra origem de tudo está no tráfico de armas. Elas entram no Brasil por vias de fronteiras extensas e vulneráveis; e, de fato, não há como mantê-las sob permanente vigilância, mas os estados, que não têm fronteiras, mas apenas divisas, podem construir resultados proveitosos para conter esse crime. Como também são eles que podem identificar, condenar e expulsar maus policiais que se encarregam de suprir o crime organizado com armamentos, que, via de regra, são mais modernos e eficientes que aqueles disponíveis nos quartéis.

Não seria despropósito centrar neste ponto a primeira entre as prioridades na linha da segurança mínima desejável pela população. Eis o grande objetivo: todos os esforços possíveis e cabíveis para impedir que os arsenais da morte continuem chegando aonde não deviam chegar, coisa que os numerosos projetos que falam em segurança não tratam com deseja prioridade.

Para sustentar a preocupação com a gigantesca fartura de armas que suprem os criminosos na cidade seria mais que suficiente lembrar as balas perdidas, essas que frequentam e riscam a paisagem do Rio de Janeiro; mensageiras traiçoeiras que gostam de dar preferência, entre todos os inocentes, às crianças indefesas. Se surgem e matam com tamanha facilidade, é porque são numerosíssimas e descontroladas, além de se darem ao luxo do anonimato, matar à revelia do destino das pessoas, garantidas com a impunidade. Tão disponíveis, que podem sair e viajar sem destino. Não há negar: está aí a mais terrível consequência da chegada impune de metralhadoras e revólveres a serviço do crime. Foram eles que em 2018 anteciparam a morte de 225 cidadãos fluminenses. No ano passado houve dia de outubro em que seis tombaram nos subúrbios cariocas, sem saberem de onde vieram nem o roteiro dessas assassinas.

A grande cidade, que prosa e verso não cansam de exaltar, acaba fazendo lembrar o drama do retirante nordestino imortalizado nos versos de João Cabral, em Morte e Vida Severina. “Por que o defunto que carregam, irmão das almas”, indagou. “Sempre há uma bala voando, desocupada”, disseram-lhe. Terríveis mensageiras, tanto no sertão agreste e distante como aqui no céu deste nosso Rio severino.