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Coisas da Política

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A carne e os riscos da globalização

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Após uma escalada de 32,40% no último trimestre do ano passado, o preço da carne bovina se tornou o vilão da inflação que fechou o mês de dezembro com surpreendente alta de 1,15%. Só nos meses de novembro e dezembro, a alta da carne chegou aos 27,61%. Com isso, o item Alimentação e Bebidas, no qual a carne tem o maior peso nas despesas familiares, acumulou alta de 6,37% no ano passado e fez o IPCA, o indicador oficial da inflação, atingir 4,31% acima do centro da meta do Banco Central, fixado em 4,25%.

Numa prova de que o movimento pode ter sido uma combinação de especulação em cima da oportunidade aberta pela pressão compradora da China, cujo rebanho suíno, que era responsável por 47% do abastecimento de carne do país, foi dizimado em quase 40% pelo surto da gripe suína africana, os departamentos econômicos do Itaú e do Bradesco apostam que o movimento altista não vai se sustentar e que as taxas de inflação voltam a ficar abaixo de 0,30% nos primeiros três meses de 2020.

O Itaú situou a projeção preliminar para o IPCA de janeiro em 0,26%. Como a taxa subiu 0,32% em janeiro de 2019, se a previsão for confirmada a taxa do IPCA em 12 meses desce de 4,31% para 4,24%. O Banco espera igualmente 0,26% para fevereiro e 0,28% para o IPCA de março. Como as taxas foram de 0,43% e 0,75%, respectivamente, nos mesmos meses de 2019, isso significa que se as previsões estiverem certas, a taxa anualizada do IPCA ficará novamente abaixo de 3,60% em março: em 3,58%, para ser mais preciso.

Se os departamentos econômicos dos dois maiores bancos privados estiverem certos, a alta da carne no último trimestre do ano foi um surto que está passando. De fato, com o regime de chuvas devolvendo vigor às pastagens, o gado está engordando rapidamente e o mercado voltou a reequilibrar-se entre a oferta (que aumentou) e a procura (que arrefeceu). No mercado doméstico, a alta de preços comprimiu o consumo. De outra parte, com o fim da temporada, acabaram os churrascos semanais dos rubro-negros, que ajudavam, junto com a pressão compradora da China, a sustentar as manobras altistas.

Brincadeira à parte, as importações chinesas de carne bovina aumentaram 80% no ano passado, atingindo UD$ 2,677 bilhões, correspondendo a 41,24% das vendas totais (27% em 2018). Somando aos 11% absorvidos por Hong Kong, os chineses levaram metade da carne bovina brasileira em 2019. Na falta da carne de porco, os chineses compraram mais 53,7% de carne de frango, liderando a fila dos compradores com 19,41% das exportações. 

Nunca o famoso ditado chinês de que a crise é sinônimo de oportunidade caiu tão bem. No caso brasileiro, o impacto da peste suína africana reduziu as importações de soja em grão e triturada pela China de US$ 27,2 bilhões para US$ 20,5 bilhões. Uma perda de US$ 6,7 bilhões não compensada pelo incremento das vendas de carnes (bovina, de frango e suína).

Mas pode estar surgindo a oportunidade de o Brasil mudar um pouco o foco na venda de produtos agrícolas primários. O ciclo de criação de suínos, do nascimento até o abate dura 18 meses. No caso do gado bovino, o ciclo da gravidez até o abate dura pelo menos 30 meses. A carne mais fácil de ser produzida é a de frango. Em 40/45 dias um pinto alimentado com farelo de soja e de milho, está pronto para ser abatido. Com um ganho enorme em termos de valor agregado, incorporando mão de obra e riqueza no processo de abate e embalagem para exportação.

Deixar de ser mero exportador de milho e soja para se tornar ainda mais competitivo no mercado de proteína animal, onde o Brasil lidera a venda de carne de boi e de frango, à frente dos Estados Unidos, é uma oportunidade que o país deve agarrar com unhas e dentes. Para isso temos de manter seriedade e profissionalismo na cadeia da produção ao abate. Episódios como os identificados pela operação “Carne Fraca” quase arranharam a reputação brasileira.

A carência de proteína nos mercados globais, a começar pela China, mantém o apetite em relação ao mercado brasileiro. Mas é preciso não perder espaço após o anúncio do acordo comercial entre Estados Unidos e China. Se as vendas americanas forem reabertas para a China, será um desafio para o Brasil enfrentar a disposição de Trump & cia em ganhar terreno nessa área.

O risco do mercado doméstico de carne é um encarecimento geral dos cortes. No ano que passou, o tipo de carne que mais subiu foi a capa de filé (mais de 50%). Todo cuidado é pouco com os especuladores. Um boicote não seria mal para esfriar a ganância.

Os departamentos econômicos acreditam que o surto de alta da carne vai passar, mas o que dizer para o trabalhador que teve o salário mínimo (reajustado pela variação do Índice Nacional dos Preços ao Consumidor – INPC, que mede a cesta básica de consumo das famílias até cinco salários mínimos de renda) subavaliado? O reajuste de R$ 998 para R$ 1.039 levou em conta a projeção de que o INPC subiria 4,1% em 2019. O INPC subiu 4,38%. Ou seja, o correto seria o mínimo subir para R$ 1.042,71. O Congresso e o próprio presidente Jair Bolsonaro podem resolver isso.

Pode parecer pouco, mas R$ 3,71 ajudam a comprar alguma coisa a mais no fim do mês. A escalada da carne lembra a crítica da música Saco de Feijão, com letra de Francisco Santana e imortalizada na voz de Beth Carvalho, em 1977. O país vivia o segundo ano de uma crise de abastecimento de produtos básicos, como feijão, farinha de mandioca e milho, em consequência da erradicação de cafezais no Paraná e em São Paulo, após as geadas de 1975. E a letra falava, ainda na nostalgia do tempo do milréis, quando com um tostão a pessoa saía da venda com um saco de feijão; “depois que inventaram o tal cruzeiro eu saio com um embrulhinho na mão e deixo um saco de dinheiro”.

Hoje, deixa-se um saco de reais para comprar meio quilo de carne moída de 2ª.