Publicidade

Uma trégua de 10 dias

Quer uma boa notícia? O ano de 2020 vai ser mais longo (é bissexto e terá um dia a mais), mas não será t&atild...

REUTERS/Adriano Machado
Credit...REUTERS/Adriano Machado

Quer uma boa notícia? O ano de 2020 vai ser mais longo (é bissexto e terá um dia a mais), mas não será tão duro quanto 2019, do ponto de vista da economia e do emprego. Todas as projeções indicam que, apesar da disparada recente da carne, a inflação vai girar em torno de 3,4% a 3,6% (projeções do Santander e Bradesco, respectivamente, ficando o Itaú em 3,5%) e o Produto Interno Bruto (vulgo PIB) deve crescer de 2,2% (Itaú) a 2,5% (Bradesco), com o Santander apostando em 2,3%.

Com a inflação comportada, e a esperada desaceleração da economia no 1º trimestre, após passar o impulso nas vendas do comércio pela liberação do FGTS, os três bancos acreditam que haverá espaço para novo corte (desta vez de 0,25 ponto percentual) na taxa básica de juros (Selic), para 4,25% pelo Copom em fevereiro. Para o Bradesco, o movimento para aí; para Santander e Itaú os fatores estruturais ainda indicam espaço para um corte adicional que derrubaria a Selic a 4% ao ano em março, na menor taxa histórica do país.

A questão central que vai determinar o ritmo do corte dos juros bancários (perdão, leitor, infelizmente é só dos juros básicos, o piso de captação dos bancos, ou o que eles pagam a nós aplicadores; descontando as taxas de administração, as aplicações financeiras perdem para a inflação neste país que já foi a pátria dos rentistas) é a evolução do emprego/desemprego. Infelizmente, os juros bancários continuaram escorchantes e subiram em novembro, segundo as últimas estatísticas do Banco Central. Uma vergonha que resiste a vários governos: FHC, PT, Temer e agora Bolsonaro.

Quando o Comitê de Política Monetária, vulgo Copom, cita a alta ociosidade da economia como um dos fatores a pedir “juros reais estimulativos”, está considerando a ociosidade de mais de 25% no comércio, nos serviços e na indústria, mas principalmente os mais de 40% de ociosidade na mão de obra brasileira, considerando os 11,9 milhões de desempregados, os 4,7 milhões de desalentados (que desistiram de procurar emprego) e os 26,6 milhões cuja capacidade laboral está subaproveitada.

Os respiros no fim do ano, com a taxa do desemprego no trimestre setembro-outubro-novembro de 2019 caindo a 11,2%, contra 11,8% no mesmo período de 2018, e a criação de empregos formais pela primeira vez desde 2017, deram certo ânimo de que a taxa de desemprego possa fechar 2020 na casa de “um dígito”, como estima o secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Rogério Marinho. O Departamento Econômico do Santander prevê que o índice de desemprego do IBGE feche dezembro de 2020 em 9,9%. Itaú e Bradesco ainda preveem a taxa na casa dos dois dígitos.

Mas vale a observação do Depec do Santander, que resume a situação da economia brasileira: “A reforma da previdência foi finalmente aprovada e os dados econômicos começaram a melhorar de forma gradual: o consumo surpreendeu para cima, o investimento mostrou algum sinal de vida, a geração de empregos com carteira assinada acelerou e os juros continuaram caindo, formando um certo círculo virtuoso de notícias que contou mais recentemente com revisões positivas das expectativas de crescimento (as primeiras em muito tempo) e melhora da perspectiva da nota de crédito soberano pela agência S&P. De forma geral, o empresariado acredita que 2020 deve ser um ano de crescimento”. O que pode melhorar a propensão para novos investimentos.

O governo avançou em muitas reformas. Algumas inacabadas, como a tributária e a administrativa; outras já em vigor, como o PL da Liberdade Econômica, a Lei do Gás e do Saneamento, o novo marco das agências reguladoras. O Banco Central de Roberto Campos Neto promete avançar na agenda de modernização do sistema financeiro, que tende a expor o cartel dos cinco/seis grandes à concorrência das fintechs e cooperativas.

Mas há enormes desafios na economia mundial, que se refletem no campo doméstico. Para começar, o governo Bolsonaro se comprometeu a implementar o Acordo Mercosul-EU, com a redução unilateral da Tarifa Externa Comum e com o fechamento de novos acordos comerciais. Isso significa baixar o sarrafo da proteção tarifária à indústria nacional. Como a indústria está operando com alta capacidade ociosa (e a crise da vizinha Argentina tirou mercado da indústria automobilística e da cadeia de fornecedores), o desafio de baixar tarifas sem redução interna de juros e carga tributária pode ser fatal. Por isso, o entendimento entre Brasil e Argentina é vital para as indústrias dos dois lados da fronteira.

E não se pode esquecer o fator Trump. As pretensões do presidente americano à reeleição em fins de 2020 não devem ser barradas pelo processo de impeachment instaurado na Câmara, pois o partido republicano conta com maioria folgada no Senado. Mas se Trump sangrar em praça pública, pode perder pontos nas eleições de 3 de novembro. Por ora, ele tem vários trunfos, a começar pela costura do acordo comercial que levou a China a refrear seu ímpeto e a baixar mais a rede de proteção à entrada de produtos americanos. Sobretudo agrícolas, o que pode agradar os redutos conservadores republicanos nos estados agrícolas produtores de soja, milho e carne. Isso é má notícia para o Brasil, que lidera há alguns anos as exportações mundiais de soja, carne de frango e bovina para a China e o resto do mundo.

A questão do controle das telecomunicações no espaço, através da tecnologia 5G, continua em aberto. E é bom o Brasil não dar uma de marisco nesta área. Na briga entre o mar e o rochedo, o marisco sempre leva a pior. A tecnologia da Huawey parece ser mais favorável ao Brasil do que as de origem americana. No campo das telecomunicações, o que veio do Sudeste asiático facilitou muito mais a vida dos consumidores e empresas brasileiras do que aparelhos e tecnologias made in USA (incluindo Apple e Microsoft).

Mas a principal boa notícia deste fim de ano é que até o dia 5 estaremos livres das diatribes diárias do presidente Bolsonaro, à saída e à volta ao Palácio da Alvorada. Descansando com a família, sem a mulher Michelle, que vai fazer uma plástica, na Base Naval de Aratu, Bolsonaro não será diariamente indagado pela imprensa sobre atos contraditórios (quantas medidas ou nomeações não foram revogadas poucas horas depois de anunciadas?). Não lhe vão cobrar notícias sobre Queiroz e os filhos. Esperamos que os filhos também desacelerem nas redes sociais. Imaginar que Bolsonaro vá abandonar seus tuítes diários, é ilusão. Pelo menos, que não nos brinde com publicações de mau gosto, como fez no recesso do Carnaval.

A parada geral do Executivo, do Judiciário e do Legislativo há de fazer bem a todos. Que todos venham com a cabeça mais leve, mais disposta ao diálogo que ao confronto para 2020. Já será um bom começo.