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Grande Rio, o caldeirão do desemprego e do caos

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Futebol é o ópio do povo. Escrevo a coluna de véspera. E, como diria o comentarista de arbitragem Mário Vianna, “só há duas aves que morrem de véspera: o peru e o porco (sic)”. Lembro bem quando o saudoso João Saldanha não se conteve com a estupidez com "dois ennes". Entretanto, vamos convir que uma vitória do Flamengo sobre os argentinos do River Plate no sábado pode não resolver a imensa crise do desemprego e da inadimplência de mais de 60 milhões de brasileiros, mas traria alegria a um quarto da nação brasileira – aos 45/50 milhões de rubro-negros declarados, a grande parte concentrada no Estado do Rio, mais precisamente no Grande Rio. Espero que o meu recente amigo, Júlio Cesar, não descarregue bombas e morteiros sobre o vizinho vascaíno, seu Dadá, em Campo Grande... Futebol é para celebrar.

As estatísticas do Caged registraram em outubro a criação 70.852 postos de trabalho com carteira assinada em todo o Brasil. Foi um resultado animador, que reforça a lenta, mas persistente, retomada da economia no que ela tem de melhor: a criação de empregos com carteira. O chamado emprego formal, com direito à previdência social, FGTS e demais direitos trabalhistas. Numa economia com mais de 12,5 milhões de desempregados e uns 25 milhões que não conseguem oferecer plenamente sua capacidade de trabalho e, por isso, têm a renda comprimida, qualquer alento é positivo. Ainda que a recuperação do emprego tenha vindo em atividades por conta própria, sem direito à proteção trabalhista e futuras aposentadorias pelo INSS.

No acumulado do ano já foram geradas até outubro 841.589 vagas com carteira assinada. De janeiro a outubro de 2018 foram criados 790 mil empregos formais, mas o ano fechou com 529 mil empregos formais criados. É que em novembro e dezembro há sempre redução sazonal do contingente da mão de obra, sobretudo nos setores de comércio e serviços, os grandes empregadores do país, com a demissão de pessoal mais velho ou de custos mais elevados e a substituição por trabalhadores mais jovens e em atividades temporárias (que permitem a demissão antes de 90 dias sem os encargos e multas da CLT). Por isso, o Departamento Econômico do Bradesco está estimando que este ano sejam criadas efetivamente 420 mil vagas com carteira assinada. Já a previsão para 2020 é quase o dobro: 800 mil vagas.

Os últimos indicadores da economia, sobretudo nos setores de comércio e serviços (responsável por mais de 70% do Produto Interno Bruto), apontam que a taxa de crescimento da economia já dobrou. Se a velocidade do PIB apontava para uma taxa final de 0,9% a 1% de crescimento para 2019, para 2020 os radares já apontam para mais de 2,5%.

Em algumas regiões do país a situação já é mais confortável. Em outubro, São Paulo, o estado mais populoso, com cerca de 45 milhões de habitantes, gerou 14.026 vagas com carteira assinada, acumulando 252.740 vagas no ano. Minas Gerais, o 2º mais populoso, com 21 milhões de habitantes, gerou 13.466 vagas em outubro e acumula a criação de 93.592 vagas no ano. Belo Horizonte teve a criação de 26.152 vagas com carteira em 2019.

Na Bahia, 4º estado mais populoso (14 milhões de habitantes), após o Rio de Janeiro, o mês de outubro fraquejou, com perda de 39 vagas, mas o saldo é de 28.419 vagas até outubro. No Paraná, 5º estado mais populoso, com 11,464 milhões de habitantes (pouco acima dos 11,397 milhões de gaúchos, segundo o IBGE), foram criadas 6.689 vagas em outubro e 58.170 no ano. No RS foram 4.763 vagas em outubro e 16.544 no ano. No Ceará, o 9º mais populoso, com 9,1 milhões, contra 9,5 milhões de Pernambuco, surgiram 3.099 vagas em outubro e 6.723 nos 10 primeiros meses do ano.

E onde fica o Estado do Rio de Janeiro, o 3º estado da federação em população, com cerca de 17,3 milhões de habitantes, segundo as projeções do IBGE?

Mal, muito mal. Em outubro o RJ liderou as perdas de empregos com carteira assinada, num montante de 10.075 vagas, acumulando perda de 8.597 vagas de janeiro a outubro. E a tragédia do fechamento de vagas com carteira assinada está concentrada na capital, o município do Rio de Janeiro, com cerca de 6,7 milhões de habitantes, a antiga capital federal, que virou Estado da Guanabara, após a mudança da capital federal para Brasília, em 21 de abril de 1960, e nos municípios da Baixada Fluminense, incluindo Niterói (a antiga capital do Estado do Rio de Janeiro. Prova de que a fusão de 1975 não funcionou. Não conseguiu dinamizar a região metropolitana do Grande Rio, onde vivem 14 milhões dos 17,3 milhões de fluminenses.

Como escrevo antes do jogo em Lima, posso brincar que os fluminenses seriam mais felizes se fossem rubro-negros. Pelo menos não correm o risco de cair para a 2ª divisão. Mas a situação do Grande Rio é pior do que a do Avaí e da Chapecoense, já rebaixados. Tome-se como base de comparação Santa Catarina, que tem metade da população do Grande Rio (7,197 milhões de habitantes). Em outubro, o estado barriga-verde gerou 7.705 empregos de carteira assinada e acumula 63.858 no ano. Paraupebas (PA), uma das bases de operação do Projeto Carajás, da Vale, criou mais de 6 mil vagas este ano.

E como ficou a Baixada Fluminense? A capital Rio de Janeiro, maior polo econômico do estado e da região, fechou 9.795 vagas em outubro (efeito fim do Rock in Rio, que gerou saldo positivo em setembro?) e 8.457 vagas de janeiro a outubro. Nova Iguaçu fechou 3.258 vagas no ano. São Gonçalo (o 2º município mais populoso, com mais de 1,1 milhão de habitantes) perdeu 615 vagas no ano. Niterói teve perda de 946 vagas; Duque de Caxias, o 3º município mais populoso, com cerca 800 mil habitantes, perdeu 113 vagas no ano. Somando Belford Roxo e demais municípios, o fechamento de vagas no Grande Rio beira os 15 mil empregos formais.

Então onde houve criação de empregos, para reduzir a pouco mais da metade o número de vagas? O maior polo de desenvolvimento do Rio de Janeiro, com a criação de 3025 vagas, foi o município de São João da Barra, no norte fluminense, à frente dos 2.927 empregos gerados em Volta Redonda, dos 2.307 empregos criados em Macaé (ainda a capital do petróleo no RJ), dos 1.786 empregos em Itaboraí e dos 1,649 empregos em Maricá, no litoral, próximo a Niterói e São Gonçalo.

Para quem não entende o destaque de São João da Barra, explico: lá está localizado o mais bem-sucedido projeto de Eike Batista: o Porto do Açu. Na crise gerada pela quebra da OGX, Eike teve de passar adiante o porto do Açu, que vai de vento em popa, abrigando várias empresas e dando início a obras de duas termelétricas para aproveitar o gás natural das bacias de Campos e de Santos. Antes das descobertas do pré-sal, que se revelaram gigantescas na Bacia de Santos (parte ainda no RJ), Macaé era a base das atividades e os estaleiros do Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo e Angra dos Reis absorviam as encomendas. Foram tantos superfaturamentos descobertos na operação Lava-Jato (aplicados também nos estaleiros de Pernambuco, Bahia, e Rio Grande do Sul) que o principal punido foi o Estado do Rio, base da indústria naval brasileira. As encomendas da Petrobras e demais petroleiras migraram para a Ásia, levando junto os empregos.

O malogro do projeto do Comperj, em Itaboraí - que seria um complexo petroquímico antes da crise financeira mundial de 2008 reduzi-lo a uma refinaria (congelada) e a uma central de gás natural, em retomada, e para o qual foi construído o Arco Metropolitano, que viria a escoar a produção das dezenas de empresas petroquímicas de 2ª e 3ª gerações que se instalariam em seu eixo - ajuda a explicar a frustração geral dos rubro-negros, fluminenses, botafoguenses, vascaínos e de pessoas alheias ao futebol e que não encontram ocupação decente, engrossando a multidão de camelôs ou dos mais de 120 mil motoristas de aplicativos do GR.

A frustração dos moradores do Grande Rio é maior ainda depois que as rusgas entre o governador Wilson Witzel e o presidente Jair Bolsonaro (eleitos com, respectivamente, cerca de 60% e 67% dos votos dos eleitores do RJ), podem adiar, mais uma vez, a adoção de medidas conjuntas, com apoio da União, para revitalizar uma das maiores concentrações urbanas do país. Pena. Política é a arte da negociação. Do contrário sofre o cidadão-contribuinte. Até Collor se entendeu com Brizola e apoiou a conclusão da Linha Vermelha. Sem emprego e dinamismo nos setores públicos e privados, o caminho está facilitado às atividades marginais, ao crime e à violência. Não adianta enxugar gelo.