Jornal do Brasil

Coisas da Política

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Em Terras de Janot, quem mata quem?

Jornal do Brasil PAULO RABELLO DE CASTRO *, rabellodecastro@gmail.com

Na mesma semana em que o ex-xerife da República confessava seu quase crime de premeditação de juriscídio, tombava a menina Ágata, assassinada por uma arma comprada com recursos de impostos cobrados de todos os cariocas, dinheiro suado que sai dos bolsos de cada morador de favela no Rio de Janeiro, quando compramos um quilo de feijão para cozinhar em casa.

O Deus dos ricos, cuja mão forte segurou o ímpeto homicida de Janot - segundo o mesmo relata -, não foi ouvido pelos policiais que atiravam sem juízo em local de grande circulação de trabalhadores e suas famílias.

Em Terras de Janot, o Deus dos pobres terá se escondido de nós, pagadores de impostos na Janolandia. O Deus dos pobres se recolhe por vergonha do mal persistente que nem Ele, em sua infinita bondade, consegue mais coibir. A carnificina continua, não poupando vítimas inocentes e ceifando vidas incontáveis entre os policiais no cumprimento de seu dever tão mal definido e acatado. Em Terras de Janot mata-se sob atestado de pobreza, sob declaração de negritude e sob percepção de abandono social. Em Terras de Janot, a violência mata o Direito.

Mas não só. Pergunta bem o carioca de coração, Rodrigo Maia, do alto de suas profundas imunidades, quem terá coragem de investir no Brasil depois das confissões janótidas. Num rasgo de otimismo, arriscaria dizer que a coragem do investidor continua lá, embora tenham matado um pouco mais a motivação de investir ou mesmo de ficar em Terras de Janot. Aqui morre, todos os dias, um pedaço daquilo que o líder Juscelino Kubitschek chamava de principal ingrediente do progresso de um País, a esperança.

Em Terras de Janot, a realidade mata a esperança todos os dias. E esta, teimosa, rebrota do frio da madrugada, apenas para morrer de novo, nos pequenos braços de cada Ágata que parte para o céu dos justos. Por aqui ficamos nós, figurantes passivos, omissos ou clamantes na ópera do caos de nossa pobre cidade e de nosso sofrido País. Somos assistentes de muitas mortes reais e de vários assassinatos fictos. Na economia, também há muitos seguidores da doutrina de Janot: são governantes que nos prometem matar o déficit fiscal, que mata os investimentos do Estado, que mata nosso futuro, todo dia um pouco. Mas é mentirinha pois uma força maior os coíbe de atirar e matar o déficit.

Por isso morremos nós, sob os escombros de uma estrutura de impostos que nunca mata o déficit, mas serve para sustentar o luxo das corporações públicas e dos amigos do Estado, que nunca morrem. A Receita Federal acaba de calcular o avanço sustentado da receita pública, em cerca de 6% este ano. Daria para matar qualquer déficit. Mas o déficit persistirá pois nenhum tamanho de arrecadação será munição suficiente para matar a despesa que avança mais rápido. Em Terras de Janot os controles sociais e fiscais verdadeiros são mera ficção. Ou melhor, são jogos da elite protegida pelo Deus dos ricos. Aqui, para morrer de verdade, os privilégios só cessarão por um descuido do autor da novela de nosso descalabro permanente.

Tudo ficará exatamente como está em Terras de Janot, inclusive o próprio e sua merecida aposentadoria, reajustável com todas as garantias das mordomias dos seus pares da ativa.

Afinal, por que não? Why not? Há muito, inscrevemos na pedra constitucional que os incontáveis tributos federais, estaduais e municipais, mais o saco de contribuições sociais cobradas a título de tudo e de nada, são a seiva do povo sacada dele em cada compra, em cada pagamento que um faça. Dona Maria talvez não saiba (e não sabe mesmo) que ela vive para sustentar o insustentável gasto dos apaniguados do Estado, enquanto ela, Maria, vai morrendo por asfixia de impostos todos os dias de sua desgastada vida.

Em Terras de Janot, agora o Congresso quer fazer uma reforma de impostos. Em nome de Maria, os parlamentares generosamente programam a morte de vários impostos pois, afinal, uma reforma tributária deve propor simplificar a vida de Maria. Mas é ficção. Na reforma patrocinada pelos seguidores de Janot, nenhum imposto sairá de cena, nenhum tributo vai morrer. A reforma nos imporá mais dois ou três tributos, surgindo do nada como balas perdidas que atravessarão o bolso do brasileiro pagador do mingau dos poderosos. Em Terras de Janot, a morte de impostos também é mentirinha. Para ser morte de verdade, um morto de Janot não pode pode ter imunidades públicas. Quem mata e quem morre para valer em Terras de Janot é o cidadão mudo da cidade dos sem-esperança.