Jornal do Brasil

Coisas da Política

Coisas da Política

De olho em nossos irmãos

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Durante muitos anos olhávamos, com inveja, para nossos irmãos argentinos. O país, bem menor que o Brasil, logo desbravou sua fronteira agrícola, encontrou nos pampas úmidos um dos solos mais férteis do Planeta e desfrutou dessa riqueza. Antecipando em quase um século a globalização, los hermanos tiraram proveito da fortuna que os deixou, quase no fim da 1ª guerra mundial, com a maior renda per capita do mundo – US$ 17 mil, que hoje equivaleriam a mais de US$ 100 mil.

Construíram ferrovias para escoar a produção de grãos, carne e minérios. Investiram maciçamente em educação. A rápida urbanização, que concentrou mais de 70% da população na Grande Buenos Aires, facilitou a solução dos problemas de transporte, saneamento. O metrô de Buenos Aires tem mais de um século. No futebol, nos superavam nos torneios sul americanos. Para piorar, Hollywood cometeu gafe imperdoável: num filme em que Carmem Miranda namorava milionário argentino, a personagem desceu em Buenos Aires ao som de samba como se fosse a capital do Brasil. Muitos americanos ainda creem nisso... A derrota na Copa do Mundo de 50 ante o Uruguai, em pleno Maracanã, acirrou o complexo de vira-lata, explorado por Nelson Rodrigues.

Coube a Juscelino Kubitschek sacudir a poeira e iniciar a volta por cima, com a política de substituição de importações e a sinalização da nova fronteira agrícola do Centro-Oeste, cujo marco foi a interiorização do país com a instalação da nova capital em Brasília. A conquista da Copa Jules Rimet, em 1958, exorcizou o complexo de vira-lata. Pelé, e não o argentino Di Stefano, que fazia carreira no Real Madri mas nunca ganhara nada pela azul e branco, passou a ser o Rei do Futebol. Tentaram fazer isso com Maradona e não colou. O dopping põe em dúvida parte dos seus feitos. Messi é reconhecido, mas não pelos próprios argentinos, que vivem profunda crise de identidade.

Hoje os 44,9 milhões de argentinos vivem um dos seus piores momentos econômicos. O país está há dois anos em recessão e deve entrar em 2020 (se Macri conseguir o milagre de ser reeleito ou com a provável vitória de Alberto Fernández, com Christina Kirchner, de vice) ainda com o PIB negativo. O desemprego vai saltar para 11% este ano e ficar nesse nível em 2020 (era de 6,5% no último ano da gestão Kirchner).

Depois de romper os 13%, em 2017, o nível de desemprego no Brasil caiu para 11,8% em julho último. Os 210,4 milhões de brasileiros estimados pelo IBGE representam quase 4,6 vezes mais que a população da Argentina, que perde para os 45,9 milhões de São Paulo (ainda pelo IBGE). E o PIB portenho iguala o de Minas Gerais, atrás de São Paulo e Rio de Janeiro.

O futuro dos dois países é totalmente diverso nesta fase da globalização. Pelas dimensões econômicas, geográficas e demográficas, a Argentina tem mais passado que perspectivas de futuro, embora com grau de desigualdade bem menor que as do lado de cá da fronteira. Mesmo obsoleta, a infraestrutura argentina funciona a contento. Os problemas de infraestrutura, saneamento, saúde, educação e qualidade de vida dos brasileiros são abissais. E não há, no horizonte, recursos públicos para investir. Até agora a tal volta da confiança do setor privado, alardeada por Henrique Meirelles quando assumiu o ministério da Fazenda, após o impeachment de Dilma, não veio para reativar para valer os investimentos em estradas, ferrovias, saneamento e casa popular.

Neste momento, em função da forte desvalorização do peso argentino e do contágio para o real, em tempos de incerteza de uma economia mundial em desaceleração, devido à guerra comercial entre Estados Unidos e China, o que aproxima brasileiros e argentinos é o nível da renda per capita, medida em dólar.

Em levantamento feito pelo departamento econômico do Itaú, que é o maior banco privado em ambos os países, a renda per capita (a divisão do PIB pelos dos 210 milhões de brasileiros) deve cair para US$ 8.818 este ano e subir ligeiramente para US$ 9.513 em 2020. Em relação aos US$ 12.342 de 2013, houve uma queda de 28,5%. Frente ao recorde de US$ 13,3 mil de 2021 (ano em que o real estava fortemente valorizado), o tombo na renda per capita do brasileiro chega a 33,6%. Quem tem dinheiro para ir a Miami, Nova Iorque ou circular pela Europa sente um pouco. Mas o impacto é muito grande também na imensa fatia de sacoleiros que vão ao Paraguai comprar cigarros e outras muambas para revender, como forma de sobreviver à onda de desemprego.

E na Argentina, como é que fica o quadro? indagaria você, caro leitor, que chegou até aqui. Nas estimativas do Itaú, os argentinos ainda estariam este ano à nossa frente, com US$ 10.078 de renda per capita, levanto em conta a estimativa de queda de 2,5% no PIB e a cotação de 55 pesos por dólar ao final do ano. Para 2020 (quando o PIB cairia 1,1%) viria o pior: a renda per capita ficaria abaixo da brasileira, pela primeira vez na história, situando-se em US$ 8.537, contra US$ 9.513 no Brasil - se a economia ganhar tração por aqui.

Para se dimensionar o tombo da Argentina, vale lembrar que em 2013, a renda per capita de los hermanos era de US$ 14.489. Uma perda de 41%. Pelo visto, Jair Bolsonaro apostou no ‘cavalo’ errado quando foi fazer campanha aberta por Ricardo Macri e condenar a volta de Cristina Kirchner ao poder. E a derrota não será “por uma cabeza”, como no célebre tango do uruguaio Carlos Gardel, ídolo imortal dos argentinos, em seus nostálgicos momentos de glória.