Jornal do Brasil

Coisas da Política

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Depois de Onyx ou ônix, Ramos para dar sorte?

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Na mitologia grega a pedra de onyx significava unha e era usada como amuleto amoroso porque se pensava serem as unhas da deusa Vênus, cortadas por Cupido, que caíam sobre a Terra. Desde então, o ónix ou ônix, a pedra de quartzo de cor negra virou amuleto da sorte. Os romanos a tinham como pedra de proteção. Os indianos a usam contra a magia negra e a bruxaria. Mas, não confundir com o valioso mármore-ônix. A pedra ônix, muitas vezes tingida artificialmente, é uma gema relativamente barata. É usado como símbolo do anel de formatura dos médicos veterinários. Mas, sozinha, não cura.

Talvez tenha sido a mesma conclusão a que chegou o presidente Jair Bolsonaro ao decidir, esta semana, tirar a coordenação da articulação (?) política do governo com o Congresso das mãos do ministro da Casa Civil Onyx Dornelles Lorenzoni, para as mãos do futuro ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, que só assume a pasta em julho. Foram sucessivas derrotas do governo em votações importantes, como a desta semana, no Senado, do decreto que franqueava o uso das armas a milhares de brasileiros (promessa de campanha de Jair Bolsonaro) até o presidente reconhecer que o Onyz Lorenzoni, veterinário, com base política no Rio Grande do Sul, deputado federal desde 2003, não estava seduzindo deputados e senadores em votações com maiorias simples.

Para a aprovar a “mãe de todas as reformas”, a da Previdência, o governo carece de 308 dos 513 votos no plenário da Câmara e de 2/3 dos 81 senadores. Na votação no Senado ao uso das armas, o governo perdeu por 47 a 28. O registro da desarticulação política da base de apoio do governo tem sido recorrente: enquanto a oposição ou os que divergem dos projetos comemoram, a turma aliada faz selfie. Na votação do Senado, um dos que faziam selfie era o filho 01, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). Por ora, Onyx vai se concentrar na articulação política exclusiva da reforma da Previdência, à qual todo o sucesso Dio governo está subordinado.

Jair Bolsonaro passou várias legislaturas na Câmara. Lá conheceu muitos dos políticos reeleitos ou que seguem no mandato senatorial. A “nova política” ainda é em número e traquejo político inferior para virar o jogo e fazer maioria constitucional. Na Câmara, conheceu o general Luiz Eduardo Ramos, responsável pelos contatos do Exército com o Parlamento, desde o 2º governo Dilma, mantendo a função com Temer.

Uma coisa é articular os interesses do Exército; outra é atuar nas difíceis negociações onde aparar arestas e fazer conciliação é o mais importante. À distância um general seria menos eficiente que qualquer político em negociações com deputados e senadores ou ainda governadores e prefeitos que têm aliados capazes de serem cooptados a votar num tema que interessa a todos os administradores com as finanças em frangalhos pelo avanço da folha dos inativos e pensionistas sobre os gastos com pessoal.

Bolsonaro acha que o general Ramos tem mais jeito que Onyz. Uma das versões que circulam na média é sua capacidade de negociar até com parlamentares do PT e do Psol. E uma viagem à Amazônia, na qual travou bom relacionamento com o combativo deputado federal Ivan Valente (Psol-SP), é usado como exemplo. Questões de segurança nacional são bem diversas das sociais, onde a transigência dos partidos de esquerda é bem menor. Por isso, Ramos não entra no jogo da Previdência.

Mas se o governo não mudar a tática ma hora do grande jogo da reforma da Previdência, em julho, vai ser um fiasco igual ao da seleção brasileira masculina, que empatou num pálido 0 x 0 com a seleção da Venezuela. Na era Pelé-Garrincha ou de Zico&Cia, a Venezuela não marcava gols no Brasil, e o placar nunca era inferior a 4 ou 5 gols. A Venezuela fez o primeiro gol no Brasil nos anos 90. Comemoração quase tão grande quanto ao primeiro gol das jamaicanas, nos 4 x 1 para as australianas. Gesto digno do espírito olímpico retratado no belo filme “Jamaica abaixo de zero”.

Não foram os outros que melhoraram. O futebol brasileiro não empolga. A seleção verde-amarela masculina não leva torcedores aos estádios. E não só porque os ingressos são caros para o poder aquisitivo de um país em grave crise econômica e 28 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho e de consumo (os desalentados). Como não há craques dos clubes brasileiros vestindo a amarelinha, falta a identificação popular com os “ídolos”.

Neymar se foi, sem deixar saudades. Os jogadores saem jovens para uma carreira na Europa (o que resulta em time sem o entrosamento na zaga, meio-campo ou ataque como na época em que dois os três jogavam juntos em grandes clubes brasileiros) e voltam prestes a se aposentar ou após carreira modesta. E viram as “atrações” do Brasileirão.

A situação do futebol brasileiro, que vende o futuro e recompra o passado, se aplica à questão da Previdência social e da economia brasileira como um todo. O mundo caminha para a geração 4.0 e ainda discutimos o passado. As finanças públicas estão arruinadas por políticas de incentivos fiscais, desonerações e benefícios excessivos para os servidores públicos e militares, que arrastam os ganhos para a aposentadoria e ainda transferem a filhas solteiras. A economia carece de juros mais baixos. Não creio que um general vai ser capaz de mudar o jogo.