Jornal do Brasil

Coisas da Política

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País parado à beira do caminho

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Cinco meses se passaram desde a posse do presidente Jair Messias Bolsonaro e o país, como na greve dos caminhoneiros, que completa um ano, ou naquela música de Roberto e Erasmo Carlos, permanece “à beira do caminho”. Economia estagnada ou em recessão, desemprego voltando a crescer ao simples aceno de novas vagas no mercado, porque se há 13,177 milhões de desempregados, há 28,4 milhões (cifra recorde) de desalentados ou de trabalhadores com mão de obra subutilizada (trabalhando menos tempo do que gostariam ou de que necessitam para reforçar a renda da família).

Mais de 63 milhões de brasileiros permanecem com nome sujo no SPC. Limpar o nome, mediante ampla renegociação, com perdão drástico dos juros sobre juros cobrados (o anatocismo) era uma das propostas do candidato Ciro Gomes para aliviar as finanças das famílias e destravar a roda do consumo, fazendo a economia girar. Os números do PIB, que evitaram uma queda maior que os 0,2% graças ao consumo das famílias que cresceu 0,3% (em queda), mostraram a importância do mercado interno e do consumo das famílias para sustentar a economia e o emprego.

Ciro Gomes foi ridicularizado por sua proposta séria. Esta semana, nada menos que a Caixa Econômica Federal, o banco oficial de alcance mais popular, iniciou cruzada de renegociação que visa atingir 3 milhões de clientes, sendo 600 mil deles só na casa própria. E vai fazer quase como Ciro propunha: dívidas até R$ 3 mil terão desconto de 80% nos juros, que cairão de 10% para 2% ao mês. Não chega a ser a redução de 92% que grandes empresas, como o grupo Abril conseguiu. Ou a Odebrecht tentou, sem sucesso.

Renegociar dívidas a juros mais baixos, abatendo o anatocismo perverso a que nos conduzem as escorchantes taxas do sistema financeiro é a saída. Vale lembrar que o anatocismo, a prática dos juros capitalizados, ou dos juros sobre juros incide nas contas ativas e passivas da Receita Federal (corrigidas pela Selic), idem na dívida pública e nas aplicações financeiras. A grande diferença é que a Selic rendeu 0,54% em maio, as cadernetas de poupança com depósitos anteriores a maio de 2021 tiveram correção de 0,50% e as cadernetas abertas posteriormente, só 0,30%.

Juros do cheque especial de 7,50% a 12,50% ao mês (cobrados pelo Itaú) levam a taxas anuais de 125% a 300% ao ano). E o que dizer da proposta da loura da Crefisa (patrocinadora do Palmeiras, time do presidente) que bate à porta do endividado oferecendo crédito pessoal mesmo a quem está negativado, com juros que chegam a 910% ao ano (no crédito pessoal não consignado, segundo levantamento do Banco Central entre os dias 13 e 17 de maio)? Se o spread do anatocismo é descomunal, essa taxa é pornográfica. Me admira que o Conar não se manifeste em relação a propaganda tão enganosa.

A verdade é que as dificuldades que as famílias brasileiras e os trabalhadores e empresários estão vivendo passaram ao largo do debate eleitoral. O país está quebrado há muitos anos, fruto dos equívocos da “nova matriz econômica” da era Dilma. Mas a questão da reforma da Previdência jamais foi abordada em profundidade. O candidato Bolsonaro sempre se posicionou contra e a facada o tirou da exposição nos debates.

O país tem enorme dificuldade para melhorar sua posição na economia mundial (há quatro décadas o Brasil participa apenas com 1,2% a 1,3% do comércio mundial porque, na falta secular de cuidados da sua elite com a educação de qualidade, não conseguimos avançar na produção de bens de alto conteúdo tecnológico: celulares, automóveis de matrizes estrangeiras e os aviões da Embraer-Boieng dependem de equipamentos importados em níveis que vão de 35% a 70% do valor do produto final). E, quando saem de fábrica, os produtos pagam dos mais caros impostos do mundo, porque a pirâmide tributária do país é invertida. Paga-se mais sobre o consumo e o trabalho do que sobre os rendimentos de aplicações financeiras, dividendos ou o patrimônio...

Cinco séculos após o Descobrimento, o Brasil não consegue romper a pauta de exportação de produtos primários minerais ou agrícolas, que pouco valem na balança confrontados com o alto valor tecnológico dos bens importados.

Premido pela crise energética e a necessidade de evitar maiores danos ao Planeta, as maiores nações e corporações do mundo (inclusive as americanas, apesar do desdém de Trump aos acordos internacionais do clima) trabalham para mudar a matriz da economia mundial. Carros elétricos tomam o espaço dos motores tradicionais movidos por combustíveis fósseis, substituídos por combustíveis renováveis ou menos poluentes. Aluguéis de carros por aplicativos das próprias fábricas em lugar da propriedade física. Enquanto o mundo se move rumo à geração 5G ou na indústria 4.0, seguimos disputando quem dá mais incentivos para ficar com a antiga fábrica da Ford, em São Bernardo do Campo (SP). Somos a vanguarda do atraso. Quem sabe a Fusão Fiat/Chrysler com a Renault não sacode o mercado aqui também?

Nada disso foi discutido numa campanha eleitoral atípica, em que se deu mais espaço a uma agenda de costumes retrógrada, ao agrado dos segmentos religiosos conservadores. Como na greve dos caminhoneiros, em maio e junho do ano passado, a população, a exemplo dos veículos nas estradas, segue parada às margens dos postos “Ipiranga” e BR, esperando sinais de que dá para seguir adiante.