A dor de Damares

A futura ministra Damares Alves contou em detalhes, em entrevista ao site Uol, os abusos sexuais que sofreu na infância. O relato é doloroso, revoltante, comovente. Devemos louvar a coragem com que ela expõe sua dor, talvez com detalhes desnecessários, mas ela acha que isso ajuda a explicar sua trajetória. Ela merece o mesmo aplauso que as estrelas do #Metoo. No final da entrevista, ela tromba com o presidente eleito Jair Bolsonaro, ao reconhecer a importância da educação sexual nas escolas. Para ele, isso é tarefa exclusiva “do papai e da mamãe”.

Todas nós, mulheres, devemos nos solidarizar com ela, como fez ontem Manuela D’Ávila, do PC do B, candidata a vice na chapa do petista Fernando Haddad, que escreveu numa rede social: “Damares, que terrível história de abuso e violação que passaste. […] Nós precisamos nos unir na mesma direção, lutando para que nenhuma criança, para que nenhuma mulher, passe pelo que passaste. Use sua nova função para batalhar por todas nós, incluindo você, que sofreu na própria pele essa barbárie. Contamos contigo, estamos contigo!”

A futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos foi estuprada por um pastor que convivia com sua família dos seis aos oito anos. Depois foi molestada por outro, numa evidência de que a igreja não é necessariamente uma rede protetora. A Igreja Católica vive às voltas com casos de pedofilia. Estamos assistindo à queda e prisão do médium João de Deus, que atraía gente do mundo inteiro à Abadiânia. Mais de 500 mulheres o denunciaram por abusos sexuais nos atendimentos espirituais.

A família de Damares, ela concluiu mais tarde, tomou conhecimento, mas seus pais nunca tocaram no assunto, embora ela procurasse “dar sinais” do que acontecia. Foi nessa fase que, pronta para o suicídio no alto da goiabeira, teria visto Jesus. Pelo menos com o silêncio, seus pais protegeram os abusadores, numa evidência de que a família também não é garantia de proteção. As estatísticas mostram que a violência sexual contra crianças e adolescentes acontece muito frequentemente dentro de casa, pelo padrasto, pelo próprio pai ou por parentes do convívio íntimo.

Quando a família falha, por omissão calculada ou por despreparo, a escola pode ser a rede protetora, proporcionando informação correta e ensinando sobre direitos. A educação sexual é muito importante, embora Bolsonaro tenha dito muito recentemente, numa transmissão digital, que isso é assunto para “o papai e a mamãe”, confundindo-a com a tal “ideologia de gênero”. Ela ensinaria que ninguém nasce homem ou mulher, que a distinção é criação da própria sociedade. Nunca vi uma testemunha dessa pedagogia, que deforma o ensino do respeito às diferenças de toda ordem, inclusive de gênero.

No final de sua entrevista, Damares bate de frente com Bolsonaro, ao dizer: “Sim. Sou a favor da educação sexual. Vou conversar com o Ministério da Educação sobre isso. A escola vai ter que ter um papel importante para combater abusos contra crianças. A primeira ideia é capacitar professores para identificar violências contra os alunos. Mas é preciso respeitar as especificidades de cada idade. E a família deve ser ouvida e consultada. Se a família não quiser que o filho aprenda sobre o assunto, vai ser responsabilizada por isso.”

Nisso, ela se engana. E se a família for como a dela, que pelo visto, fechou os olhos?

Por menos empregos

Os economistas Adolfo Sachsida e Alexandre Ywata, que são do IPEA mas integram a equipe de transição Temer/Bolsonaro, defendem num estudo o fim do Simples nacional, regime tributário adotado pelas micro e pequenas empresas, as que mais empregam no Brasil. Se a ideia vingar, a maioria delas fechará, aumentando o índice já calamitoso de desemprego, atualmente em 11,9%. Com o faturamento baixo que têm, não suportariam a tributação pelo lucro real ou presumido. A ideia está para o desemprego assim como a lei trabalhista “próxima da informalidade”, defendida por Bolsonaro, está para a crise da Previdência. Com menos gente contribuindo, maior será o deficit e não haverá reforma que dê jeito