Símbolos e palavras

A família Bolsonaro tem um domino precário das palavras mas, na campanha, manuseou símbolos com maestria. Mas nas últimas horas produziu dois gestos simbólicos de alto significado sobre a servidão voluntária do futuro governo aos Estados Unidos, que não costumam valorizar quem se entrega de graça.

Primeiro o deputado Eduardo Bolsonaro saiu de um encontro na Casa Branca usando um boné com a inscrição “Trump 2020”. Ontem o pai bateu continência para o conselheiro de segurança nacional de Trump, John Bolton, gesto reservado às patentes superiores, na linguagem militar. A continência ofende a liturgia do cargo que ele ocupará e lembra outro momento de sabujice nacional: em 1946, após discursar em homenagem ao general Dwight Eisenhower, que visitava o Brasil, o deputado Otávio Mangabeira ajoelhou e beijou-lhe a mão. A imagem entrou para a História.

Agora que a campanha acabou, Bolsonaro e seus filhos mais aguerridos precisarão ter mais cuidado com os símbolos e também com as palavras. Anteontem, ao admitir que partiu dele as gestões junto ao Itamaraty para que o Brasil recuasse na oferta para sediar a reunião da COP-25, conferência da ONU sobre mudança climática, Bolsonaro insinuou que pode romper com o Acordo de Paris: não gostaria de fazê-lo numa reunião organizada pelo Brasil. Se a decisão não está tomada, não deveria mencioná-la. Ontem mesmo o presidente francês Emmanuel Macron deu o troco, afirmando que a França poderá vetar o acordo comercial que a União Europeia e o Mercosul negociam desde 1999 e está na fase conclusiva. “Não podemos pedir aos agricultores franceses que mudem seus hábitos de produção para liderar a transição ecológica e assinar acordos comerciais com países que não fazem o mesmo.”

Palavras têm consequências. Se Bolsonaro, tal como Trump, romper o acordo, sobrará para o agronegócio brasileiro, hoje beneficiados, em suas exportações, pela boa reputação que o Brasil, nos últimos anos, angariou na questão ambiental. Este trunfo será jogado fora.

Na noite de anteontem o filho Carlos, que milita intensamente no Twitter, postou uma mensagem que, se não for leviana, é preocupante. “A morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto. Principalmente após de sua posse! É fácil mapear uma pessoa transparente e voluntariosa. Sempre fiz minha parte exaustivamente. Pensem e entendam todo o enredo diário!”. Quem, entre os mais próximos de Bolsonaro, pode desejar a morte dele, principalmente depois da posse?

Ora, quem sempre ganha com a morte de um presidente é o vice, que herda o cargo. Assim, Carlos autorizou especulações, por mais impróprias que sejam, com o nome do general Mourão. Em enquete do portal Brasil247, 48% disseram que ele foi leviano e 52% que se referiu ao vice ou a militares. Mourão, por sinal, tuitou ontem, falando da criação de “um centro de governo que acompanhe projetos essenciais, dará sinergia e dinamismo às ações necessárias, sem cizânias ou dispersões.” Já o pai saiu pela tangente dizendo que estava “muito perto” de quem lhe deu a facada. Carlos, na mesma rede, trocou desaforos com o deputado estadual Marcelo Freixo, lembrando que o agressor foi filiado ao PSOL. “Estamos de olho”. Dentro de alguns dias comandarão a PF, e se têm dúvidas, poderão refazer a investigação.

Voltemos aos símbolos. O boné do deputado, que agiu como um futuro chanceler sem ter mandato para isso, e a continência do pai a Bolton, falam de um alinhamento gratuito com Trump, oferecido, sem nada pedir em troca. Além de infrutífero, este ímpeto ideológico pode comprometer, no futuro, as próprias relações com os Estados Unidos. Quem garante que Trump será reeleito? E se vier um democrata, como ficará o Brasil depois de ter comprado brigas com árabes e chineses para agradar Trump, em detrimento dos próprios interesses nacionais? Estes desatinos em política externa acabarão quando houver um chanceler, dizia-se antes. Mas Ernesto Araújo, o escolhido, pensa como a família.