Hora de ser vidraça

O presidente eleito Jair Bolsonaro não se deu conta de que já passou do papel de atirador ao de vidraça. Acontece com todo governante, mas no seu caso começou antes da hora porque continuou atirando pedras depois de eleito. Seus seguidores podem fazer isso nas redes sociais, pois são mesmo franco atiradores que não respondem pelas consequências do que dizem.

Os ministros já indicados, da mesma forma, agora se tornaram alvos, a começar de Sérgio Moro, que não se vexou em pedir exoneração do cargo ontem, horas depois do depoimento do ex-presidente Lula à juíza que o substitui na vara de Curitiba. Acabou dando razão à denúncia do líder do PT, Paulo Pimenta, de que saiu de férias para continuar tendo controle sobre o processo de Lula. Exonerado, não poderá mais responder aos processos abertos pelo CNJ mas o PT prepara novas ações contra ele, junto ao STF. É o início da vida de vidraça.

Na transição, Bolsonaro vem colecionando desgastes, mas nenhum o exporá tanto ao apedrejamento como a retirada dos médicos cubanos do programa Mais Médicos, por conta dos desaforos que vem dizendo contra eles e contra Cuba desde a campanha para o primeiro turno. As consequências ainda nem se fizeram sentir, e milhares de prefeitos já externam revolta e cobram providências.

Os médicos cubanos já começaram a ir embora e o êxodo total vai se dar no tempo mais curto possível, cumpridas as formalidades necessárias. Um grupo de 196 deles, cujos contratos haviam vencido mas poderiam ser renovados, desembarcou em Havana na madrugada de ontem. Foram recebidos pela vice-ministra da Saúde, colegas de profissão e outras autoridades locais, em ato que se destacava uma faixa: “A dignidade veste branco”. A doutora Anabel Mariedo Oropesa, que estava no Tocantins, disse ao Granma: “Regressamos hoje, e assim o farão nos próximos dias nossos colegas, com toda dignidade do mundo, deixando uma bela história escrita no convívio com este povo tão necessitado, que aprendeu a amar Cuba através de seus médicos”. Para Lisván Cala Rosabal, Bolsonaro demonstrou total desconhecimento sobre a medicina de Cuba e a importância do trabalho que seus médicos faziam no Brasil. “Não sabe o valor do que está perdendo, mas nós seguiremos ajudando onde nos chamem a colaborar”.

O governo de Temer tenta ajudar, lançando ainda este mês edital de seleção de médicos brasileiros. O problema é que eles não querem ir para Quixeramobim e lugares assim.

Mistificando o problema, Bolsonaro disse ontem nunca ter visto uma autoridade ser atendida por médico cubano. Claro, eles não vieram aqui para trabalhar em hospitais de elite, mas para atender nos cafundós onde não há médicos brasileiros.

Quem não sabe disso? Insistiu na desculpa humanitária, de que só pediu para que recebessem a bolsa integral e pudessem trazer as famílias. Algumas vieram, outras não, até por conta dos filhos estudando em Cuba, mas não são proibidas de vir. E quanto à parte retida da bolsa paga pelo Brasil, nunca foram enganados. Estes recursos são investidos por Cuba em outras ações de saúde, inclusive na cooperação com países que não pagam aos médicos, como é o caso do Haiti, por exemplo.

Emulando o titular, o vice Mourão postou uma piada no Twitter: “No futuro, quando Cuba for livre, os livros contarão a história do homem que libertou oito mil cubanos da escravidão: Jair Bolsonaro, o Justo.”

Piada mundial virou também a escolha do futuro chanceler. “Novo ministro de Relações Exteriores do Brasil acredita que mudança climática é uma trama marxista”, proclamou o prestigiado jornal ingles The Guardian, ao falar de Ernesto Araújo, para quem a esquerda “quer uma sociedade onde ninguém nasça, muito menos o menino Jesus”. De todas as escolhas feitas por Bolsonaro, esta é que lança mais incertezas sobre o futuro brasileiro. Se sua pregação antiglobalista for posta em prática, vamos nos tornar um enclave fundamentalista e isolado.