Por Coisas da Política

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COISAS DA POLÍTICA

O presidente e suas crias

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Publicado em 03/11/2026 às 16:37

Alterado em 03/11/2026 às 16:37

Nos tempos em que adolescentes liam as novelas de Mary Shelley e do Doutor Silvana, isso século e meio atrás, tinham intimidade com as histórias de cientistas loucos ou criativos, que acabavam em maus lençóis para conviver com os monstros que elaboravam. O resultado eram grandes problemas. Isso vem à lembrança, quando ganham forma e tamanho os desafios para o presidente Lula rumo ao quarto mandato, quando terá pela frente adversários raivosos e aliados postulantes.

Bolsonarismo e petismo são as crias do seu laboratório político. O petismo, porque aprendeu a viver à sombra dele, sem nunca dar sinais de se libertar da generosa dependência. No campo oposto, a corrente que levanta a bandeira do ex-presidente Bolsonaro promete atormentar. É outra obra da recente gestão de Lula, que fez ouvidos moucos, desconsiderou advertências, e não deixou que Bolsonaro saísse de cena, recolher-se ao ostracismo dos que não são mais. O bolsonarismo é, pois, a criatura contra o criador, agora confortado na situação de cobrador implacável, sem ter de fazer o que havia prometido na campanha eleitoral.

2 – Há artigos neste mesmo espaço, meses atrás, que subscreveram o alerta. Dizia-se, como mais ainda se diz hoje, o presidente enfrentaria dificuldades por cultivar o inimigo, ao invés de tentar sepultá-lo politicamente.

Nem é preciso esperar janeiro e os meses depois para prever os desafios decorrentes dos dois "ismos" que prosperaram e engordaram, com a sensação de bem sucedidos. Saíram das urnas bem divididas do segundo turno.

Vejamos, a partir de agora, o PT, coadjuvante privilegiado. Sente-se, chegado o derradeiro mandato, no direito de construir, em quatro anos, as bases do continuísmo sem Lula. Sem que falte mais esse "ismo"... É um pesado desafio para o engenho dos pensadores petistas, porque Lula lhes fez o favor incômodo de não amamentar possíveis sucessores. Porém, animado pela ideia de que o poder é sempre possível, o partido certamente deve olhar para o futuro, menos para um presente a caminho do ócio; e nisso a lealdade a Lula fica mensurada pelas projeções, não pela atualidade dos fatos.

Segunda dificuldade a merecer tratamento vem dos bolsonaristas, bafejados por bancadas poderosas no Congresso Nacional, prometendo cobranças implacáveis. Não só por serem elas numerosas, mas, ainda, pela expectativa de senadores e deputados de terem as bênçãos de forças políticas externas, que vêm de governos próximos ou distantes.

3 - Bons conselheiros presidenciais, se seriamente vocacionados para a missão de aliviar a caminhada de Lula, agora sob pesos octogenários de uma campanha radicalizada, andariam bem se o levassem a considerar que, para lidar com as diversidades, evidentes ou latentes, só há duas vias a seguir quando no horizonte abrem-se inimigos declarados ou aliados exaustos: a tática e a estratégica. São coisas muito diferentes, como sabem os militares nos campos de batalha, mas na política podem se encontrar no enfrentamento diverso. Então, nessas horas, o melhor para o governo é propor uma larga anistia, sem descuidar de que a grandeza desse gesto é tão maior quando vem como inspiração dos vitoriosos.

( Se o Brasil precisa de paz – e como precisa! – mantendo as disputas políticas em nível civilizado, parece judicioso e oportuno o lamento do arcebispo mineiro dom Gil Antônio, em recente homilia: a eleição deste ano deixou um rastro de ódio: a esquerda perseguindo a direita; a direita perseguindo a esquerda).

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